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O Ministro (2)

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A opinião de Butsu Makanda (2)

QUANDO O MEU MINISTRO ERA MUKULHWANI

Lá aonde cresci, se fala de uma história complicada e conturbada. Um pouco antes de eu nascer, a Metrópole tinha decidido mandar para aquela zona portugueses de raça banca para ocupar a área e fazer agricultura mais a sério do que os nativos. A chegada daqueles novos camponeses trouxe confusões complicadas e complicações confusas. Uma dessas confusões foi a de que os indígenas (ou nativos) tinham que ceder obrigatoriamente as suas terras ao grande projecto de chegada de camponeses da metrópole que sabiam melhor agricultar. Assim muitos dos residentes daquela zona perderam as suas terras. E não só as terras de cultivar, mas também as do capim do gado e aquelas onde tinham mesmo as suas casas. Parece que aquela história famosa que se conta de que os portugueses chegaram com padres católicos e com bíblias. Os padres convenciam os locais de que essas coisas dos antepassados e dos deuses das famílias não era bom porque eram coisas do diabo.

A coisa boa mesmo era a bíblia de um só Deus e a igreja dos católicos. Assim distribuíam as bíblias aos nativos em troca das terras. Verdade ou não esta história da bíblia, a verdade é que os nativos perderam mesmo as suas terras. Mas o que os portugueses e os padres deles não entendiam é que para os residentes nativos, indígenas, a terra não é só para machambar. A terra é dos antepassados, presentes e futuros. Terra é bilhete de identidade de quem vive nela e usa ela. O residente não tem só terra. Tem relação com a terra e com as árvores e animais que vivem por perto. Uma relação muito grande e complexa. Relação espiritual, relação de poder, relação de sobrevivência, relação com Deus ou com os deuses, relação com o futuro, e muito mais. Pessoa sem terra não existe, porque não é pessoa nem animal e nem árvore. Ao ficarem sem terra, ficaram desterrados. Levou um tempo devagarinho para os desterrados aterrar de novo, mas com problemas de mais. Um dos problemas era aonde encontrar capim e água para o gado, sobretudo os bois, porque os cabritos se desenrascam em qualquer lugar. Por isso, nessa altura, eu como outros miúdos tínhamos que levar o gado a grandes distâncias para encontrar capim que os bichos gostavam, sobretudo na estação do frio em que não chove e o capim falta ou os bois não gostam por estar seco mesmo. O lugar onde levávamos os bois se chama “livalene”.

Eu penso que isto quer dizer pastagem em português. Só que como não havia muitos livalenes bons, os grupinhos de rapazes pastores de gado entravam muitas vezes em lutas para conquistar uma zona de pastagem que fosse boa. Luta mesmo de corpo a corpo, baseada em socos. Mesmo ponta pé não valia. Também, às vezes o gado, por engano ou de propósito entrava na machamba de alguém e devorava o que lá estava (massaroca, feijão, folhas de abóbora, amendoim, etc.). Quando assim acontecia, o dono ou donos da machamba mandavam os seus miúdos para lutar com os miúdos donos do gado invasor. Era “singa yivona”1. Porque eu estou a contar isto? Para dizer que pastor de gado era também guerreiro conquistador de terras entre os indígenas locais. Para poder ser guerreiro tinha que ser parte de uma organização que tinha regras para funcionar. O Chefe dessa organização era o “Mukhulhwani”. Originalmente Mukhulhwani significa irmão mais velho. Pelo que sei e me parece não se aplica às irmãs.

A palavra se estendeu para dizer chefe entre os pastores de gado. Este Chefe, manda nas pessoas todas to grupo, distribui tarefas, organiza a luta quando é necessário, decide onde se vai pastar, organiza viagens para “dibine”2, e também se paga imposto a ele. Quase igual a um Primeiro Ministro. A diferença grande, é que este Ministro não é votado nem nomeado. Ele chega ao posto, vencendo todos a porrada. Quem quer ser Mukhulhwani é assim mesmo. Eu explico melhor. Imagina que o grupo tem 10 pessoas. 9 das pessoas podem admitir que um deles vence a todos eles em socaria. Esse suposto vencedor fica automaticamente Mukhulhwani de todos. Mas se alguém do grupo achar que não é bem assim, podem desafiar o pretensioso Mukhulhwani a uma luta. Escolhe-se um dia e um local para a pancadaria. E tem que haver assistência dos outros, muito muito aqueles que pensam desafiar a hierarquia também. Tal e qual se vê nos duelos dos cow-boys que também nasceram como pastores de gado lá nos Estados Unidos da América. Só que aqui o desafio acaba em morte porque a luta é feita com pistola.

No nosso caso não se mata. É porradar com soco até o outro aceitar que já levou no focinho demais, ou fugir. Aquele que ganhar, ganhou o posto até ser desafiado por outra pessoa de novo. Mas não acaba aqui. Entre os outros 9 tem que se saber quem segue a quem. Não há iguais. Ou a hierarquia é aceite por resignação de quem não quer levar no focinho, ou vai a luta mesmo. Assim, existe o Mukhulwani de todos (Primeiro Ministro) e outros Mukhulhwanis mais baixos na escada de mandar (Ministros, Vice-Ministros, Directores, Adjuntos, Chefes até servente)). Agora os mais fracos, e que não vencem ninguém tem o direito de escolher entre os fortes quem pode ser Mukhulhwani deles. Isto é importantíssimo porque se nunca venceste ninguém todos vão mandar em ti. Vais ser escravo de todos. O melhor é teres um Mukhulhwani que te protege e te defende. Tipo padrinho assim. Mas isto tem outros problemas.

Tudo o que tens pertence ao teu Mulhulhwane. Suponhamos que trazes o farnel que a tua mãezinha te preparou para o dia, ou trazes uma fisga nova, faca, azagaia, etc. Tens que apresentar tudo ao teu Mukhulhwani e ele vai decidir o destino. Pode ficar com tudo, dividir contigo, ou com algum Mukhulhwani acima dele. É uma espécie de tributo, porque se nunca trazes nada, podes ficar sem o protector. Esta é a minha primeira imagem de autoridade fora de casa. A autoridade mais alta que tinha na cabeça até aquele momento que vi o Guideon Ndobe, Ministro de Educação que dava pontapés na gramática.

Eu estou a contar esta história só para dizer alguma coisa. É que hoje parece me que os Mukhulhwanis existem com outras cores e disfarces. Mukhulhwani até pode ser um País. País que tem pouco desenvolvimento, ou desdesenvolvimento tem que ter um País Mukhulhwani que tem desenvolvimento grande e pode proteger o pequeno contra os outros grandões. Se País pequeno não tem País Mukhulhwani, todos os grandes vão mandar no País desdesenvolvido. Por exemplo, quando um País pequenino, em que o desenvolvimento depende de mandioca, pode ser que não tenha interesse para os Mukhulhwanis. Mas se um dia esse País descobrir que tem petróleo, todos os supostos Mukhulhwanis vem a correr para dar ordens a esse País. Algumas ordens podem ser boas, outras não. De qualquer maneira as ordens são para ficar com todo ou parte do petróleo. É assim que bem antes de ouvir falar de Ministro ou ver a ele, o meu Ministro era o Mukhulhwani.

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