Início Destaque Futuro de África visto por Joaquim Chissano  

Futuro de África visto por Joaquim Chissano  

148
0
COMPARTILHE

Por: Boaventura Mandlate 

O mais recente relatório das Nações Unidas (ONU) revela que o futuro é africano. Projecta uma mudança demográfica que vai requerer investimentos em saúde e educação. Em prevenção a crises humanitárias potencialmente surpreendentes nesse futuro. A previsão da ONU coincide com os ecos das celebrações em 2015, dos 50 anos da União Africana, que sucedeu à Organização de Unidade Africana.   

Cinquenta anos depois, que desafios se impõem ao coantinente africano? Para o antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, uma África próspera passa pela garantia da paz, erradicação da pobreza e diminuição das diferenças entre os pobres e os ricos.   

“O primeiro desafio é de encontrarmos uma mudança de mentalidade e mudança de atitude dos seus povos, para assegurar a paz. O segundo desafio é o de vitória sobre a pobreza absoluta, para passarmos à fase de produção de mais riqueza e diminuir o fosso entre os pobres e os ricos, termos uma educação de qualidade, termos uma noção mais aprofundada do que é uma Boa Governação, um espírito de iniciativa e para resto da população que não está na direcção governamental ter um espírito de empreendedorismo. Conhecermo-nos uns aos outros para diminuirmos todos os pensamentos e todas as atitudes negativas como seja de egoísmo como seja de ódio”. 

Joaquim Chissano nota que os 50 anos de África representam um longo percurso que compreendeu várias etapas complexas em busca de paz, segurança, estabilidade, desenvolvimento e outros valores nobres da humanidade, que continuam a fugir de muitos dos Estados do nosso continente.   

A União Africana foi precedida da Organização de Unidade Africana (OUA), criada em 1963, com o objectivo de conquistar a independência política dos países africanos, até então em colonização, à excepção da Etiópia, que não chegou a aceitar o jugo colonial.  

Olhando para este grande objectivo, o antigo estadista moçambicano, Joaquim Chissano, atribui nota positiva aos 50 anos de longo percurso do também chamado continente negro.  

“São 50 anos da Organização de Unidade Africana que foi sucedida pela União Africana, que ao fim e ao acabo representa uma mudança qualitativa da OUA. A mudança de nome visou enfatizar o nível a que se chegou, que é uma verdadeira união. A minha avaliação muito positiva decorre de uma comparação das discussões que houve antes de 1963, que conduziram à criação da OUA, em 1963, àquilo que se passou desde este ano até 1994 e o que se passa agora, desde 1999 até ao ano 2013”. 

Chissano lembra que antes da formação da OUA, havia, em certos grupos, entusiasmo sobre a unidade africana. Segundo o antigo estadista, na altura falava-se de uma união física de países, muitos dos quais ainda eram colónias.  

“Já se pensava que esses países logo que saíssem do colonialismo haveriam de se juntar para formar um país único de tipo federativo, a Guisa dos Estados Unidos da América ou a Guisa do Brasil, ou do México, ou da própria Nigéria, que não existia, então. Poderia tomar uma forma diferente como é duma união, como é o caso de Zanzibar e Tanganhica, que se juntaram e formaram uma União. Mas havia um outro grupo que olhava mais para os obstáculos que podiam existir para se criar um governo, uma Federação de Estados de África, haveria muitos constrangimentos, mesmo se pensarmos na base cultural, nomeadamente a língua que esses Estados iriam utilizar. Talvez uma das três línguas de colonização. Isso só em si já era um problema. Qual das línguas a utilizar? Mesmo que fosse para pedir emprestado uma língua do colonizador, porque não haveria uma língua africana comum ou uma língua de fácil aprendizagem por todos. O colonialismo mais proeminente em África era o inglês, seguindo-se o colonialismo francês e o colonialismo português. Depois houve a presença de italianos, alemães, mas foi passageira, em pequenas áreas.  

Não é apenas o factor língua que inviabilizou a ideia de futura união física de países africanos em situação de colónia, naquele tempo. Chissano diz ter havido outros constrangimentos de natureza ideológica, que já se faziam sentir na altura. Destaca o facto de na altura a libertação dos países africanos estar a ocorrer sob a inevitável influência de blocos internacionais. O bloco do Leste e o bloco do Ocidente, que influenciaram quase de forma determinante a política de alguns países.  

