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A longa Marcha no combate a corrupção  

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 Zaila Xoloni 

O Presidente Filipe Nyusi numa das suas intervenções no XI Congresso da FRELIMO comparou a missão de combate a corrupção como a de combate ao colonialismo. Não era a primeira vez que o Presidente se referia a este assunto.  O que parece ser novo é que ao comparar este desafio como aquele de combate ao colonialismo, de forma peremptória, chamou atenção que a corrupção não é doença de alguns tantos, mas sim um sistema. 

Da mesma forma que a luta contra o colonialismo português não era luta contra os portugueses, mas sim contra um sistema instalado, a asserção do Presidente induz e orienta para a erradicação de um sistema instalado e os seus agentes. Este desafio vai muito para além do que tem sido a prática recente actual.  

O desmantelamento de um sistema é um desafio muito maior, de longo termo, que implica a substituição do mau sistema por um outro melhorado, e em aperfeiçoamento constante. O desmantelamento do sistema colonial, começou por caça as bruxas, rebeliões isoladas, organização de vários movimentos anticoloniais e que desaguou na clareza, de que o sistema colonial e não as pessoas, é que era o alvo a atacar e a substituir.  

Com o a independência em 1975, sabia-se que somente se tinham eliminado os símbolos e manifestações principais do sistema colonial, mas como dizia o falecido Presidente Machel, os vestígios estavam ainda nas mentes de muitos de nós, e por isso o combate ao sistema tinha de continuar com a criação de um sistema melhorado.  

Por analogia, é de supor e crer, que o combate ao sistema que corrompe deve ser alargado e abrangente, o que vai levar tempo, exigindo revolução ou reformas profundas. E este trabalho deve ser suportado por estudos que permitam localizar e dimensionar os problemas, bem como as suas causas e as possíveis soluções. Os sistemas são feitos de subsistemas a serem identificados e questionar a sua vulnerabilidade a actos criminosos.  

Alguns subsistemas parecem fáceis de serem identificados e dimensionados a um certo nível. Um deles (se não o primeiro e mais importante), parece ser o de educação da sociedade no que toca as normas e valores. Estes valores devem ser examinados como parte dos padrões culturais que permitem indicar o bem desejável numa vida social organizada. Dentro desses valores deve figurar como acordado o que é correcto e importante, legitimando assim os arranjos do comportamento social.  

A solidez ou fragilidade dos valores que se estabelecem determinam a transmissão ou não para o nível de cada membro da sociedade, pois o facto de uma sociedade ter seus valores, não é garantia de que esses valores são também de cada um dos seus membros. O que importa é que os valores estabelecidos como sociais devem servir para regular o pensamento e comportamento de cada individuo.  

A transmissão desses valores ocorre de muitas maneiras no quadro de educação. São transmitidos de pais para filhos, do professor para o aluno, do líder politico, espiritual e académico para os seus seguidores, do patrão ou director para os empregados, entre amigos, vizinhos, colegas, etc. Quando as escolas não prestam atenção aos valores culturais nem no currículo nem nas atitudes dos membros da escola, algo está seriamente errado. Quando nas escolas há práticas de venda e compra de notas está se a praticar e multiplicar a corrupção. Quando docentes e discentes bebem juntos nas barracas e trocam favores sexuais entre eles, estamos a normalizar a corrupção. Esses discentes um dia serão o director, o patrão, o chefe, o Ministro, o policia, o enfermeiro, o medico, o advogado, magistrado, etc. E talvez só quando chegar a este nível ou função se prestará atenção a sua integridade.  

Quando há um acidente de carro e as pessoas que correm para o local tem a preocupação inicial de revistar os bolsos dos feridos ou mortos para tirar o celular ou a carteira, ou mercadoria, estamos a assistir a um fenómeno de moral e mentes corrompidas. E quando ignoramos ou justificamos este comportamento, estamos a pactuar com o desmoronar de valores sociais aceitáveis. Há crianças que assistem estes espetáculos ou participam neles e eventualmente aprendem que isto é normal. Esta criança pode vir um dia a ter responsabilidades publicas e não deveria admirar que exerça essa responsabilidade com mente condicionada para a corrupção.  

