Início Opinião De... Mukhulhwani O Ministro (1)

O Ministro (1)

A opinião de: Butsu Makanda

454
0
COMPARTILHE

MINISTRO E “MUKHULWANI”: O MITO E SUA MORTE

Até aos meus 20 anos de idade a palavra “Ministro” não estava gravada no meu cérebro nem circulava na minha boca, nem em todas as bocas do meu pequeno mundo. Simplesmente não era conhecida. Um primo meu mais velho que já andava no sétimo ano tinha uma disciplina que parece que se chamava “Organização Política e Administrativa da Nação” me falou pela primeira vez de existência de Ministros.

E falava muito do Ministro das Colónias, mas mesmo assim entrava por uma orelha minha e saía por outra. Na mesma altura mais ou menos também soube de algumas coisas de política sem pensar que era política. Soube, por exemplo que Moçambique era colonizado, mas que isso não era nada bom. Por isso, havia Moçambicanos escondidos em outros Países que queriam acabar com isso. E sentia se que não era nada mesmo bom. Tudo era muito mais difícil para os Moçambicanos: estudar, emprego, salário, etc. Os Moçambicanos só marchavam a frente nas coisas que não eram boas e até perigosas: guerra, trabalho forçadamente voluntário, cadeia, cultivar culturas que não queriam como o algodão. Para as coisas boas mesmo nem marchavam. Ficam parados lá atrás. Alguns pouquinhos que eu conhecia conseguiam marchar, mas poucos metros. Nem chegava a quilómetros. Tudo isto a história fala muito. Não vale a pena me alongar. O que mesmo quero dizer era que não se sonha com coisas que não se conhece. Por isso, nunca me atrevi a sonhar ver um Ministro, muito menos em eu me tornar num deles. Ministro não existia. Ponto final! Estou a dizer isto tudo porque um dia eu próprio fui Ministro, sem ter sonhado para tal. E quero falar um pouco sobre isso, porque aqui na nossa terra não parece haver clareza comum sobre essa figura.

Não sei bem onde começou a minha caminhada para Ministro, porque essa caminhada não foi orientada por mim nem por ninguém. Acho que tudo começa com o os Acordos entre a FRELIMO e o Governo Português para deixarmos de ser colónia e ficarmos independentes e não ter portugueses a atrapalhar a nossa vontade como Moçambicanos. Depois desses Acordos, a FRELIMO chegou aos pingos em Moçambique. Primeiro alguns soldados, chamados todos guerrilheiros agora (antes eram terroristas), depois políticos da FRELIMO de grande peso, depois se fez um Governo de Transição, e finalmente chegou o próprio Samora Machel com as palavras mágicas que de um momento para outro fez-se a independência. Samora Machel demorou mais ou menos um ano a viajar da Tanzânia onde morava para Maputo onde iria morar.

Agora com todos eles da FRELIMO fora dos esconderijos e com as palavras mágicas, chegou o Governo da independência total. Estas chegadas de pouco a pouco, grupo a grupo, foram cronometradas e a cada chegada a excitação minha e dos meus amigos crescia. Em cada chegada vinha uma esperança sempre renovada para não ir para a tropa e continuar a estudar e ou a trabalhar. Todos as comunicações e encontros que tínhamos com FRELIMO em reuniões ou comícios ouvia-se repetidamente que estudar já não era favor que se dava, mas sim obrigação do cidadão. Até os mais velhos tinham que estudar, pelo menos para aprender a escrever e ler. As escolas desses mais velhos eram chamadas de campanhas de alfabetização. E eu já um pouco estudado bem a frente da alfabetização, podia continuar a estudar à vontade e sem pagar nada. Trabalhar também não era problema, porque muitos trabalhadores portugueses estavam a ir embora para a Metrópole e havia lugar para eu trabalhar com o Governo. Eu, que até ali os únicos trabalhos que tinha experimentado era de pastor de bois, servente na casa do oficial de registo civil e contínuo na escola onde estudava, poderia agora trabalhar para o Governo. A alegria era muito grande. A FRELIMO virou a família querida e amada. Engajei me na sua agenda política de cabeça, pois era programa de família. Comecei a ser voluntário para as actividades da FRELIMO: Grupo Dinamizador, Organização da Juventude Moçambicana (OJM), grupos culturais, organização dos comícios e visitas de grandes chefes, etc. Não era para menos.