“Por exemplo, o Presidente Kwame Nkrumah, do Gana, que era protagonista desta unidade, era claramente pró-socialismo apoiado nas políticas da União Soviética, da China, enquanto outros países estavam com outras influências como a influência francesa e a própria influência americana. Como constituir uma Federação com ideologias tão divididas. Nos Estados Unidos da América há dois partidos que se alternam, mas a política é a mesma, a ideologia é a mesma. No caso de África naquela altura já havia estes problemas. Portanto era sempre necessário ir buscando um denominador comum que pudesse unir os países africanos com um determinado propósito. Assim, em 1963 houve um consenso de se unirem em volta dum propósito principal, que era a libertação do continente africano do jugo colonial e do “apartheid”. Isso foi o acento tónico, é claro não se deixaram de procurar formas de cooperação entre os Estados africanos, em matéria de desenvolvimento económico e de busca de posições. Os países africanos, apesar daquela divisão ideológica, escolheram abraçar princípios idênticos, à base de Não Alinhamento, nem com o Ocidente nem com o Oriente (nos blocos), apesar das influências que certos países como a União Soviética ou Estados Unidos da América ou a França tinham em determinados países, mas como um grupo, seguiu a linha do Não Alinhamento. E isto é resultado de que esta ideia da independência nacional (Nacionalismo Africano), está ligada com os encontros de Bandung (Indonésia), que eram afro-asiáticos após guerra mundial, onde se decidiu que esses países africanos ou que não participaram nessa guerra mundial, à medida que se libertavam, seguiriam um caminho de equidistância entre os blocos e procurar aproximar os blocos para que haja paz, porque se sentiam certamente numa posição de vulnerabilidade em caso de guerra”. 

Alcançado o objectivo das independências políticas, seguiu-se uma nova etapa com metas ainda por alcançar nos dias que correm, a independência económica, social e cultural. O antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, diz que este pensamento emergiu de forma acentuada, que determinou a necessidade de montagem de uma série de mecanismos conducentes à convivência entre os países africanos.                 

“Um dos mecanismos que foi sentido com muita força é o mecanismo para segurança e paz. Criou-se um mecanismo de prevenção, gestão e resolução de conflitos, numa fase já mais adiantada que em 1993, nas vésperas da rota do “apartheid”. Este mecanismo foi seguido de várias Declarações, porque no passado havia conflitos entre Estados. Lembramo-nos do conflito Somália-Etiópia, Somália-Quénia, entre outros. Os mecanismos tinham tendência de resolver tais conflitos inter estatais, mas também se viu que havia prevalência de conflitos internos. Conseguiu-se lidar com sucesso, com os conflitos inter Estados, os conflitos fronteiriços, os conflitos sobre recursos, embora estes ainda não estejam completamente eliminados, mas estão no mínimo. Podemos falar de um ou dois conflitos, e que até agora tem-se encontrado uma solução, por exemplo entre a Nigéria e os Camarões. Conseguiu-se uma solução, entre a Guiné Bissau e o Senegal, sobre a zona económica no mar onde havia petróleo, também se encontrou solução e criou-se um mecanismo regional daquela zona do Golfo da Guiné, e que hoje está activo para manter a paz e encontrar formas de como explorar os recursos nessa zona. Houve um conflito, também, mas esse é interno, na Serra Leoa (solucionado), igualmente sobre recursos. Isso foi um sucesso também, mas prevaleciam conflitos internos e intra-estatais. A União Africana também visajou muitas soluções, elaborou muitas Cartas e Declarações, a começar pela Carta Africana sobre a Democracia, Eleições e Boa Governação, que está a ser aplicada, com as suas dificuldades, mas é um passo grande. Houve a Declaração da Argélia na cimeira de 1999, sobre a recusa de mudanças inconstitucionais de governo e que foi reiterada por uma outra Declaração em Lomé. Esta aqui já trás resposta à violação desse princípio, que é o que está a ser aplicado com sucesso em Madagáscar. Isto é a União Africana e as suas sub-regiões que também têm instrumentos baseados naqueles instrumentos, vamos chamar da organização mãe. Este princípio da Democracia, Eleições e Boa Governação foi refinado por uns princípios que regem as eleições em África. Isso foi adoptado em 2003, já na vigência da União Africana. Finalmente foi estabelecido o Conselho de Paz e Segurança da União Africana, que se reúne regularmente para acompanhar vários conflitos e tomar posições e influenciar as posições tomadas pela comunidade internacional”. 

