Início Entrevista Fernando Manuel: o escriba que não se vergou a cegueira

Fernando Manuel: o escriba que não se vergou a cegueira

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POR: Luís Nhachote

Há dois anos, a cegueira bateu-lhe a vista depois de muitas batalhas para a mantê-la sã. Esse percalço, na vida de quem precisa dos olhos para alimentar a alma, não lhe abalou a fé. É um dos mais completos repórteres do nosso tempo e dono de uma perspectiva única ao retratar as nossas mazelas enquanto sociedade. Apesar de afirmar que está “a sofrer um fenómeno de entropia” as crónicas veiculadas semanalmente no Savana desmentem-lhe. Se Fernando míngua enquanto ser físico agiganta-se em formato de texto, retratando-nos ao mínimo detalhe, desnudando a nossa pequenez através das suas pequenas grandes crónicas.  Todas as semanas, às sexta-feira, assina uma coluna regular no semanário Savana desde a fundação do mais antigo tabloide independente do país. O editor do Primeira Mão foi a sua casa e nesta nossa primeira grande entrevista trazemos a conversa com o escriba. O suicídio é um sonho, por isso defende-o dizendo que “não é paranoia” porque acha “que não vale a pena prolongar a vida quando ela já não faz sentido”. Sobre o seu processo de escrita Fernando tem as ideias muita claras: “Eu tenho de escrever com o mínimo de percepção pessoal de que vale a pena. Que tenho uma possibilidade mínima de que serei lido”.

Primeira mão: A quantas anda a Missa Pagã?

Resposta: A missã pagã é um projecto que dá um passo em frente e dois passos atrás. Eu ando com esse projecto há mais de 15 anos, como deves saber. Os primeiros entraves estavam relacionados com a componente financeira. Mas esse entrave já está ultrapassado: o livro está paginado depois da pré-selecção de cerca de 50 crónicas por aí. A obra foi entregue a uma editora que, em finais do ano passado, estava a programar o lançamento para Fevereiro deste ano. Agora estamos em Maio … mas também agora estou naquela filosofia de que se já esperei 16 anos ou 17 também posso esperar mais dois meses. De qualquer das formas, há uma gráfica ou editora que diz que a prioridade deles, para este ano, é publicar poesia mas no próximo vão virar-se para a prosa e que no final do ano poderão publicar com muito gosto. Estou nesse compasso de espera. Decide adoptar o papel de não ter muito pressa, desculpa o termo não me ‘chatear’. O que devia ser feito por mim já foi escrito e a parte do auto-financiamento foi a mais difícil. A ideia seria fazer o “Missa Pagã” em dois volumes. Agora falta meter o disco na máquina, imprimir  e estabelecer os termos contratuais que é o que poderia parecer mais fácil. Entretanto vou pensando noutras coisas.

Primeira mão: O FM é jornalista de mão-cheia, cronista e actualmente está numa situação de cegueira, como está a encarar a nova situação? A mente está lá, como é que é? Quais são as dificuldades?

FM: A mente está lá, mas começo a ganhar medo no sentido de que a fonte pode secar a qualquer momento. Pode secar porque a mente alimenta-se através de leituras, de conversas com as pessoas. As minhas crónicas são literárias e, por isso, tenho de alimentá-la das histórias que ouço e leio. Tornei-me num animal muito excedentário, justamente por causa dessa limitação visual. Aquilo que servia de alimento para mim eram fundamentalmente as leituras e depois as conversas  que tinha com amigos no meio dos copos. Costumo a dizer a mim próprio que estou a sofrer um fenómeno de entropia, de encolhimento. Portanto, não consigo me ver a suportar esta carga de crónicas por tempo indefinido. Sei lá talvez por dois ou três anos. Na melhor das hipóteses, segundo os meus cálculos, uns três anos. Mas depois não terei mais nada para dizer. E como não sou pessoa de andar a bater a cabeça na parede, para ver se a história aparece ou não terei de me resignar. Se chegar esse fase terei de admitir que prontos, chegou a altura de parar. Já que também não vou insistir com coisas que não funcionam. Eu tenho que escrever com o mínimo de percepção pessoal de que vale a pena. Que tenho uma possibilidade miníma de que hei-de ser lido.

