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Investir na mulher para derrotar Sida (3)

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Dissemos e argumentos com base em relatos de mulheres vivendo com o HIV/SIDA, em ocasião anterior, que investir na mulher pode ser uma etapa importante para o sucesso da luta contra esta pandemia.

Nessa ocasião, proporcionamos ao leitor, um quadro pintado por mulheres vivendo com o HIV/SIDA em Moçambique, que converge com as preocupações das Nações Unidas, nomeadamente a questão da feminização da doença e a violência a ela relacionada. Um quadro que embora espelhe a nossa realidade, não interessa à sociedade moçambicana no seu todo.

Defendemos que a mudança do panorama deve contemplar políticas mais abrangentes, e que o homem, suposto mentor de modelos e comportamentos que a ele dão o poder de controlar a vida e a sexualidade das suas parceiras, seja envolvido, para se sentir parte activa nesse desafio.

O envolvimento do homem nesse processo deve contemplar, entre outras etapas, acções em que o próprio homem toma a dianteira na denúncia de males que afectam a mulher, tal como faz Salvador Chivite, da Sociedade Civil, no Distrito de Massingir, Gaza, ao denunciar casamentos prematuros/forçados/preces, uma das potenciais vias de contaminação de adolescentes pelo vírus do HIV causador da sida, a partir de pessoas idosas.

“Aqui há muitos casamentos prematuros em que as raparigas são forçadas a casarem-se com 12-13-14-15 anos”. Salvador Chivite entende que a mudança de hábitos e costumes que penalizam a mulher no meio rural, a exemplo de casamento prematuros/forçados/precoces, passa por políticas que motivem o pai a sentir-se sujeito activo no processo, o que implica muito diálogo na comunidade.

“Só assim os pais podem abandonar a prática de forçarem as suas filhas a casarem-se prematuramente com pessoas idosas, porque estão a limitar as raparigas de irem à escola. “É só ver uma rapariga de 14-15 anos, já tem bebé, não pode ir à escola, porque casou, porque o pai tem interesse no gado (bovino) e interrompe o sonho da filha. Às vezes esse moço que casa, se for um moço, abandona a rapariga, vai à África do Sul e não volta mais, porque apanhou uma outra vida lá diferente da de Massingir. Ou porque essa menina não é a dona de casa, é uma terceira ou a quarta, então quando está nesse lar está a ser tratada como empregada”, lamenta Salvador Chivite.

No meio rural é onde se notabilizam os hábitos e costumes que afectam a mulher desde muito cedo. Os casamentos prematuros/forçados/precoces, com uma grande carga de força de progenitores, com pai à cabeça, é uma das vias de propagação do hiv/sida, numa situação em que a mãe, muito menos a rapariga, vítima directa, tem algum direito à palavra.

Os casamentos prematuros/forçados/precoces têm como motivo principal, bens materiais para a família da rapariga a exemplo de gado bovino. “Aqui em Massingir o pai que não tem gado enquanto tem filhas, está a ver o gado no seu curral. Então a menina basta começar a sair maminhas o pai já está à procura de um genro e negoceia para poder ter gado. A menina facilmente interrompe os seus estudos, principalmente lá nas aldeias”.

Uma rapariga forçada a casar-se nestas condições fica transformada em refém/escrava, em troca de gado que o pai recebeu. “Aqui em Massingir um adulto pode oferecer até 16 bovinos em troca de uma rapariga. “Deste efectivo, uma ou duas cabeças é para o homem ir declarar à família da rapariga que olha, eu já fui amado, sou genro desta casa. Outras destinam-se ao anelamento e outras tantas para o lobolo. Por isso que uma menina daqui basta ser casada deve deixar todas as brincadeiras porque ela sabe que já está comprometida com o gado.

As acções de integração do género nas políticas e programas para promover a equidade do género no acesso à informação e aos serviços pode ser uma janela importante para a eficácia das políticas de prevenção e combate ao HIV/SIDA.

Natividade Bule, do Fórum da Mulher Empresária, diz haver aspectos concretos que podem tornar o investimento na mulher, uma etapa determinante nas acções de prevenção e combate ao HIV/SIDA.