O antigo estadista moçambicano sintetiza que este percurso representa a construção de instrumentos para que realmente seja possível assegurar uma paz duradoira em África, no pressuposto de que sem paz não haveria desenvolvimento nem democracia. Por outro lado, sem democracia não haveria paz.  

O continente celebrou as bodas de ouro sob o signo “Renascimento Africano”. Para Chissano, o Renascimento Africano significa a prática das boas coisas, algumas das quais ainda fogem do nosso continente. Chissano sublinha que África é um continente que já fez nascer a humanidade, ao mesmo tempo que promoveu o desenvolvimento.  

“É só pensar no Egipto (África), que levou a civilização pelo mundo fora. As ciências, a geometria, medicina e muita coisa. Já havia muito desenvolvimento em África, mas o colonialismo abafou este desenvolvimento e parecia algo de secundário. Hoje com a independência política que alcançamos sente-se a vontade de renascer, portanto um renascimento que vai apoiar-se no respeito pelos direitos humanos. Por isso também existe uma Carta dos direitos dos povos e dos homens e vemos também como um grande sucesso da União Africana, o lugar que hoje a mulher africana ocupa. Não era muito pensável nos tempos que houvesse uma mulher Chefe de Estado Africano. Muitos daqueles que compõem a Comissão nos diversos departamentos, uma espécie de ministérios de África, são mulheres, também, para não falar dos postos que ocupam nos diversos países, nos parlamentos. Isso tudo está relacionado não só com os esforços de cada país, mas com uma política de propósito da União Africana”. 

Senhor Presidente, e a questão da estabilidade efectiva que demora chegar, sobretudo em alguns países do nosso continente, qual é o obstáculo que há a remover para se conseguir uma estabilidade efectiva em todo o continente?  

“Eu estou a tentar dizer que essa questão da paz, na sua dinâmica, tende para o melhor, mercê dos esforços da União Africana. Os conflitos diminuem, aparece um conflito ali, um conflito acolá, que nós tendemos a olhar de uma maneira isolada e não neste conjunto da melhoria das situações e das formas de trazer essa solução. Mas é um processo muito longo, porque esta questão da paz é sobretudo uma questão da mudança de atitude do ser humano, não vou dizer dos africanos, porque houve casos similares há também na Europa, onde parecia que estava tudo tranquilo, a exemplo da Bósnia Herzegovina, Jugoslávia. É necessário que haja uma mudança de atitude, mas o que nos interessa é criar essa mudança de atitude em África, por isso que há essas múltiplas reuniões, negociações, medições, etc. e cada vez mais vão sendo lições para que o homem cresça com esta cultura de paz. Este é um longo percurso, porque é uma educação, as pessoas têm que crescer com uma educação que é a sua cultura, é a sua maneira de ser. No dia que a paz viver em nós como cultura, da mesma maneira que lavar a cara faz parte da nossa cultura, a sociedade vai se educando além de que existem outras organizações que não são os Estados, organizações da Sociedade Civil, igrejas, que não fazem outra coisa que não trazer essa educação, cada vez apoiando-se na vida actual, de relacionamento entre as pessoas, mesmo aquelas que não acreditam numa religião, podem ter uma base para essa cultura de paz, não apenas na vida espiritual. Mesmo no nosso país temos que eliminar a dúvida e estarmos certos de que dependendo dos moçambicanos, seja de que cor política forem, seja de que religião forem, no nosso país não haverá mais violência generalizada. Depois temos que passar para fase seguinte. É que mesmo a violência entre dois indivíduos deve ser evitada. Não só falar da violência, com armas de fogo e outras, ou mesmo com socos, mas há outro tipo de violência, por falta de respeito dos direitos humanos, como quando as pessoas são sujeitas a passar fome nesta pobreza abjecta, vivem num estado de violência. Então temos que encontrar formas de fazer essa educação e uma maneira de convivência que faça com que não haja conflito. Por exemplo a discriminação, a exclusão, tudo isso são formas de violência, mesmo sem ser através duma acção armada ou violência física. Isso tudo merece educação, expandir o conceito de paz e expandir o conceito de conflito”.      

Senhor Presidente na história dos 50 anos de África, e num passado relativamente recente, testemunhamos a criação da Nova Parceria para o Desenvolvimento de África, um instrumento que até certo ponto criou uma grande expectativa, pois representou um sinal de um dinamismo que ia ser imprimido para o continente, do ponto de vista do desenvolvimento económico e não só, é um instrumento que salvaguardava entre outros aspectos, a questão da Boa Governação, só que a partir duma certa altura deixou de se falar da NEPAD, será que é um instrumento falhado? 