Agora por exemplo, tem informação ou retorno daquilo que continua a escrever?

FM: Tenho. Não de muita gente, mas são opiniões de gente que conta muito para mim. São pessoas que gostam de ler e não andam com palmadinhas nas costas. Quando descarrilo nalgum sítio elas criticam. Também nem todas as semanas se fazem obras primas. Houve uma altura em que as minhas crónicas eram muito cinzentas. Acho que foi na altura em que estava a digerir mal à minha cegueira. Então dissseram-me: as tuas crónicas estão a ficar muito cizentas, muito para dentro, com muita mágoa e parece que não tens saída. Então aceitei, parei umas duas semanas ou três e repensei. E achei que poderia dar a volta por cima. São opiniões de pessoas que contam muito para mim. Que telefonam ou aparecem quando têm tempo e conversamos muito sobre o que escrevo. Então tenho retorno. É isso que me encoraja a continuar.

Há quanto tempo o Fernando Manuel está nesta situação?

FM: Fiz neste mês de Maio dois anos. Fiquei cego em meados de Maio de 2015.

…E desenvolveu novas aptidões? Sei que o Fernando tornou-se ouvinte assíduo de rádio. A rádio consegue ser esse supositório de histórias para lhe alimentar a mente?

Dá para me alimentar, mas não é o mesmo que ser você a ler. Houve uma altura em que os meus filhos puseram-me a possibilidade de ter um desses aparelhos de ouvir estórias gravadas. Mas é uma coisa que não me fascina. O prazer é ser você próprio a ler e construir a tua própria imagem a partir daquilo que está a ler. Sé é um diálogo, você constrói na tua própria medida. Se é um diálogo entre uma criança e o avô, você consegue idealizar a criança através da sua própria medida e do avô também. Se é uma pessoa a ler e você a ouvir numa máquina a coisa não tem assim tanta piada. Então a limitante da rádio também é essa. Para já, porque na rádio não se desenvolve muito a narrativa. Na rádio, por exemplo, nunca vais ouvir um artigo que tem a dimensão de duas páginas de um jornal tabloide. São notícias curtas, comprimidas. Mas dá para estar informado sobre o que se passa aí. Mas não dá para alimentar muito para o tipo de crónicas que escrevo, pois estas são factuais. Não são de crítica política factual, ou de economia. As minhas crónicas tem muito fundo de verdade que depois  ficciono. E a rádio não alimenta esse tipo de coisas.

Nas suas crónicas, o Fernando sempre tratou o lado  social. Desde a cidade de Lourenço Marques até ao actual Maputo. E, nas suas abordagens, sempre falou dos amores e desamores, dos problemas da droga e do alcoolismo. Como é que sente a sociedade de hoje?

