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Debates do balanço do meio termo: Poder de ideias ou ideias do poder

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POR: Zaila Xoloni 

O Presidente da República fez há dias um discurso de pouco mais de 5 minutos que suscitou debates infindáveis na imprensa e nas redes sociais. O discurso era sobre as actividades principais realizadas pelo Governo desde a sua posse. Embora ao que parece, o Presidente da República não tenha pronunciado a palavra “balanço”, o entendimento geral é de que o discurso constituía um balanço de meio termo do desempenho do Governo. Para todos os efeitos, como balanço, o discurso esteve incompleto, pois não se baseou numa confrontação entre o planificado e o realizado.  

Como informação esteve a altura de mostrar que o ao contrário do desespero de alguns de que nada anda no país, havia realização de actividades com impacto económico e social positivo.  Contudo, nos debates que se seguiram e continuam está em causa o julgamento do desempenho do Governo, com alguma extensão para o Governo anterior do Presidente Guebuza e até da própria FRELIMO, ganhadora das eleições e autora dos manifestos eleitorais.  

A interpretação e a análise deste discurso descortinam um cenário que pode ser considerado saudável ou doentio. Saudável porque mostra pluralismo de ideias entre os moçambicanos, partidos políticos e mesmo entre membros do mesmo partido. No debate promovido pela STV a presença de militantes de três partidos e a decência com que expuseram as suas interpretações é um avanço grande na qualidade de troca de ideias. A exposição de ideias divergentes entre dois membros da FRELIMO que participaram no debate da STV desmonta a ideia de que este partido obriga os seus membros a defender a mesma posição quando em público.

O pluralismo de ideias é uma fonte do saber com poderes de mostrar todos os cantos e ângulos do mundo que nos rodeia, mas que cada um de nós sozinho não teria a habilidade de descortinar. As ideias enriquecem-nos de tal forma que até nos podem levar a ver como é que o mundo deveria ser, em vez daquilo que o é de facto.  As ideias trazem inovação, e esta dita a evolução humana, cultural, económica, social e espiritual. Toda a riqueza do planeta, quer seja material quer seja espiritual veio de debates de ideias diferentes e até contrárias. É o exercício do debate contínuo que amadurece as sociedades, mesmo que à primeira essas ideias possam parecer absurdas.  Albert Eintein dizia que “Se à primeira vista uma ideia não é absurda, então não há esperança nela”E Rollo May acrescentaria “Se não expressas as tuas ideias originais, se não ouves o teu próprio ser, estás a trair a ti próprio”. 

Contudo, por detrás do debate que se gerou, e em alguns outros debates não relacionados, transpira a imagem que não são as ideias que estão a ser debatidas. São pessoas que estão a ser contestadas, testadas ou isoladas. A ideia deixa ou não de ser ideia porque depende de quem a colocou.  O que disse o Presidente Nyusi no seu curto discurso não tem o condão de ser julgado como errado ou certo. Pode ter omitido muita coisa, muito detalhe, muita explicação, mas não parece certo dizer que ele não falou das actividades do seu Governo. Alguém dizia no debate da STV que as linhas férreas e as estradas de que ele está a falar não foi ele que fez e além disso não servem propósito nenhum. Parece claro que aqui não é a linha férrea ou a estrada quem está em debate. É o Presidente. É como se se dissesse que se não foi o Presidente que fez a linha férrea ou a estrada então que não fale disso porque não lhe pertence. A quem pertence a muralha da china? Quem a fez? A quem pertence a estátua da liberdade em Nova York? A quem pertence Roma? Quem fez Roma?  Que se pergunte aos habitantes de Nacala Velha se o novo porto é ou não elefante branco? Que se pergunte a empresa Vale se a linha férrea Moatize Nacala é ou não necessária. Que se vá dizer aos habitantes do Niassa que a linha férrea Cuamba Lichinga não é necessária. Sem duvidas que o Presidente deixou no ar questões que precisariam de explicação. Ele próprio quando diz que passou o seu meio termo a colocar o país de volta nos carris, da azo a que os debatedores de pessoas pensem que está a falar do trabalho mau do seu antecessor. Ele estaria também a debater pessoas e não ideias, porque estaria a insinuar que tudo o que foi feito pelo Presidente Guebuza não existe porque é o Guebuza que está em causa e não as suas ideias e os seus feitos. Ora Guebuza também teve percalços similares aos que o Presidente Nyusi enumerou. E vezes sem conta teve que repor o país nos carris, depois de descarrilar. Enfrentou a crise financeira mundial de 2008, três ou quatro inundações violentas, três ciclones devastadores e até um terramoto de grande magnitude. Mas o manteve o crescimento económico mais ou menos constante e desenvolveu infraestruturas como nunca antes.   