A chegada da FRELIMO tinha repentinamente acabado com o desespero do futuro de um menino de 20 anos no fim da adolescência. É como se a FRELIMO fosse uma mão amiga que te tira de um buraco negro fundo onde não havia forma de sair. Os Frelis pareciam mesmo da malta. Como nesse ano de 1974 (quando tudo começou a rolar rápido a favor dos Moçambicanos) eu tinha terminado o quinto ano dos liceus (hoje parece que é nona classe), fui admitido com a maior das facilidades para ser professor do ensino secundário. O salário era algo que nunca tinha sonhado. Se não me engano eram 10 contos (10 mil escudos). Se a memória não me falha o meu pai ganhava 2500 escudos e eu de repente ultrapassei a ele grande velocidade. Mais ou menos nesta altura tive a possibilidade de estar frente a frente com um Ministro: O Camarada Guideon Ndove que era Ministro de Educação do tal Governo de Transição. Foi um milagre feito, ver frente a frente aquele Ministro alto, forte, sorridente e simpático. Se não tivesse muita gente a volta dele a tratá-lo com vénias e respeito não dava para acreditar, que o mito do Ministro, estava ali desfeito. Até apertei a mão dele. A única coisa que estranhamos naquele Ministro é que ele falava muito mal português. Nós que tínhamos sido basicamente torturados com Camões, os Fidalgos da Casa Mourisca, A Rosa do Adro, o Crime do Padre Amaro, etc. para nunca estragar a língua portuguesa, estávamos ali a ver um homem que era o chefe grande de educação a maltratar o português. Dizia barbaridades como “a nossa País, a minha coração” e outras coisas assim. Até o meu pai que tinha terminado os estudos na terceira classe rudimentar não assassinava o português daquela maneira.

Depois de o Ministro ir embora houve debates em todo o lado sobre esta matéria. O esclarecimento foi chegando aos poucos. primeiro o Camarada Guideon Ndove tinha curso universitário, mas tinha feito em inglês num País que falava inglês. Segundo, o português não passava de língua de colonizador, mas que tínhamos que adoptar por questão de unidade nacional, já que não tínhamos uma língua tradicional que se falasse em todo o País. Gostamos bem da explicação. Se falava bem inglês estava tudo bem, pois esta língua era tida como bem superior ao português. A explicação entrou tão bem na nossa cabeça que alguns de nós acharam por bem também falar mal o português. Mas a moda não pegou.

O segundo a chegar foi o Camarada João Ferreira. Não era Ministro, mas era coisa bem grande, e bem perto dos Ministros. Este veio com mistérios de poder ao contrário. Não tinha gente a volta dele. Vinha só com duas pessoas locais. Vinha num Renault 4, carro que já na altura era de branco não bem rico. Não estava tão bem vestido como o Camarada Ndobe. Até tinha botas de matope, daqueles baratíssimas que na altura chamávamos de “mata-cobra”. Como ele era de agricultura compreendemos na hora o porque. Tinha estado a visitar as machambas do regadio. O João fez-nos rir muito. Tinha um grande sentido de brincadeira que nos punha a vontade. Mas surpreendentemente, apesar de ser branco, o português dele era não parecia bom. Se o meu professor de português tivesse ouvido ele falar, havia de dizer que fala a preto. De novo os esclarecimentos vieram: Ele também tinha curso superior de Engenheiro Agrónomo, tirado num país chamado Cuba, onde se falava espanhol. Depois veio o Ministro chefe dos Ministros, designado de Primeiro Ministro. E era o Camarada Joaquim Chissano. A euforia era grande. Eu que durante muitos anos nunca soube de Ministros, de repente eles rolam a minha frente, incluindo o Chefe de todos eles.

O Primeiro Ministro era muito simples na pose, atitude, sorriso, palavras, etc. Mas a comitiva dele metia respeito. Nunca tinha visto nada igual. Muitos carros a acompanhar e muitos polícias, todos brancos. Soldados guerrilheiros e não guerrilheiros (brancos portugueses) aos montes, com armas e tudo e a protegerem o Camarada Chissano. Pela primeira vez eu via brancos ao serviço de um preto. O mundo estava ao contrário mesmo. Aquilo assustava, entusiasmava e excitava. Tudo isso ao mesmo tempo. Também apertei a mão a ele. Estávamos em fila e ele cumprimentava cada um e nós tínhamos que dizer o nosso nome. Quando disse o meu nome, fiz com pronúncia correcta de quem fala português, propriamente. Ele corrigiu e repetiu o meu apelido, tal e qual os meus avôs diziam. Até o meu apelido era aceite tal e qual era. Sem aportuguesamentos. Até pensei em ir ao registo civil acertar o passo com os antepassados, por registar o meu nome como deve ser. Bom, a partir daqui, fui vendo mais Ministros com destaque para o Armando Guebuza, Joaquim de Carvalho, Salomão Munguambe, Mário Machungo, etc. Tudo isso ainda lá na minha Vilazinha, onde era professor. A palavra Ministro tinha nascido na minha cabeça e começava a circular com frequência na minha boca e boca dos meus amigos.

A minha iniciação na vida de Ministros tinha começado. Entre nós já falávamos quase diariamente dos Camaradas Ministros. A palestra do Ministro tal, o Ministro tal que contou uma história interessante, o outo que teve um esgotamento cerebral, etc. Quando um Camarada Ministro tinha um esgotamento cerebral, ficávamos com pena dele, porque isto significava que o desgraçado trabalhou tanto sem descanso, que esgotou o cérebro. Mesmo entre nós começou a haver pessoas a imitar os Ministros com esgotamento cerebral, ou início dele. Era moda ter algum tipo de esgotamento, até que alguém espalhou a notícia de que Samora Machel teria dito que quem esgota o cérebro, é porque tem pouco cérebro. Tem cérebro de galinha. A partir daí nunca mais ouvimos falar em esgotamento cerebral, muito menos alguém confessar que tinha uma coisa dessas. Mas O mito de Ministro já era tão realidade como a independência de Moçambique e a sua autodeterminação. Continua …

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here