FM: Vou dizer fundamentalmente por aquilo que oiço dos órgãos de informação: penso que há uma tendência muito exacerbada de retratar a sociedade moçambicana como uma sociedade doentia, principalmente quando se fala de jovens. Acho que se exagera demasiadamente na caracterização dos jovens. Não sei com que finalidade, mas me parece que há interesses de se tirar dividendos políticos. Se a nossa juventude estivesse perdida, com índices altos de consumo de droga, então ela já estaria perdida. De resto, o confronto entre o novo e o velho é um confronto velhíssimo. Tão velho como a história da humanidade. Não é coisa de hoje e nem é apanágio exclusivo de Moçambique. Sempre haverá confrontação entre aquilo que é novo e o velho. Eu lembro-me de ter entrevistado António Guterres quando acabava de tomar posse como responsável nas Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), que me disse que uma das coisas mais vantajosas que teve foi o facto da revolução tê-lo encontrado ainda jovem e, como se sabe, quem beneficia muito das revoluções são os jovens. São estes que justamente tem a capacidade de assumir a revolução e dar o passo que é necessário dar para frente, porque os velhos já não estão em condições de dar seguimento. E é bom que aceitemos isso, porque ninguém é eterno e não é bom estar em confronto directo com a juventude porque está depravada. Para mim a sociedade moçambicana está saudável. A juventude continua a lutar, mas claro que existe uma parcela da juventude que se droga, que se perde no álcool. Isso houve desde sempre. Quando  a geração dos anos sessenta na Europa e nas Américas com a geração ‘hippie’ , todo o mundo preconizava nessa época do fim da juventude saudável e no fim daquela geração saiu muita coisa boa, tanto em termos artísticos, por exemplo nas músicas e nas artes plásticas, no cinema, no teatro. Tudo isso faz parte das convulsões, agora tudo aquilo que é refugo, vai para a margem do rio e aquilo que é bom, continua no leito. Então a sociedade moçambicana está saudável, principalmente os jovens. Há jovens empreendedores. Não digo empreendoderores no sentido económico do termo porque que nem gosto muito disso.

Não podemos levar toda a sociedade a pensar que deve levar a vida só a pensar no lado material das coisas. Estou totalmente contra em pensar que o jovem deve ser empreendedor a pensar no lado material. Pode ser empreendedor do ramo artístico. Porquê que não se incentiva essa área? Porquê que não se fala disso? Porquê que quando a polícia quer puxar dos seus galões se limita a pegar num jovem que vive na Maxaquene e apresenta duas bolinhas de soruma ou duas bananas que não chega a um quilograma de soruma faz disso um alarde como se tivesse prendido um cartel de traficantes de droga. Porquê a polícia não vai atrás das grandes ‘gangs’ de cocaína que andam por aí? Em vez de irem a Mafalala, Maxaquene ou Chamanculo andarem a revistar quintais, para prenderem bolinhas de soruma, que para mim nem é droga, porque que não vão assaltar a Colômbia, aqui, no Bairro Militar?  A sociedade moçambicana está bem, não estou a falar de políticos, porque esses já me desiludiram há muito tempo. Mas falo daqueles que lutam para recriar a vida, que lutam com armas leiais e que são capazes de fazer coisas novas e interessantes. Estamos no bom caminho, anda aí além de jovens, gente dos 40, 50 e 60 anos como eu que fazem coisas bonitas e interessantes. Que criam e lutam pela vida, fazendo coisas acontecerem. Porque acredito que as grandes mudanças na sociedades humanas nunca são feitas, ou se são feitas por políticos, nunca é por vontade própria em que haver uma força muito grande por detrás que são justamente esses movimentos sociais e dos cidadãos nas várias vertentes que são contínuos. Claro que existe vontade de travar esses movimentos por parte dos grandes poderes económicos, mas essas forças são imparavéis, aliás a história demostra isso.

Uma das grandes questões que se levanta na sociedade moçambicana, apesar das constatações mencionadas pelo Fernando é que hoje esta juventude carece de valores. Qual é a sua opinião?

