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Existe desenvolvimento sem correr atrás de prejuízo

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Por: Muzamani

Quem toca tambor para fazer o louco dançar, não é mais lucido do que o louco (Provérbio Africano). 

O ser humano tem por natureza aversão ao risco e ao prejuízo. Daniel Kahneman (psicólogo investigador) e o seu parceiro Amos Tvrsky (psicólogo em matemáticas e ciência cognitiva) trouxeram ao pensamento económico clássico a base do que designou de efeito de dotação que se funda no princípio de que os humanos têm aversão ao risco nas suas escolhas e decisões. Segundo estes estudiosos, “as perdas (prejuízos) magoam mais do que satisfazem ganhos iguais. Esta teoria sugere que formações sociais estariam mais em harmonia com um processo de desenvolvimento que não acarreta prejuízo. Contudo, os caminhos trilhados por muitos países como Moçambique, perseguindo modelos de países mais desenvolvidos, têm uma grande tendência para o risco pelo facto de procurar imitar o percurso dos outros em contextos históricos e culturais bastante diferentes. Mesmo que os contextos fossem iguais ou similares, os riscos e os prejuízos estariam sempre presentes, só pelo facto desses mesmos países que servem de exemplo, reconhecer hoje que há algo de errado no seu modelo de desenvolvimento.

As definições modernas apontam o conceito de desenvolvimento como “o aumento de productividade e/ou da renda por habitante acompanhado por uma acumulação de capital e incorporação de progresso técnico” (Luiz Carlos Bresser-Pereira). Estas definições mais parecem com uma normação do que um processo. A normação força a concentração num desenvolvimento obsessivo na acumulação e construção de reservas de capital. Ao concentrar o desenvolvimento num processo que gira a volta de capital económico, sem duvida que melhora as condições de vida dos humanos, ampliando os padrões e as opções a volta de vida material. Contudo, outros aspectos da vida são sacrificados. A chamada “destruição criativa” associada ao desenvolvimento baseado no capital “incansavelmente revoluciona a estrutura económica por dentro e incansavelmente destruindo a velha” (Joseph Schumpeter). Ou seja, o desenvolvimento a volta do capital é um processo de acumulação e de liquidação do bem-estar. Isto esta patente nas perdas de valores morais, culturais, destruição ambiental, redução dos valores associados a solidariedade entre os humanos, surgimento de novas doenças, agudização e multiplicação de estados depressivos, guerras cada vez mais violentas vitimizando mais inocentes do que beligerantes, crises económicas com ciclos mais frequentes e que sempre afectam mais os já excluídos, etc.

Isto não pode ser fruto do acaso. Se se olhar para o desenvolvimento dentro da natureza (onde os humanos são parte integrante) pode-se aprender bastante para transformar o desenvolvimento de padrão normativo para processo evolutivo no contexto real e histórico. A biologia ensina que crescimento e desenvolvimento são coisas distintas, mas bem relacionadas, integradas e interactivas. O crescimento de um organismo na natureza é um processo físico de multiplicação das células, e o desenvolvimento ė a organização das células em tecidos que desempenham uma actividade coordenada. Os tecidos por sua vez se organizam formando órgãos que desempenham tarefas mais complexas e tudo isto forma um sistema coordenado onde cada órgão desempenha uma função vital importante. Os processos quer de crescimento, quer de desenvolvimento tem harmonia entre eles. Uma multiplicação celular excessiva ou em defeito prejudica o sistema num todo. Um tecido, ou órgão que esteja em falta ou em excesso tende a aniquilar a eficiência do sistema ou da própria vida.  Entre os processos de crescimento e desenvolvimento se estabelece uma relação em que um impulsiona o outro e nenhum elemento do processo é imprescindível.

Esta “lição” da mãe-natureza sugere que o crescimento e desenvolvimento do nosso País, para acarretarem menos riscos e prejuízos deve procurar ir para alem dos aspectos normativos do capital e seus associados, para trazer balanceamentos sociais, culturais e morais num quadro que se contextualiza em espaços e tempo reais, tomando o homem (e não o Produto Interno Bruto) como centro motivador e beneficiador. Nesta dinâmica, o desenvolvimento num todo, deve ser visto como a utilização das habilidades da sociedade para utilizar os recursos acessíveis para melhorar a sua vida. E como na mãe-natureza, cada membro da sociedade é imprescindível e se enquadra numa organização social que tem a sua tarefa especializada. Cada uma destas organizações sociais se agrega para constituir um órgão também com funções importantes num todo. O funcionamento dos órgãos estabelece um sistema que estimula o crescimento e o desenvolvimento do Pais. Neste processo o ser humano, e não a competitividade, é sujeito e objecto do crescimento e do desenvolvimento. Isto pode parecer complexo, mas de facto é menos complicado do que procurar seguir modelos alheios. Claramente que não se deve ignorar esses modelos existentes. Eles são importantes como referencias, mas não como objectivos.

