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Investir na mulher para derrotar Sida (2)

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Investir na mulher pode ser um importante passo na prevenção e combate ao HIV/SIDA. Pessoas vivendo com a chamada doença do século, que lograram vencer o estigma e levam hoje uma vida normal, são unânimes em afirmar que o desafio foi enfrentado com sucesso tendo como suporte a mãe ou a avó.

As estatísticas rezam que o número de mulheres vivendo com o HIV/SIDA é maior que o número de homens na mesma situação, particularmente em mulheres mais jovens, na faixa etária dos 25 anos.

A mulher é vulnerável ao HIV/SIDA, devido a vários factores, desde questões biológicas, socioculturais, económicas, políticas, entre outras. Muitas mulheres são vítimas de violência doméstica, moral e sexual, duas vias importantes, conducentes à contaminação pelo vírus do HIV, causador da SIDA.

A mulher continua a ser educada para perpetuar padrões e modelos de comportamentos que dão ao homem o poder de controlar a vida e a sexualidade das suas parceiras. Muitas mulheres, principalmente no meio rural, continuam a ter parto em casa, em condições deploráveis, e a não terem acesso à informação e à educação.

Este é um quadro que claramente nos remete à conclusão de que a mulher é quem lida com o HIV/SIDA e o investimento nela pode ser um passo importante na prevenção e combate a esta doença. Quer isto dizer, que o sucesso na prevenção e combate ao HIV/SIDA pode ter como via importante, a mudança do quadro acima descrito. Uma mudança que não se faz num só dia. É um processo que não pode abrir espaço para exclusão de qualquer espécie. Homens e mulheres, ou seja, toda a sociedade devem estar envolvidos em acções que conduzam a esta mudança.

Nos relatos que se seguem, de mulheres vivendo com o HIV/SIDA, omite-se deliberadamente a identidade das nossas entrevistadas, por razões óbvias. Vamos recorrer a nomes fictícios.

“Esperança” diz que vive com o HIV/SIDA há 13 anos e conta que deve muito à sua falecida mãe. “Eu consegui superar com ajuda da família, irmãos e amigos. Um dos maiores segredos para puder superar foi de me encorajar pessoalmente, através da minha falecida mãe. Ela ajudou-me muito para ainda hoje estar em vida”.

“Esperança” diz que a mulher é quem está em melhores condições de dar amparo a pessoas vivendo com o HIV/SIDA, um poder que entretanto lhe continua a ser negado pela sociedade, o que se traduz na discriminação de doentes por via do sexo, com a mulher a sair em desvantagem.

“Fui muito discriminada na própria zona, dentro da família algumas pessoas me discriminaram, sofri muito, a pessoa que me deu força foi a minha falecida mãe, coitada, ela perdeu a vida. Eu sofri muito, se não morri, não pensei em enfocar-me, é porque ela vinha sempre dizendo: milha filha, isso é uma doença, suponha que essa doença é uma doença crónica, vai passar. Tive também ajuda de um meu tio, médico que trabalha no Hospital Central de Maputo. Ele dizia sempre: minha filha, tenha força, a vida não parou. Tenha esperança, um dia voltará a trabalhar. Meti tudo isso na cabeça e hoje estou aqui”.

Em sociedades como moçambicana, a mulher carrega o pesado fardo de ser a mãe da humanidade e também de todos os males que ocorrem numa família, o que dificulta ainda a prevenção e combate ao HIV/SIDA. Este o ponto de vista de “Esperança”, que vive com o HIV/SIDA há 17 anos.

“Principalmente em nós, é difícil aliás dizer aos nossos maridos que eu estou nesta situação, porque ele vai reagir dizendo que a contaminação foi por via sexual numa relação extra conjugal, quando esta não é a única via de transmissão do HIV. O conselho que dou a outras mulheres é de que não deixem de informar aos seus maridos sempre que se aperceberem do seu estado serológico. Quando não se informa aos maridos há o risco de fazer mal o tratamento, de ter recaídas e de se reinfectar e os dois podem morrer deixar crianças órfãs”.

Entre pessoas vivendo com HIV/SIDA a mulher assume a dianteira no aconselhamento de outros doentes, inspirada na sua nobre missão de ser mãe, disse “Rosita”, doente de sida assumida.