“Eu penso que essa ideia não morreu, o que acontece é que ela se manifesta doutras formas. Naquela altura, quanto a mim, não houve tempo suficiente para que todos os estadistas interiorizassem o significado da Nova Parceria, sobretudo o que é que tinha essa parceria de novo. Interiorizasse, essa parceria entre quem é quem, quem eram os parceiros, e cada um foi interpretando à sua maneira. É de maneias que os esforços foram dispersos. Quanto a mim, a maneira como eu entendi, a Nova Parceria Africana, o que tinha de novo era a apropriação do processo de desenvolvimento na África. Devia pertencer aos africanos, toda a iniciativa devia vir dos africanos. Segunda coisa que era de novidade é que a África olhava para as suas capacidades antes de procurar outros parceiros. Não quer dizer que em tempo tinha que esperar para olhar para as suas capacidades e depois rejeitar a parceria com os outros, não, quer dizer que o fundamental devia ser as capacidades africanas. Os recursos que nós temos, a começar pelos recursos humanos, deviam ser mobilizados, para resolver os problemas comuns que forem identificados pelas diversas reuniões do grupo de chefes de Estado, de seus ministros, que tinha que olhar como esse processo poderia arrancar e ir avante. Portanto pensou-se muito no que havia de comum, problemas comuns a resolver. A ideia foi apoiada por outros parceiros de fora de África, como o grupo G-8, por exemplo, que se prontificaram a dar um apoio e fez-se um orçamento grande para as prioridades e uma das prioridades grande que se viu era da infra-estrutura comum. Muitos também interpretaram mal, parecia que nós tínhamos que satisfazer a uma infra-estrutura que cobrisse toda a África duma só vez, quando afinal de contas as infra-estruturas, no meu entender, podiam ser criadas de iniciativa de alguns países, 2, 3, 4 e assim por diante. Podíamos, por exemplo, construir a tal linha férrea do Cabo (África do Sul) para o Cairo (Egipto), podíamos interligar a energia da África, mas eu nunca pensei que havíamos de ter orçamento para fazer tudo isso duma só vez. Ao construirmos os corredores de Moçambique com os nossos vizinhos, eu sentia que nós estamos a contribuir para a implementação da NEPAD, e fazíamos isso já a olhar para os interesses comuns. O Botswana fez com a Namíbia o corredor Trans Kalahari. Portanto, houve essas iniciativas. Mas eu digo que isso não foi no sentido que se queria, porque muita gente começou a pensar que a ajuda havia de vir de fora para esse orçamento. Na altura falava-se de USD 65 biliões para construir as infra-estruturas principais previstas numa primeira fase e pensava-se que a maior parte desse dinheiro tinha que vir de fora. Mas esta postura, quando eu digo que a ideia não morreu, é ultrapassada por aquilo que nós estamos a ver em certas regiões, incluindo na SADC, onde há esforços que se fazem, rumo a uma integração económica. Na ECOWS (sigla inglesa), Comunidade Económica dos Países da África Ocidental, também há esforços. Falei do Golfo da Guiné, onde há esforços da solução dos problemas que lá podem existir, sobre a utilização ou pesquisa e exploração de hidrocarbonetos, por exemplo, a Bacia do Rio Níger, que também tem uma outra organização. Há esforços que eu penso que estão no caminho certo, desde que não se perca de vista que a ideia é no fim termos a interligação desses sucessos, pequenos ou grandes, que vamos encontrando nas sub-regiões. É verdade que algumas destas questões não andam rapidamente, porque ainda há certas desconfianças, ainda há uma vontade de se marchar sozinho, para resolver problemas nacionais, é natural que cada país queira entrar com uma certa força para garantir uma paridade no relacionamento com os outros, por isso cada um vai para China, negocia com os chineses, vai para Rússia, negocia com os russos, negocia com os franceses, com os ingleses, com os brasileiros, cada um por a sua vez, e depois é quando se pensa fazer uma coisa em conjunto. Ainda não chegamos ao tempo em que a SADC vai negociar com a China, com a Rússia, ou com os Estados Unidos da América, para um projecto ou projectos que se dizem são projectos “SADC”. Durante o tempo em que a NEPAD estava muito quente, havia grande entusiasmo, houve projectos que a gente se perguntava se não eram projectos da NEPAD. Chegamos a dizer que são projectos da SADC, mas às vezes não se ia mais longe, porque são projectos da NEPAD. Por exemplo, quando se constrói a ponte Armando Emílio Guebuza, sobre o Rio Zambeze (Caia), durante a busca de financiamentos costumávamos dizer que apesar de estar no interior de Moçambique, a infra-estrutura faz parte dos projectos da SADC, porque assegura a tal comunicação entre o Cabo e a Tanzânia, e da Tanzânia, logicamente o Quénia, Etiópia, etc. É uma parte que torna essas viagens difíceis para transportar mercadorias, etc. hoje algo bastante facilitado. A ponte sobre o Zambeze, em Tete, já mostrava, porque as mercadorias do Zimbábue passavam por Moçambique e iam até ao Malawi. Essas pontes pareciam que serviam só o Malawi, mas podiam ir mais longe. Portanto são corredores entre dois países, às vezes três países, mas têm importância para a ligação que têm, para além daquele segundo país, e no nosso caso não temos outro país para o leste mas temos o mar, que dá a ligação para esses países todos com o mundo. Portanto a Nova Parceria para o desenvolvimento de África está lá, o espírito NEPAD está lá, quem quiser pode realmente fazer a ligação e dizer que o espírito está lá e continuarmos a ver em que medida é que aquele elemento que fazia com que essa parceria fosse nova volta a vigorar. Já há países que têm muitos recursos humanos, como fazer uso desses recursos humanos? A União Africana está a debruçar-se sobre essas questões, através dos seus departamentos económicos e um dia vamos começar a andar depressa, porque os resultados estão ai”. 