FM: Infelizmente isso é verdade. Mas acho que é resultado de uma política deliberada do poder político. Porque quanto mais ignorante for o povo que você tem a baixo do teu poder, mas facilmente exerces o poder. Um exemplo é o que se passa na educação. Como é que o poder vai acarinhar a ideia, embora não explicitamente, de mais de metade das nossas crianças chegarem a 7ª classe sem saberem escreverem os próprios nomes? E não se combate isso. Embora o discurso político público venho dizer digam que estamos a fazer esforço. É um sofisma. É uma mentira. Estão a fazer esforços de quê? Falo por experiência própria, tenho sobrinhos que estiveram nessa situação. Como é que se pode ter crianças nos bancos da escola, por sete anos sem saberem escrever o nome?  Eu quando tinha a 4ª classe, de instrução primária, fazia ditados sem nenhum erro ortográfico. E era ditado. Então é uma política deliberada para formar gerações  de ignorantes e analfabetos que são mais maleáveis. Uma pessoa que não tem acesso à informação, naturalmente que é mais fácil de dominar. Essa carência de valores resulta naturalmente da falta de instrução com qualidade. Segundo passam a vida a intoxicar a nossa juventude com coisas que não prestam para nada. Não vejo qual é a necessidade dos nossos canais de televisão, públicos e privados, terem 70 por cento da sua programação de novelas brasileiras que passam a qualquer hora do dia ou da noite. Uma criança que tem possibilidade de ver telenovelas brasileiras, que não são direcionadas a crianças de forma alguma, as 6 ou 7 da manhã , ao meio dia, as 3 da tarde, essa criança não tem capacidade de raciocínio. Quando chegar a idade de pensar pela sua própria cabeça, ela não será capaz. Os seus próprios termos de referência não são do país dela . Ao lado da minha casa, fica a escola 7 de Setembro. Num ano  foram perguntar as crianças da 7ª classe, qual era o significado dessa data e não souberam dizer. O próprio professor de história não sabia dizer o que era  7 de Setembro. Agora se o professor não sabe como é que o aluno saberá? Isto é resultado de políticas deliberadas de anestesiar as pessoas. Então não podemos culpar a sociedade, nem aos país, nem aos encarregados de educação. Temos que culpar as pessoas que traçam as políticas de educação. E diz-se ai na rádio que os livros e, admite-se com perfeitamente e com naturalidade que os livros de  distribuição gratuita ainda não chegaram a todos distritos, em pleno meio do ano lectivo… e depois diz-se assim com ar muito feliz que os nossos professores estão preparados para dar aulas aos nossos petizes, como agora é moda dizer. Como é que vais dar aulas sem livros? Estão a chamar-nos de idiotas? E como é que vais exigir que uma sociedade tenha valores e consciência dos seus direitos e seus deveres se a sociedade não está escolarizada?

Como é que saimos desta situação ?

 

FM:Quando conseguirmos forçar o poder a mudar de políticas. Ou mudar quem está no poder através do voto por eleições. Não será fácil porque quem vai votar  são justamente  essas massas que não estão escolarizadas. As pessoas vão votar, creio em mais de 80 por cento, sem saber do programa dos partidos  para quem votam. Então, estão a votar na cara bonita de quem está aí no cartaz? É como aderir a um partido sem saber quais são as normas e estatutos. Estão a votar para assembleia e qual é a proposta dos tais deputados para a sua vila e sua aldeia? Ainda há dias estavam a falar sobre a saúde em Niassa, onde um médico está para 400 doentes,  um número exagerado. E se fores ouvir alguém do topo da saúde, vai falar como se estivesse a navegar numa lagoa de pétalas de rosas. E o que aborrece mais é o facto de  nunca se dizer justamente o que se passa. Quase todos discurso na rádio secretários de actividades económicas a atirar números para o ar . Ouve-se coisas como, por exemplo, a safra deste ano vamos colher 4 milhões de produtos agrícolas, designadamente: cereais, legumes e tubérculos. E te perguntas: assim; de onde vem esse número na cabeça dele? Que informação teve o secretário de actividades económicas do distrito  para atirar números desses? Ele sabe quanto é que se produz por cada hectare? Quanto é que um hectare de milho produz em condições ideais  e quais são as condições que têm para produzir? E passa-se a vida assim ouve-se principalmente nas rádios públicas. Agora que se está na fase de campanhas agrícolas são números empolados que ouves, ora são 4 milhões para Cabo Delgado, 4 milhões para Guijá. São tudo milhões e milhões. Meia volta a população está a morrer de fome. Ora essa onde estão os milhões que eles produziram?

Há um outro fenómeno nesta crise de valores que se fala. O Fernando é do tempo em que haviam livrarias. Hoje grande parte delas não estão a exercer a actividade.  Viraram barracas. Como é que vê? 