“Eu sou activista, ajudo às pessoas que vêm a este local (Centro de Saúde DREAM junto ao Hospital Geral da Machava) pela primeira vez. Dou palestras, aconselho às pessoas que ainda estão longe, ainda não sabem o que é que se passa, estão na escuridão. Faço entender a elas que a sida não é um bicho-de-sete-cabeças, é uma doença crónica, a malária é pior que a sida. A malária mata de hoje para amanhã, mas sida basta você cumprir, medicar-se. Sou disso exemplo, ninguém consegue hoje imaginar a minha situação até que me declaro. Então o meu trabalho aqui no Centro é de aconselhar às pessoas que vêm pela primeira vez, dar apoio

moral, fazer palestras, fazer assistência ao domicílio, cuidar das crianças, dizer às mães que não se deixem enganar. É a dois que se consegue gerir a vida, se sou seropositiva e não revelo ao meu parceiro em casa, não estou a fazer tratamento, estou a encurtar a minha própria vida. O meu conselho é que devemos informar aos nossos parceiros. Não imagina quantos parceiros já me abandonaram, mas por fim ganhei a vitória ao dizer às pessoas”, disse “Rosita”.

“Tristeza”, outra mulher infectada, contou-nos que vive com o HIV/SIDA há 16 anos e também deve muito à sua mãe. “Graças a Deus, quando descobri a minha mãe apoiou-me muito, mas perdi o meu casamento, perdi o meu marido. Fui primeira a ficar doente e ele me expulsou de casa com três filhos. Mas a minha mãe apoiou-me tanto, também aceitei e encorajei-me. Fiz o teste, fiquei a saber da minha situação e disse para mim: sou mãe, tenho três filhos, e eles precisam de mim. Tenho que me aceitar e lutar pela vida. Isto foi determinante para puder estar a caminhar até hoje. Estou a fazer terapia, estou bem, e, sou mulher, sou mãe, estou bem!”.

Há mais mulheres a informarem aos seus parceiros do seu estado de seropositividade do que homens. Uma situação que muitas vezes leva à rejeição imediata e total da mulher, quer pelo próprio parceiro quer pelo resto da família. “Tristeza” é um exemplo deste fenómeno e adverte que com estas práticas dificilmente se pode vencer o desafio de prevenção e combate ao HIV/SIDA”.

“Fiquei doente e tinha de conversar com o meu marido. Ele nessa altura não estava (?) doente. O destino trouxe outra história. Eu quando já estava bem em tratamento, ele ficou doente, já não estávamos juntos, ele estava com uma outra mulher, estava num outro casamento. Tomei conhecimento de que ele não estava bem, aproximei-me dele, pedi para lhe ajudar, porque presumi que não fosse outra coisa diferente de sida. Infelizmente não aceitou até ao seu último dia de vida. Para o azar dele acabou perdendo a vida sem fazer nenhum tratamento. Passei por aquela história que toda a mulher passa, eu já estava separada dele há oito anos. Quando ele adoeceu e morreu fui acusada de feiticeira. Mesmo sem estar com ele, eu fui a feiticeira, eu é que tirei a vida a ele. Foi tão difícil, foi muito triste, porque eu sabia o que estava a acontecer com ele, o que lhe tirou a vida, mas também não porque eu não quis ajudá-lo. Apesar de já não estar com ele eu fiz tudo para levantar o meu marido, posso dizer assim. Eu não queria fazer por ele, mas pelos meus filhos, porque apesar de ele já não estar comigo eu queria que ele estivesse bem para os meus filhos olharem para ele e saberem

chamar pai, sempre que precisassem dele irem conversar. Mas não tive a sorte de conseguir isso. Ele acabou perdendo a vida, deixou-me com os três filhos. Até proibiram o meu filho (mais velho) de lhe ir visitar no hospital. Quando o miúdo soube, com a enteada dele, que o pai estava internado, veio e disse: mãe, dizem que o pai está internado, eu tenho que procurar o meu pai. Eu disse: vai ter com a tua madrasta. Foi falar com a madrasta e a madrasta disse não, o teu pai não está de baixa, o teu pai viajou em missão de serviço. Só que no dia que ele perdeu a vida os meus cunhados conseguiram ligar para mim para me informarem de que o pai dos meus filhos faleceu. Chegados encontraram a minha sogra e aquela minha rival. A avó quando viu o miúdo perguntou: quem te chamou aqui. Saia daqui, vá te embora, nós não precisamos de vocês aqui!