E a propósito dos recursos humanos, o que é que o continente africano tem de fazer, na sua opinião, para passar em definitivo a assegurar que esses recursos humos sirvam efectivamente os interesses de África e não a diáspora? 

“Esse é um ciclo vicioso, porque quem deve criar condições para que os recursos humanos fiquem no continente são os próprios recursos humanos que se vão desenvolvendo. Quando faço esforços para que sejam formados engenheiros, é para os engenheiros nos falarem sobre o que é preciso fazer, como é que se faz porque os governos não sabem, um Presidente da República não sabe, um Primeiro-ministro não sabe. Um engenheiro de minas, um geólogo, é preciso saber que é possível fazer pesquisas geológicas sem recorrer aos de fora. Mas o espírito humano é assim, tira o seu curso, mesmo que tenha sido à custa dos impostos pagos pelo povo, ele quer ganhar um salário ganho por um engenheiro nos Estado Unidos da América, então emigra e trabalha nos EUA. Quanto mais brilhante ele for, mais pensa que é lá onde deve dar o seu brilho. Temos que continuar a educar, para que as pessoas saibam, que foram formadas ou se formaram para servir um propósito. O que há a fazer do lado dos governos é estimular essas pessoas, talvez pelo trato, pelo respeito que se lhe deve, não tanto pelo dinheiro que se lhe dá, para que saibam que valem muito e que podem realmente ajudar a trazer riqueza e até mesmo a formular legislação que tornem os nossos investimentos mis viáveis para o bem do público, porque elas é que sabem o que é preciso para fazer prospecção mineira. Falei de geólogos, que não podem estar sozinhos, têm que se juntar aos economistas. Se houver este espírito podemos dizer que nós temos saída, porque os recursos estão a desenvolver-se em toda a África”.  

Senhor Presidente, quais são os principais desafios que se impõem ao nosso continente,50 anos depois?  

“Para além do que eu disse no início da nossa conversa, em Moçambique felizmente já nos conhecemos melhor do que na altura da independência, mas temos que fazer ainda mais. Ao nível da África ainda estamos muito longe de nos conhecermos uns aos outros, é o sinal que vemos das xenofobias, porque nós estamos a ver xenofobia quando acontece um caso horroroso na África do Sul, mas também nós aqui lamentamos, porque às vezes muitas pessoas, africanas, entram no nosso país provenientes dos seus países, e nós temos a tendência de repulsa, questionamos o que é que vêm fazer. A xenofobia é o exemplo de que não há conhecimento, nem das lutas que travamos em conjunto para ter essa liberdade/independência política nós não conhecemos e não conhecemos mesmo as riquezas uns dos outros, Moçambique está a ser descoberto hoje, mas África toda quando pensava em Moçambique pensava que era uma aldeia cheia de mato, cheia de ignorantes, etc. muito primitiva, mas agora começam a conhecer Moçambique, não só por causa das suas riquezas naturais, mas pelas suas gentes acolhedoras, trabalhadoras, dirigentes, é interessante ouvirmos isto lá fora. E muitos admiram-se por causa deste desenvolvimento rápido de Moçambique, que nós moçambicanos muitas vezes não vemos. Não estou a falar de crescimento económico, estou a falar do desenvolvimento das pessoas”. 