FM: Mas então pergunto simplesmente qual é o papel do Ministério da Cultura? É ir ver se fabricam timbilas em Quissico e dizer que temos património mundial da humanidade? Muito obrigado. Cultura é só dançar makwaela? Isso é papel do Ministério da Cultura que se preza. Ainda há dias falava com o pintor Idasse Tembe, que me contava uma história que não sei se é verídica, sobre o Chichorro que terá sido enxovalhado na embaixada de Moçambique em Portugal porque eles queriam um documento qualquer e ele riu-se, mas aquele riso amargo. Isto é resultado da maior parte das nossas embaixadas não terem um adido cultural. Prontos e a partir dai vês qual é a importância que se dá a cultura. Aliás isso foi sempre assim. Que importância os Governos moçambicanos deram a cultura? Nunca deram importância.

Sendo escritor numa sociedade, sabe-se que estes costumam jogar um papel determinante para forçar as entidades do poder ligadas a cultura a fazerem mudanças. Como é que vê o papel dos escritores em Moçambique?

FM: O papel devia ser esse justamente de fazer pressão, mas pessoalmente não acredito nos escritores que nós temos. Eu ando muito fora do circuito, mas não existe uma tradição de escritores  mais influentes em confrontarem o poder político. Acomodam-se…

Não acha isso bizarro neste contexto mais plural, pois consta que na primeira república vocês tinham debates mais abertos inclusive com as próprias estruturas que governavam o país.?

Tinhamos porque o confronto era directo, mas depois a própria estrutura do poder viu que uma das formas de contornar os debates era amaciar a classe. E acho que  está a se fazer deliberadamente e eu não vou citar nomes e depois cada um vai fazer as suas contas. Aqueles que estão nesse papel e muitos deles nessa altura eram jovens quando tínhamos debates todas as sexta-feiras  na associação dos escritores no silabar, liamos poesia. Muitos desses ainda estão vivos e continuam com actividade literária activa. Mas é actividade literária activa para só no sentido de publicar um e outro livro, mas não saem a público para manifestar publicamente as suas opiniões, o que pensam de verdade. Prontos, foram absorvidos pelo regime. E aqueles os jovens que surgem, que tem essa possibilidade de dizerem o que pensam e de se revoltarem. Revoltar no bom sentido de demonstrar que alguma coisa está mal, mas são abafados. Ou porque não lhes dão possibilidade de se expressarem livremente através dos canais existentes, canais de comunicação social ou porque as editoras que existem estão prontas para correr esse risco de confrontação directa com o poder.

A par de crónicas literárias o Fernando em tempos dizia que para se escrever um grande livro como o Dom Quixote, era preciso chegar aos 60 anos. Aquilo que seria o livro conseguido. Já está na casa dos 60, temos algo em vista?

Não diria grande livro. Porque ser grande ou pequeno não depende mim. Só que estou com uma dificuldade adicional por causa desta limitação. Mas não vamos sempre falar nisso que não é desculpa. Estou a programar com um dos meus filhos, que chamo assistente social,  comprar um equipamento que me permita gravar as minhas ideias. Se eu fizer três horas por dia, sendo uma hora de manhã, uma à tarde e, outra à noite quando a cidade está mais calma e não tenho preocupações com carros e barulho. Se levarmos esse projecto avante, o livro sai. Tenho-o na cabeça que é a coisa mais difícil montar mentalmente a estrutura. Que é mais ou menos o que acontece com a crónicas e depois a coisa são mais ou menos fluentemente.