“A questão da prevenção da transmissão do HIV de mãe para filho, redução da incidência da violência baseada no género, que aumenta a vulnerabilidade da mulher ao HIV/SIDA, promoção dos direitos das mulheres em geral e em particular das que estão a viver com o HIV/SIDA ou as afectadas, nomeadamente na assistência necessária, no caso de ser vítima do abuso sexual, a questão de prioridade no acesso ao aconselhamento e testagem. Eu acho que neste ponto de aconselhamento devíamos massificar mais, porque o país tem que saber efectivamente em quanto nós estamos. Nem todas as pessoas fazem teste, os índices com os quais estamos a trabalhar não são reais, porque nem todas as pessoas estão testadas. Se nós fizéssemos campanhas de testagem com o acompanhamento dos líderes, dos responsáveis, do Sector Privado, dos responsáveis das empresas, dos governadores provinciais, quem sabe até

ao mais alto nível do país, isso faria com que soubéssemos qual é o nível de seropositividade no país. A questão da manutenção da casa do casal, salvo se a decisão judicial for atribuída ao cônjuge do marido. As mulheres grávidas devem ter acesso ao serviço de aconselhamento e testagem de rotina, como parte de cuidados pré-natais. Ao nível dos locais de trabalho as mulheres vivendo com o HIV/SIDA têm direito a serem-lhes assegurado o princípio da igualdade de direito e de oportunidades, em função do seu mérito e da capacidade de desempenhar a sua função laboral. Ser dispensada do local de trabalho para receber assistência médica e medicamentosa de acordo com a recomendação médica, nos termos da legislação laboral” aponta Natividade Bule.

A maioria das pessoas vivendo com o HIV/SIDA, sobretudo mulheres, diz que encontra amparo na mãe, o que confere legitimidade ao novo paradigma, segundo o qual investir na mulher pode ser uma importante etapa na prevenção e combate ao hiv/sida.

“Todas as pessoas dizem, ou porque foi a minha mãe… tu encontras pessoas em grandes posições, elas dizem eu inspiro-me na minha mãe. Qualquer coisa é a mãe, porque ela é a primeira pessoa que tem o contacto. É a mãe que transmite a educação em casa, por isso a mim não admira nada que seja ela primeira a dizer: minha filha tenha coragem. Para além dela, outras tias, à semelhança daquele fórum que juntava os mais velhos, por exemplo até quando a criança atinge aquela fase, a mãe manda a tia. Então fica um certo segredo entre as mães que têm essa capacidade de educação”.

O novo paradigma, indicando que investir na mulher pode ser uma etapa importante na prevenção e combate ao HIV/SIDA é tão profundo que nos leva a uma profunda reflexão sobre o papel da mulher e a forma de estar dessa mesma mulher na sociedade moçambicana.

É uma triste realidade do nosso quotidiano, em que em volta da mulher se geram vários problemas de diversas razões. E esta constatação leva muitas forças da sociedade moçambicana, de boa vontade, a conferirem importância especial e crucial de investimento na mulher em todos os aspectos, a começar pela educação da rapariga, condição primordial para adquirir conhecimento da situação em sua volta, os seus direitos.

Em segundo plano o conhecimento académico para um futuro de alguma estabilidade socioeconómica, que passa por adquirir emprego, capacidade de criar a família e apoiar o seu companheiro na gestão familiar.

Na sociedade africana e moçambicana, em particular, a mulher sempre foi e continuará pilar ou base de equilíbrio de toda a família. Investindo nessa mesma mulher a sociedade estaria por conseguinte a investir na família inteira, assegurando inclusivamente a educação para os filhos por via da mãe, quando capacitada a orientar, com alguma facilidade, a enfrentar eventuais problemas que surjam na família, neste caso a problemática do HIV/SIDA.

Qualquer acção de mudança de padrões de discriminação da mulher só poderá vencer envolvendo todas as comunidades, sobretudo o homem.

A mudança de padrões de uma sociedade é um processo não impossível, mas requer muito diálogo, muita paciência, muita persistência e o envolvimento de todos membros. Trata-se de um processo que leva o seu tempo, não pouco. Não é de um dia para outro que se muda mentalidades, hábitos, de maneira de estar, até das práticas socioculturais dum homem. É um feito que igualmente não se consegue facilmente. Aliás, a ciência ensina-nos que não se muda a mente de um homem depois dos 18 anos.

Essa mudança envolve vários factores, o que no caso da problemática do hiv/sida impõe diálogo permanente com as comunidades. As pessoas mais influentes nas comunidades podem jogar um papel de relevo na operação de mudanças, com forte possibilidade de produzirem um impacto positivo na abordagem da problemática no seio das comunidades, principalmente nas zonas rurais.

Rafa Valente Machava, Directora Executiva da organização Mulher e Desenvolvimento, MULEID (2011), sugere que se a sociedade moçambicana pudesse habilitar a mulher, estaria a abrir caminho para uma mudança radical na face do HIV/SIDA. Justifica o seu ponto de vista lembrando que a mulher é a base de educação da família.

