Início Opinião De... Mukhulhwani No caminho de Ministro (8)

No caminho de Ministro (8)

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“Na viagem destino não conta. O que conta é viagem”. 

Butsu Makanda era assim cabeça baixo quando era pequeno. Coisas de luta não estava no coração. Mas quando lutava, não sentia dor. Quando socava corpo todo ia com o soco. Quando soco caia na cara, barriga, nariz, era Makanda completo com roupa e tudo que caia. Mas Makanda nunca foi Mukhulhwani de lutar. Gostava de Livaleni, mas pai dele, que tinha sido Mukhulhwani até nas minas de Joni queria Makanda na Escola para não ter sofrimento que pai andou. Makanda escolava de manhã e ia no Livaleni depois. Nos dias de escola fechado ficava todo tempo no Livaleni. Outros dias tentou fintar pai dele e foi no Livaleni sem escola.

Pai zangou muito com tristeza. Mãe também. Tristeza de pai e mãe doeu coração de Makanda, muitos dias até ahoje quando lembra. Makanda não falhou escola mais. Quando sentia dor de aqui, ou dor de ali, de chuva, de vento, de o quê, ele escondia a dor para ir na escola. A escola que ele gostava mesmo era Livaleni. Aprender a ser amigo mesmo. Rir e chorar com amigo.

No Livaleni, Makanda aprendeu contar segredo no amigo e amigo fechava boca naquele segredo. Aprendeu as plantas. Planta que mata fome sem dar dor de barriga. Planta que cura, planta que esconde cobra, planta que mostra água. Aprendeu respeito e olhar medo de frente. Aprendeu seguir pisadelas de qual animal no mato. Aprendeu mesmo de encontrar caminho quando não sabe aonde é aonde. Agora lá na escola de branco aprendia coisas de nada. Tabuada para que se toda gente sabe, quando tem dedos completos? Linhas de férreas daqui de Portugal para que se ela anda no caminho? Rios daqui, de Portugal para que? Dinastias de lá para quê? Mas pai e mãe queria assim.

Mukhulhwani grande de Livaleni também gostava Makanda na escola de manhã aprender e a tarde ensinar tudo que aprendeu ao Mukhulhwani e amigos dele. Na escola não podia brincar nem dormir nem fechar olhos nem orelhas. Tinha que aprender tudo bem conforme para ensinar bem conforme Mukhulhwani.

Livaleni de Makanda não foi igual Livaleni de outros. Makanda não foi Mukhulhwani de soco e mandar. Foi Mukhulhwani de ensinar e Mukhulhwanado de aprender. Makanda cresceu mais com estudo, família, amigos, bois, mato, animais de perigo e não perigo, fisga, azagaia, lápis e ardósia.

Depois escola acabou para Makanda. Tinha outras escolas mais grandes, mas Makanda não podia ir mais porque era de branco e preto com juízo de branco. Livaleni também acabou porque bois de família tinha acabado com doença grande de bois e branco Mukhulhwani grande mandou matar todos os bois que tinha doença e que não tinha, mas podia ter.

Sorte quando chegou Frelimo com aquela maneira de ser de não tem branco, não tem preto, não tem maxangana, não te shingondo, nem makua, nem sena, nem nada. Tudo mesma coisa igual. Toda gente pode ir na escola grande, mais grande, mais grande mais, até acabar onde querer. Mesmo acabar escolas daqui, com sorte pode ir escolas muito mais grande de la fora.

Makanda ficou contente com pensamento de Frelimo. Voltou na escola mais grande. Estudo e família ficou mais a frente de tudo. Outras coisas mudou. Animais e plantas ficou biologia. Lápis ficou lapiseira. Ardósia ficou caderno. Luta de soco ficou luta de pensar. Azagaia, anzol e fisga ficou trabalho, emprego. Agora amigos já não era no Livaleni. Era no Grupo Dinamizador da Frelimo, também chamado Guêdê. Guêdê era coisa de juntar pessoas como amigos chamado camaradas, sem lutar com mãos. Mukhulhwani de Grupo Dinamizador era Secretário. Guêdê ensinava outras coisas.

Aquelas coisas de rios de Portugal, linhas férreas, Afonso Henriques e mãe dele, Dona Teresa, Dom Diniz, Dona Isabel, Bulhão Pato, Luís de Camões, e mais quem, já não era preciso. Agora era coisas daqui. Luta armada, unidade, colonialismo, emancipação, inimigo, palavra de ordem, xiconhoca, cultura, juventude seiva da nação, homem novo, escola como base para tomar poder, e muito mais coisas boas mesmo.

Guêdê ensinava não dizer mentiras que magoava gente. Mentira assim chamava boato. Boatador podia ser preso mesmo. Guêdê ensinava meninas não ficar de gravida antes de escola e casamento. Aqueles que sabia pouco ou mais de ler, ensinava outro que não sabia. Chamava alfabetização. Guêdê ensinava noticias daqui, de Moçambique e do mundo. Escrevia essas coisas com mão e colava na parede para pessoa que não tem dinheiro não comprar jornal. Chamava jornal de parede. Juntava pessoas para fazer limpeza. Fazia danças daqui que Mukhulhwani de Portugal proibia. Juntava pessoas para trabalhar juntos. Fazer aldeias, abrir caminhos, e mais o quê. Mas Guêdê também tinha coisas não bonitas.

Se cabeça de pessoa tinhas coisas de antigamente de Português zangava. Se pessoa tinha coisas mais que os outros zangava mais. Chamava açambarcamento. Se pessoa andava de um lado longe para outro longe tem que ter guia de marcha. Se ir no curandeiro, ou na igreja, zangava muito. Com essas coisas podia ir na cadeia sem falar com Juiz que nem tinha. Ou ir uma coisa de ir no mato na reeducação. Se era pessoa não daqui Guêdê podia empurrar para ir na terra dele depressa. Entrar no Guêdê e ser camarada tinha que aceitar pensamento da Frelimo.

Makanda gostava não gostava essas coisas, mas gostava outras. E entrou no caminho que ia passar no Ministro. Mas Makanda não sabia que ia lá. Sabia que povo ensinou que vida é viagem. Na viagem destino não conta. O que conta é viagem. E boa companhia encurta e viagem.

 

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