No fundo há-de ser um livro de, não vou chamar memória, porque não acho admissível uma pessoa de 60 anos escrever memória. Vai se basear muito na minha passagem pela Mafalala, Infulene e tudo aquilo que se passa a volta pela humanidade que são os pequenos e grandes amores, as nossas querelas e ódios, as nossas frustrações que embora muito gente diga que: não as frustrações fazem parte daquilo que nós somos nalgumas etapas da vida e enfim tudo que nos torna seres humanos. Fortes quando somos fortes , mas também tremendamente fragéis quando somos fracos. Eu pelo menossou forte quando sou, mas também tremendamente frágei quando sou fraco e é por isso que não tenho muito problema em falar de relacionamento que alguém pode ter, embora muita gente pense porque  escrevo muitas vezes na primeira pessoa do singular nas relações que uma pessoa pode ter com o alcóol, com as drogas, ou que as mulheres podem ter com a prostituição ou com uma forma mais ou menos leviana de levar a vida porque isso não é crime.  Crime talvés é preserverar quando nós chegamos a conclusão de isso nós faz mal ou estamos no caminho errado. O que importa é chegarmos a um ponto e termos a coragem e a ousadia necessária para darmos a volta por cima. Porque como diz o meu amigo José Cabral, nenhum de nós é o Flash Gordon. Nós não somos super-homens. E o facto de não sermos super-homens, nós torna justamente interessantes. E o que nos faz interessantes é que somos múltiplos. Por isso um dos livros que me marcou muito é do Italo Calvino, cujo o titulo é o Visconde dividido ao meio, onde está claramente visto que um homem não tem uma faceta. No mínimo têm duas, mas pode ter várias outras. Eu não sou um ser único e aceito-me assim como sou. Tudo o que vier a sair nessa obra será o espelho desse meu percurso e de toda visão que tenho sobre mim, mas reflectida nos outros. Os outros não são assim tão diferentes de mim. Virá o livro, penso que sim. A minha filosofia é a seguinte: enquanto podermos sonhar, significa que estamos vivos. Se eu algum dia perder esta capacidade de fazer crónicas que são criativas, que são parte dos meus sonhos, de perder de vista o sonho de publicar um livro a única hipótese é desencantar uma dose de 340 mililitros de trequinina ou de cianeto e dizer o resto. Dizer Adeus. Porque não valerá apena continuar a viver.

Continua com a paranoia do suicídio?

Não é paranoia, porque faz parte dos meus sonhos. Porque acho que não vale apena prolongar a vida quando ela já não tem sentido. Quando se sente que já não temos nada para dar na vida. Se ela nos deu tudo que nos tinha a dar, nós também temos que dar à ela, por um fim. Por isso que estou absolutamente contra aqueles que se opõem a eutanásia. Porquê que se opõem. Estou a falar da dor física, mas também há a dor moral e mental. Porquê vem com essa de a vida é um dom divino. É um dom divino sim, mas deu a mim. Então a partir do momento em que me deu eu tenho direito de fazer uso dela como quiser. É como dizia o Chissano, estou a falar do Chissano homem e não chefe de Estado, que você não pode me dar um casaco e passar a vida a lembrar-me. O suicídio não é paranoia, Nhachote.

ADD

QUEM É Fernando Manuel?

Nasceu a 20 de Janeiro de 1953 na cidade de Maxixe, onde iniciou os seus estudos primários na Missão Sagrada da Familia, completando-os posteriormente na escola do Bairro Indigina da Munhuana, na então cidade de Lourenço Marques, actual Maputo.

Foi em Lourenço Marques que concluiu o ensino médio, depois de frequentar os liceus António Enes e Salazar.

Monitor de educação fisica, músico, actor de teatro, escriturário e professor de História no ensino secundario, ingressou no jornalismo em 1981, ano que passou a integrar o quadro redactorial da revista Tempo.

É membro fundador da Mediacoop, empresa proprietária dos jornais MediaFax e Savana. Tem publicado o livro “O Homem Sugerido” e no prelo a colectânea de crónicas “Missa Pagã”.

3 COMENTÁRIOS

  1. V”ocê não pode me dar um casaco e passar a vida a lembrar-me. O suicídio não é paranóia, Nhachote”.
    Seguiu tua trilha num comentário no Facebook, cá cheguei li e reli com muito agrado. Agora, onde é que compro “missa pagã”?

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