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Crescimento e Desenvolvimento de Moçambique: Evitar correr atrás de prejuízos

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Por Muzamani

Se persegues alguém que corre mais do que tú e não sabes aonde vai, e se ainda por cima seguires o caminho que ele tomou, estás a correr atrás do prejuízo porque nunca o apanharás.  “Quando se navega sem sem destino, nenhum vento é favorável”(Lucius Annaeus Soneca). 

O desenvolvimento de Países chamados do Terceiro Mundo, incluindo Moçambique, parece tentar tomar como ponto de chegada, a situação dos Países desenvolvidos de hoje, tentando seguir os mesmos passos que estes seguiram. Quando no século IX e inícios do XX, o carvão impulsionou a revolução industrial no Ocidente, como fonte de energia primária para electricidade, aquecimento caseiro e propulsor de motores, os Moçambicanos conheciam somente a lenha para cozinhar e aquecimento.

Quando no seculo XXI Moçambique descobre que tem carvão de alta qualidade, os ocidentais já substituíram o carvão por petróleo e gás e o carvão já não tem o mesmo mercado favorável. Se o carvão era o primeiro recurso para energia nos finais até finais dos anos 800’s, em 2010 proporcionou ¼ das necessidades de energia. As projecções1 dizem que daqui a mais ou menos 20 anos o carvão vai contribuir com menos de 1/3 na produção de energia. Quer isto dizer que o nosso sonho de usar o carvão de Tete para alavancar o desenvolvimento está comprometido e pode virar a pesadelo nos próximos anos.

Quando nos anos da revolução industrial na Europa, o Sr. Richard Arkwright construiu a primeira verdadeira industria têxtil utilizando a fibra de algodão, Mocambique estava a entrar no momento em que a cultura de algodão era símbolo de opressão e fonte de pobreza. Hoje, que o algodão nos pode ajudar se tivermos a estratégia acertada, o mundo desenvolvido esta a procura de fibras que podem substituir ou competir com o algodão.

Quando nos anos 30 do século passado, o mundo fazia a revolução verde na agricultura com Norman Borlaug na liderança (Foi Prémio Nobel em 1970 por este feito), Moçambique estava alheio ao facto. A revolução verde foi marcada por massificação de fertilizantes, pesticidas e sementes melhoradas, todas estas tecnologias não acessíveis a produtores Moçambicanos nessa época. Presentemente, quando o nosso País pode sonhar com a industria de fertilizantes, seguindo os passos do mundo entre 1930 e 1960, esse mundo está a abandonar esta prática na busca de produtos orgânicos agrícolas que não usam produtos tratados com químicos. Os pesticidas que marcaram a agricultura dos anos a seguir a segunda guerra mundial, estão condenados hoje porque são poluentes e tóxicos à saúde. Parece que estamos perdendo tempo hoje buscando essas tecnologias que para o mundo desenvolvido são tecnologias do passado e nós queremos que sejam do futuro.

Recentemente já neste século, a revolução verde chegou a Moçambique e o próprio Norman Borlaug andou por aqui num programa chamado SASAKAWA GLOBAL 2000 que foi iniciado na província de Manica com resultados famosos de productividade de milho. Mas não teve continuidade.  Em fim, são vários exemplos, em todos os domínios que mostram que a distância entre o nosso desenvolvimento e aquele dos países desenvolvidos é cada vez maior. Seguimos continuamente o caminho que eles percorreram e quando pensamos que estamos no caminho certo, eles aumentam a distância, ou mudam de caminho. Parece que andamos atrás do prejuízo. Hoje andamos excitados com o petróleo e com o gás que parece que todo o mundo quer. Formulamos novas estratégias e planos, novos ordenamentos jurídicos a volta do gás e do petróleo. Até brigamos entre nós por causa desses recursos. Não estaremos uma vez mais a correr atrás do prejuízo?

O mundo esta coberto de iniciativas que mostram que mais cedo do que tarde, o petróleo e o gás vão valer menos na produção de energia. A Google e outros estão a trabalhar a grande velocidade para trazer automóveis que não usam mais derivados de petróleo. O hidrogénio é já aclamado como substituto preferencial e provável do gás e do petróleo.