Um outro subsistema a ser olhado com lupa é o das instituições. Um estudo da Universidade de Harvard defende que há pouca atenção dada entre as ligações entre corrupção, governação e as instituições. A organização, os procedimentos, as regras e práticas que determinam o funcionamento das instituições, é um factor fundamental na prevenção da corrupção. Quando uma não tem processos efectivos de supervisão, formas de responsabilização e prestação de contas pode virar a ambiente que conduz ao crime.  

Uma instituição que entrega as chaves de cofre e poderes de decisão a um funcionário sem supervisão está a criar ambiente para a quebra da integridade desse funcionário. E se ele já não era íntegro vai se sentir como o cabrito que come onde esta amarrado. Quando a instituição recruta ou nomeia um chefe e não dá formação de fundo, a tendência desse novo chefe é a adoptar as praticas existentes. Se forem praticas boas, óptimo. Mas se forem más, o novo chefe já entrou numa armadilha comprometedora.  

O outro nível sensível, que se deve trabalhar para reforçar o combate a corrupção se refere a liderança. As pessoas têm os olhos postos nos seus líderes, quer sejam Ministros, Governadores, Administradores, Gerentes, Supervisores, Inspectores, Directores, Chefes de departamentos, professores, etc. Essas pessoas emulam ou rejeitam o que vêm e ouvem dos seus líderes, mas sobretudo as suas acções e atitudes. O famosos formador, escritor e formador Kevin Eikenberry diz que a liderança por exemplo significa que as acções do líder influenciam os outros para se comportar e responder de forma valiosa e apropriada para os resultados da nossa organização. Ou seja, o líder enquanto deve focar no seu comportamento, não é o seu ego que está em causa, mas sim os benefícios da organização.  

De maneira geral e repetida, insiste-se que o desejável num trabalhador é engajamento, empoderamento, flexibilidade e abertura a mudanças, foco, integridade, honra, boa atitude e ética no trabalho. Se estes são os valores que procuramos para combater a corrupção, todos os líderes e a todos os níveis tem que os ter. Quando a nomeação ou recrutamento de um quadro de liderança é baseada em critérios pouco objectivos e não de meritocracia profissional e os seus valores está se a perpetuar um sistema corrompedor. Corromper uma alma não é só comprar favores aos governantes e funcionários. É também criar consciente ou inconscientemente as armadilhas que constituem ocasião para o crime.  

Um último aspecto não menos importante no combate a corrupção tem a ver com referência a muitos e múltiplos exemplos de sistemas e funcionários exemplares. A tendência de pisar continuamente só no fenómeno corrupção traduz a impressão de que todos os dirigentes e funcionários estão contaminados e coniventes com este tipo de crime. Aqueles que se distinguem pela sua integridade são colocados injustamente no mesmo saco. Isto perpetua o sistema e enfraquece as instituições. As pessoas integras e de atitude correcta que poderiam dar grandes contribuições para o desenvolvimento do País vão recusar ser parte do Governo ou de trabalhar com as instituições públicas para não mancharem o seu carácter. Poucas vezes se enaltece as virtudes da polícia, professores, ministros, directores e outros. O que se faz é transformar o crime de alguns deles em crime de todos eles. Da mesma forma que se pune os corruptos, dever-se-ia exaltar aqueles que são exemplo de integridade.  

Há uma metáfora conhecida por “cenoura e pau” que surgiu para o uso da combinação entre castigo e prémio como forma de induzir o comportamento desejado. No contexto aqui exposto não se trata de defender a teoria de “pau e a cenoura” como forma de educação. Trata-se de procurar inverter o quadro da longa marcha de combate a corrupção, permitindo que aqueles cuja a ética é baseada na simpatia, educação, integridade, honra e relações cordiais, tomem a dianteira da marcha para mostrar o caminho do sucesso.  

 

1 COMENTÁRIO

  1. Texto rico, coerente na abordagem razões que elegem-no aceitavel. Não é o primeiro que leio, mas devo saudar o gesto como Moçambicano e amante do bem estar. Estamos a precisar de acções concretas a todos os níveis. Começando por responsabilizar de forma exemplar os infratores.
    Precisamos de ser tecnocratas no verdadeiro sentido da palavra, diminuir abutres no aparelho do estado a todos os niveis.
    Parar de sustentar o comodismo e colocientifiquismo dos jovens.
    Diminuir o numero e gorduras dos nossos dirigentes.
    Devemos amar e valorizar a nossa pratria pois se nao o fizermos, ninguem o fara por nos.

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