Senhor Presidente, um académico de créditos firmados a nível do nosso continente, dizia, quando discutíamos a questão de África no bom sentido, que o continente está carente de líderes como o Presidente Thabo Mbeki, o Presidente Obasanjo e o Presidente Chissano. Gostaria de ouvir o seu comentário.         

“Esse comentário é difícil tirar daí. Tenho dito que os líderes são líderes no seu próprio ambiente, onde têm problemas específicos a resolver e que são esses problemas com que às vezes eles orientem a sua liderança num determinado sentido. E olha que nenhum deles escapa à crítica. A posterior muita gente vai dizer de boas coisas que aquele líder faz, que fez, e começam a compreender o líder, e mesmo assim nem tudo é compreendido, porque alguns não estão por dentro dos problemas que foi preciso ultrapassar. Isso acontece com outros líderes que não são vistos como bons líderes, mas que nos seus países fazem diferença e resolvem problemas à sua maneira, que entretanto nós gostaríamos que resolvessem à nossa maneira. Quando se vai para os padrões internacionais, muitos deles não têm em vista o que cada líder passa no seu país. Não quero dar muitos exemplos, mas se olharmos para o nosso continente há Chefes de Estado que ficaram muitos anos no governo, por diversas razões, palpáveis, a exemplo de José Eduardo dos Santos. As pessoas tendem a dizer que está no governo há muitos anos, mas ele entrou no governo (21 de Setembro de 1979) depois da cimeira dos Não-alinhados, em Cuba, e durante esse tempo todo estiveram em guerra. Nós aqui em Moçambique tivemos 16 anos de guerra. Em Angola tiveram eleições e voltaram de novo à guerra e estamos a somar esses anos todos, será justo? Pode ser que ele tenha ficado muitos anos, mas não é a partir daquele momento. Entretanto Angola hoje está a ser aplaudida, porque tem crescimento rápido, talvez um dos que está a ter crescimento muito rápido e está tentando resolver problemas reais. A título de exemplo, eu vi cidades novas que estão a ser construídas para resolver o problema de habitação, mas as pessoas olham só para uma área. Podia falar de outros líderes que têm outras circunstâncias, mas é melhor não falar, porque sou capaz de ainda errar. A comparação é uma coisa muito difícil. Nas circunstâncias de Moçambique sou visto como uma excepção, uma excelência, mas devo dizer que não são todos os países que tiveram uma guerra de 16 anos, que tiveram que resolver esse problema. Comparar-me a esses países é comparar água e azeite. Eu sou reconhecido por mérito próprio e não por comparação com outros. Talvez o que se quer dizer é que cada um no âmbito dos seus problemas devia encontrar uma forma de encontrar soluções. Eu retirei-me da cena governamental por vontade própria, mas eu retirei-me em circunstâncias de Moçambique, naquela altura. Se eu me encontrasse nas circunstâncias, vou utilizar o mesmo exemplo, para não multiplicar, de José Eduardo dos Santos, não sei se havia de me retirar, no meio da guerra. Eu retirei-me depois da guerra, de tempo para a consolidação da paz, para a reconstrução nacional, início de lançamento de uma base para o desenvolvimento. Já tínhamos iniciado este combate contra a pobreza, porque a minha estratégia foi de lutar para a reconstrução nacional pós guerra e lançamento de bases para o desenvolvimento. As três coisas tinham que ir em simultâneo, não esperando uma pela outra. E só quando vi que eu já não podia ser condenado por fugir aos problemas, é que disse que agora posso sair, porque não estou a fugir aos problemas, porque a máquina está a andar, seja quem for que vier, seja ele da oposição ou não da oposição, não vai deixar esta máquina, há-de continuar com este processo, portanto devo sair antes que cometa erros grossos que nos possam fazer retrogredir, ou antes que eu derrame como uma roda na lama”.  (x)             

 

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here