Recentemente, um artigo publicado por Kenneth Chang (Fevereiro 17, 2004)2 dá conta de descoberta de cristais denominados de “Framework No. 177” (MOF-177) nos Andes que podem conter hidrogénio, levando a crer que está às portas a época da economia do hidrogénio. Já vimos um avião que deu a volta ao mundo sem um pingo de derivado de petróleo e nem gás. Só energia solar. As turbinas para gerar energia eólica em grande escala estão a tornar-se mais eficientes. A investigação em biocombustíveis se massificou. Etc.  Etc. E como as transformações do mundo são cada vez mais velozes, não admira que em menos de meio século, o valor de Palma pode reduzir bastante. Em Abril deste ano, um tal Kent Moors conhecido por vender acçōes em empresas futuristas iniciou uma campanha de venda de “stocks” numa empresa que está a desenvolver uma nova fonte de energia chamada OBL, que é mais de mil vezes poderosa do que a gasolina. O tal OBL parece uma solução salina de lítio que se encontra em lagos salgados.

Com maior ou menor exagero, fica patente que há um grande movimento de cientistas, Governos e homens de negócios para encontrar fontes de energia que substituam as tradicionalmente conhecidas. E com certeza que os grandes investidores internacionais que estão em Palma sabem disto, se é que não participam na busca dessas soluções. E se sabem, contemplam estes factos nos seus investimentos em Moçambique, e acabam ditando os momentos e a dimensão dos investimentos que vão fazer. Não seria a primeira vez que investidores, na defesa dos seus interesses, tomam concessões de recursos de países como o nosso, para impedir ou atrasar a sua exploração, de modo a se manter a estabilidade de procura e oferta no mundo.  Há quem diga ou pense que este foi o caso das areias pesadas de Chibuto. Sem pretender manchar a reputação e idoneidade dos Concessionários de Palma e outros lugares, é preciso tomar esta possibilidade como risco e mitigá-lo se necessário. Nada de colocar todos os ovos no mesmo cesto, quando se trata de recursos para o nosso desenvolvimento.

Sem tomar em contar o nosso contexto, a tendência mundial e as verdadeiras vantagens comparativas, não atingiremos os modelos de desenvolvimento que seguimos com base na história e percurso de outros. A China, Vietnam, Malásia, Singapura e outros, mostram que o pensamento nacional que conduz um a um desenvolvimento dirigido por forças e motivações endógenas pode acelerar o seu desenvolvimento.

Os economistas clássicos ou do neoliberalismo discordam nas razões que fizeram com que a China entre 1978 e 2006 tenha crescido em média 9% ao ano sem se encostar demasiado a nenhum modelo historicamente conhecido. Num espaço temporal de cerca de 30 anos a China fez uma redução dramática da pobreza, tirando desta condição 400 milhões de pessoas3 (isto significa mais ou menos 26% da sua população). Mesmo que não se entenda completamente onde está o segredo chines, há três coisas que os diferenciam de outros modelos, nomeadamente: visão interna de longo termo (que não muda muito com a mudança das lideranças políticas e nem é motivado por dividendos e lucros anuais), exercício pleno da soberania nacional, massificação da formação dos cidadãos, muito trabalho e disciplina.

O Vietnam segue mais ou menos o mesmo processo, enquanto que a Malásia se baseou na formação e daquilo que apelidou de parceria inteligente. Sem ignorar de nenhuma maneira o potencial que pode valer Moçambique nos próximos tempos, há que evitar seguir modelos e percursos dos outros, como se fossemos puramente consumidores do conhecimento e propaganda que vem de fora. Ao seguir cegamente modelos e raciocínios de desenvolvimento de outros, podemos estar a navegar sem direcção conhecida e sempre contra o vento. Roubando o pensamento de Elaine S. Dalton4, se queremos fazer a diferença no mundo, temos que ser diferentes do mundo.

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