A adopçao do desenvolvimento como um processo que usa as habilidades sociais para mobilizar os recursos disponíveis para melhorar a vida do seu povo, não assume obsessivamente uma meta final, pois não há limite para melhorar as condições de vida de uma sociedade. O processo assume o que se chama de aproximação passo a passo, onde o contexto local toma a dianteira. E quando se fala de contexto local num Pais tão diverso como Moçambique, a região é o berço que estrutura o crescimento, a organização dos tecidos e dos órgãos (parafraseando a natureza) e o conjunto das regiões faz o sistema que move o Pais como um todo. A história do desenvolvimento de outros países está repleta de exemplos que mostram que a região desempenhou um papel importante no percurso dessas sociedades e que nesta dinâmica se percorre um caminho menos penos e mais promissor de se abarcar todas as dimensões do desenvolvimento que vão para alem do capital. É na visão da região onde nasce a diferenciação que orienta a direcção a tomar. E quem marca a diferenciação é a cultura, que joga um papel preponderante como o propulsionador do desenvolvimento. Afinal, mesmo no mundo globalizado, se apregoa que a competitividade no mercado global é ditada por aquilo que um povo tem de único e especial que pode partilhar com o mundo.

O que cada sociedade tem de único e especial é a sua cultura, entendida na sua dimensão total. Quando Moçambique tenta entrar no mercado mundial de trigo ou de batata reno como produtor, muito cedo se visualizarão os riscos e as dificuldades, porque quer o trigo, quer a batata reno, embora sejam parte da dieta do Pais, o seu berço cultural é noutros quadrantes. Mas se melhorar e industrializar a massala, malaba, mafurra, ou dimeme, mais rapidamente penetrará o mercado mundial com produtos seus exclusivos e que estão dentro dos padrões culturais do País. E este processo vai gerar camadas diferenciadas de valor, nomeadamente, o valor intrínseco da cultura local onde existe a matéria-prima, geração, desenvolvimento e incorporação de novos conhecimentos, maior respeito e aceitação nacional e mundial da cultura local, tolerância, criatividade e equidade. Afinal a cultura é um dos primeiros elementos de preparação para a vida de uma sociedade, e por isso tem um papel importante na formação do capital social.

A cultura contribui para o aumento do potencial intelectual das regiões do País e faz da sociedade um gerador e não puro consumidor de conhecimento. A cultura é um instrumento de colaboração, comunicação, e integração social, prevenindo as exclusões sociais patológicas que se assistem hoje.  Como diz Fundação Cultural Europeia “O Sector Criativo” (sector cultural) “é um motor para a diversidade, crescimento e oportunidade de emprego. Quando um povo ignora a sua cultura, perde a sua identidade e perde o norte, transformando-se em mau imitador dos outros. Quando no mercado Moçambicano se encontra mais facilmente caviar e bacalhau do que matapa e nkacane, vira-se a consumidor e não produtor de desenvolvimento. Quando nas discotecas e clubes de entretenimento, mais facilmente se ouve musica de quadrantes longínquos do que a de Chamanculo, Nguri ou Gorongosa está-se perante um processo de desenvolvimento penoso que não acontecerá, sem ser por indicação de forças externas.

Quando os artistas nacionais (pintores, escultores, músicos, dançarinos de mapico, makuai, nganda, nhau, etc.  e) não tem lugar cimeiro nem atenção no processo de desenvolvimento, está-se a matar a nação e a sua sociedade, e das cinzas nada nascerá, pois nunca seremos portugueses, americanos, chineses, indianos ou brasileiros. Um olhar bem atento aos mais desenvolvidos do que Moçambique, mostrara que esses países fazem o seu desenvolvimento com base na sua cultura que se manifesta na sua alimentação, na sua arte, na sua musica, na sua pintura, na sua identidade. E os que pretendem dominar o mundo económica e politicamente, mandam a sua cultura a frente para destroncar as mentes e fazer nascer os seus modelos nas cabeças dos dominados. Quando se faz desenvolvimento com a cultura dos outros se navega sem norte e em aguas turvas e turbulentas.  E a sentença de perdição vem de um provérbio africano que diz que “quem toca tambor para fazer o louco dançar, não é mais lucido do que o louco”.

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