Ao debate promovido pela STV seguiram-se debates que claramente se dirigem a pessoas e não as ideias dessas pessoas. Há um jornal conceituado da praça que diz que as ideias de um dos membros do painel mostram que Guebuza pode estar de volta. Andou escondido e agora está a erguer a cabeça. E esse membro do painel é rotulado com coisas más associadas ao Guebuza. Não são as ideias que ele expôs que contam, mas ele mesmo. E o mesmo tom se propaga nos facebooks e what’s ups.  

Rejeitar ou aceitar uma ideia com base no gerador dessa ideia é sinal de um ambiente doente de luta pelo poder ou com sede de vingança. E quando isso transcende para além dos políticos para contaminar académicos, juristas e jornalistas, o cenário pode ser de um ambiente onde está a fermentar perigo para todos nós como sociedade e como país. Num mundo que se caracteriza pela sede de dominação de uns países pelos outros, ou de uma camada social por outra, a esperança está pelo menos na sabedoria dos académicos, defesa da justiça principalmente pelos juristas e isenção dos jornalistas. Estes, em vez de participarem na luta pelo poder e alimentar sedes de vingança, trazem a plataforma para direcionar as energias da sociedade no sentido constructivo. Trazem os factos como eles são e estes são analisados de forma cientifica. Trazem a plataforma legal para não se confundir vingança com justiça. Informam para combater a desinformação. Educam e buscam a coesão social. Ainda que reconheçamos que o poder deve existir, não devemos ignorar que quem o tem, muitas vezes tem a tendência de priorizar os seus desejos, e presta menos atenção a ideias contrarias. Quem gosta e tem o poder, tende a preserva-lo e para tal pode quebrar as barreiras do racional e admissível. O coração humano pode ser doce, mas quando as ideias do poder suplantam o poder das ideias e se geram lutas nessa arena procurando envolver todas as camadas e estractos sociais, está-se a entrar num cenário que gera rancor e bloqueia o progresso. O País precisa de ideias endógenas que possam contribuir para balancear as esperanças com realismo e construir essa esperança com base em inovação dentro do quadro que caracteriza a soberania e autodeterminação de um povo. 

As lutas pelo poder e a sede de vingança acabam conseguindo o contrário, por criar vazios no poder e na liderança, que podem ser preenchidos por outros interesses alheios ao país. E parece que começamos a ver sintomas destes factos. As elites nacionais parecem mais isoladas do povo que advogam defender. Criou-se a falsa ideia que o país tem um ou dois problemas que impedem enfrentar os desafios da pobreza. E se procura atrair toda a atenção do país para esses problemas. O resto tende a desaparecer dos debates. Discute-se mais o que o doador quer, do que aquilo que a maioria da população quer. As vozes dos doadores parecem ganhar mais eco do que as vozes dos milhões que não tem água para beber nem a certeza da próxima refeição. A agenda nacional se concentra na recuperação da chamada confiança internacional a custa de erosão de confiança entre os moçambicanos. Esquecemos que quando o povo se sente isolado das elites nacionais e do seu governo e quando se agravam as lutas pelo poder, o descontentamento popular cresce exponencialmente e pode tomar forma de revolta para ver se as suas vozes são também captadas. Elites isoladas, povo descontente e vingança é receita para instabilidade politica, social e militar que pode levar anos a controlar. A reconciliação entre a FRELIMO e RENAMO que tanto nos preocupa, mesmo que dê certo, pode virar a brincadeira de parque infantil sem significado para a paz. Como dizia o sábio velho Chissano, a paz não é somente a ausência de guerra. É sobretudo a ausência de razões para guerra.  

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