“Tristeza” apela a sociedade a unir-se sem discriminação de espécie alguma, e saber que a mulher tem uma responsabilidade determinante para o sucesso da prevenção e combate ao HIV/SIDA. “Mulher, como mulher, é um pilar duma família. Um homem sem mulher nunca vai ser homem. Os filhos, nem que estejam dentro duma família onde só está o pai, sem a mãe, não se sentem filhos realizados como deviam ser. É verdade que uma mãe, sozinha, pode cuidar dos seus filhos. Eu acredito que uma mulher para se sentir bem, primeiro tem que se aceitar a si mesma. Independentemente de tudo ela tem que dizer eu sou uma mulher, eu me aceito, seja o que for. Acredito que isso é que pode dar força a uma mulher. Aliás, pela minha experiência, eu me aceitei primeiro, olhei para os obstáculos que existiam, na família não fui discriminada, houve pessoas que me apoiaram, mas fora, na sociedade, na minha rua, aquelas pessoas que eram amigas foram as pessoas que me discriminaram, mas eu ganhei uma força, a pensar que eu sou mulher, sou mãe de três filhos e esses filhos precisam de mim. Se eu não faço algo para estar bem, quem vai fazer por mim, quem vai fazer pelos meus filhos? Essa foi a força que eu tive, olhar para os meus filhos como espelho e olhar para mim e eu me aceitar. Esta tinha que ser a experiência de toda a mulher. Mulher para a sua casa, a sua família e ela se aceitar, porque o homem pode mandar embora, casar outra mulher, discriminar, falar tanta coisa que não presta, mas pior para uma mulher que é mãe, ela tem que aceitar. Uma mulher que luta pelos seus filhos está a lutar pela sociedade toda. Eu consigo gerir a vida e tomar conta dos meus filhos”.

Uma outra entrevistada vivendo com o HIV/SIDA diz que a força das mulheres é tal que quando capitalizada pode ajudar a dar outro rumo às estratégias de prevenção, combate e mitigação da doença. “Posso dizer que cada dia é uma luta, é uma vitória na questão da feminização do HIV, porque é uma experiência própria, não é algo contado. É algo que vivi e

vivo a cada dia. Eu comunicava-me com Deus! Comecei por ler livros sobre sida e inspirei-me num sul-africano, não me lembro se é David, e dizia: pelo menos me dá mais cinco anos de vida! Só que os cinco anos se passaram rapidamente! Vi que cinco anos não são nada, Deus pode-me dar muito mais daquilo que eu peço. Eu era desprezada pelos vizinhos, porque eu estava muito magra, até alguns tiveram coragem de me dizer você voava, você era papel e seguia o sentido do vento, mas hoje estás forte! Eles hoje não conseguem acreditar que eu realmente estava doente de HIV/SIDA, hoje nem sabem dizer se estou infectada ou não! Sempre fui feliz no namoro porque tive coragem de revelar a minha situação, porque o meu parceiro sempre me vai ver a fazer medicação. Até porque o primeiro descobriu quando eu ainda não havia falado nada. Quando me viu disse: “Marta”, tu não me tinhas dito! Conversei directamente com ele, quis abandonar-me alegando que não iria suportar essa vida comigo. Quando tive o segundo namorado abri logo o segredo com ele e ele aceitou a situação. Já faz cinco anos. Eu como mulher tenho um espírito muito forte. Eu penso que a mulher devia ser a primeira a colaborar com o homem. Os homens não querem saber, mesmo dizendo que estou doente, não usam preservativo nem aceitam fazer teste, gostam de olhar para a beleza em primeiro lugar, ou querem esperar até ao último momento da doença, é quando aceitam fazer o teste. A mulher nesse momento incentiva o homem, dá força e coragem. Aqui promovemos palestras e muitas outras iniciativas, e posso dizer que realmente os homens são fracos. Há entretanto, também mulheres que não conseguem fazer teste com receio de perder lar. Mas é muito bom fazer o teste, a mulher sendo a primeira, depois o marido e viverem positivamente juntos ”, disse “Marta”.

Por sua vez, “Milagrosa” queixa-se de ser vítima de discriminação por parte do seu próprio irmão. Conta que a discriminação é agravada pela sua condição de mulher. “Foi difícil, porque eu ainda estava a estudar, tive que interromper a escola e muitas outras coisas por causa desta doença. Fui discriminada na zona, no meu bairro, até hoje digo que não me olham bem, não tenho amizades com ninguém, apenas tenho amizades com a minha mãe e com as minhas irmãs. Quando o meu irmão descobriu que tenho esta doença começou a propalar a informação em toda a vizinhança, mas a minha mãe nunca revelou, soube guardar segredo, sempre dizia que ela apanhou uma tosse, apanhou uma pequena alergia. Quando tive a doença tive alergia, passava mal de tosse, não era tuberculose. Dou graças a Deus, porque nunca tive tuberculose. Mas passei mal, fui discriminada na escola, no bairro, vizinhança, amigas, enfim, fiquei sozinha. Digo que fui crescendo com essa minha doença. Não tive aquele amor, aquela vida que outras pessoas levam quando estão em bom estado de saúde.

Isso tudo foi por causa da minha doença, mas consegui vencer até hoje, porque fui crescendo, a minha mãe me dando força. Dizia que a tua vida não acabou, tens que estar mais à vontade para encarar as pessoas, porque eu às vezes só saia para ir ao Posto de Saúde e voltar. A minha vida foi sempre assim, cresci, comecei a namorar. Tive um namorado, também seropositivo sem saber que também era seropositivo, quando descobriram que estava a namorar com ele foram informar à tia dele com quem vivia. Ele era estrangeiro. Engravidei e resultou uma filha. As minhas vizinhas tentaram meter-se com a tia e estragaram tudo, separei-me do pai da minha filha, que acabou indo embora (regressou ao país de origem). Mas digo graças a Deus as minhas duas filhas estão bem, não foram infectadas, estão bem grandinhas, estão a crescer bem e a conseguir superar as minhas dificuldades. Eu digo, no meu estado não posso discriminar a outra irmã por ter a mesma doença (sida) que a minha, por mais que eu saiba que não estou infectada, tenho que encontrar uma maneira de dar força e acolher aquela irmã para poder estar bem, sendo a mesma que eu sou. Mas é uma coisa que me acontecia e digo que as pessoas estão agora a ficarem cada vez mais alertadas, porque sabem que essa doença veio para ficar. Nós que já estamos dentro consideramos a doença como uma malária, não podemos promover estigma, não dá! O papel da mulher é porque ela é forte e tem um segredo: ela consegue encarar uma situação difícil, seja como for e como uma mãe, uma mãe nunca pode deitar a sua filha, mesmo que esteja doente, ou porque é mal-educada de que jeito, ou porque tem isto e aquilo. Mãe é mãe! Para um pai às vezes é difícil encarar essas situações, porque os homens são fracos”, defende “Milagrosa”.

Exemplos há de mulheres que vivendo com o HIV/SIDA, muito cedo são rejeitadas pelos maridos. Ficam sem para onde ir, porque nem os pais as aceitam de volta para casa. “Regina”, também seropositiva, conta que teve amparo apenas do irmão, que havia sido rejeitado, porque igualmente é seropositivo.

“Eu quando descobri que era seropositiva passei um pouco mal com a família. Rejeitaram-me e eu estava grávida do meu marido. Fiquei três anos sem dizer ao meu marido, não tinha como lhe dizer. Mas no fim fui ver que estaria a fazer tratamento em vão. Acabei-me abrindo com ele, ficamos juntos, cinco anos, a minha filha fez seis anos, mas acabamos divorciando. Ele disse que não podia viver comigo, por ser seropositiva. Chegou a violentar-me fisicamente. Levei o caso para os meus pais, que também me rejeitaram. Eu continuo a fazer tratamento com o meu irmão. Os meus pais não sabem da história dele, porque fui ver que passaria a mesma discriminação e estigma. Proibiram-me de usar a mesma loiça como panelas para cozinhar. Quando brigava com o meu marido chamava-me nomes como puta e

muito mais. Eu disse a ele que só pelo nome que me trata, para mim já não há vantagem, sou seropositiva, fica sabendo a partir de hoje, arranja a tua vida para frente, eu sou a tal pessoa, já sou uma pessoa cocha. Já que não dá para continuares a viver comigo, talvez vais apanhar uma pessoa que não é seropositiva, eu também vou arranjar um seropositivo, vamos viver à nossa maneira, não adianta eu estar aqui a enganar-te. Estou a fazer tratamento e sinto-me como qualquer outra pessoa. Ele dizia que iria fazer teste quando já não falasse e não conseguir andar, porque não acredita nessa doença. Para ele essa doença não existe”, conta “Regina”. (x)

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