“A mulher é quem fica mais tempo com as crianças e ela tem mais tempo de passar esta mensagem logo a prior para as crianças à nascença, de que olha, há este perigo da doença que se chama HIV/SIDA e como é que vocês, como meus filhos, quando crescerem se devem precaver. Por ai eu penso que seria realmente uma boa partilha em termos de reduzirmos os índices senão mesmo eliminarmos o HIV/SIDA”.

Rafa Machava sublinha que é igualmente a mulher que toma conta de todos os membros de família em caso de doença de qualquer um deles. “O marido pode estar infectado, ela também infectada, mas ela ainda tem que se levantar, tem que ir procurar água, tem que ir cozinhar e tem que ir procurar alimentos na horta. Em todo lado quem exerce mais esforço é a mulher.

Hoje em dia, quando a mulher fica grávida, sabemos que em todos os postos de saúde a mulher tem que fazer consultas pré-natais e logo a prior é aconselhada para ela saber o seu estado serológico, porque sabendo o seu estado, ela tem duas opções: se de facto estiver num estado muito avançado do CD4, ela pode fazer a interrupção da gravidez, ou então pode fazer aquilo que é a prevenção de transmissão da mãe para o filho. No caso de fazer o teste e detectar-se que ela (mulher) é seropositiva é aconselhada a levar o seu marido”.

E esta é muitas vezes a porta de entrada para a violência que se assiste em muitas famílias, onde a mulher é responsabilizada por todos os males. “O marido diz: não, eu não estou doente. Se o posto de saúde te disse que estás doente, tu é que estás doente e deves explicar-me onde é que apanhaste a doença. A mulher vai dizendo: tudo bem, não estou a negar que o senhor não esteja doente, o que eu estou a dizer é que a médica pediu-me para que o senhor fosse comigo para lá, para ambos sermos aconselhados. Nem isso o marido aceita. Muitas das vezes a violência começa assim. Digo isso pelo índice ou pelo número de mulheres que nos procuram, sobretudo mulheres na fase de fertilidade, e é assim que elas descobrem o seu estado serológico. Também quando o marido morre, a mulher e o filho estão doentes, a família acusa esta mulher de que ela é que matou o marido. E muitas vezes, mesmo antes do funeral, há mulheres que correm para aqui, para a MULEID, porque estão a ser agredidas, estão a ser tiradas de casa, com a alegação de que ela é quem matou o marido. Nem que diga que olham como eu estou, eu também estou doente, tenho um bebé que também está doente, não sei de onde é que vem esta doença, mas na família do meu marido dizem que eu é que matei, nem posso assistir ao funeral”, frisa.

Rafa Machava revela que é elevado o número de mulheres que buscam amparo na MULEID, depois de molestadas nos próprios lares pelos próprios maridos ou familiares destes. “Os números são muito assustadores, porque se olharmos para as estatísticas do HIV/SIDA hoje, e olharmos para aquilo que são as entradas dos nossos constituintes, a maior parte são mulheres jovens. Às vezes elas chegam aqui nem sequer dizem que estão infectadas, mas mesmo a olho nu e ouvindo o relato que nos trazem. Mandamos a elas fazerem teste, porque temos parceria de trabalho com a Médicos Sem Fronteiras. As mulheres alegavam que não acabam os medicamentos aviados, ou porque o marido deitou fora, ou porque hoje não tomei comprimidos porque estou com fome porque o meu marido não aparece em casa há uma semana. Então estes problemas todos, a Médicos Sem Fronteiras procurou-nos nos anos 2005/2006 para ver que parcerias podiam fazer no sentido de mandarem alguns pacientes para cá, aquelas que apresentassem problemas relacionados com a violência. Esta parceira

permite-nos referir a eles (Médicos Sem Fronteiras) para as pessoas fizessem o teste sem passar por filas, muitos questionamentos. Por ai podemos dizer que realmente o número é grande”.

Responsabilizar a mulher por todos os males que afectam a família faz parte de usos e costumes de muitas comunidades, a tal ponto que a prática ganhou uma dimensão cultural que faz parte do nosso dia-a-dia. E mudar hábitos e costumes, é um processo complexo.

“É verdade que mudar hábitos culturais é um processo, mas isso tem a ver com a desculpa que nós temos, porque cultura é uma coisa dinâmica. A sociedade não é estática e a cultura também não é estática. Os guardiões dessa cultura, porque interessa a eles não falar das coisas pelos próprios nomes costumam repetir que é tabu, é tabu, e isso é que faz com que não haja evolução. É tabu para aquilo que lhes interessa. Por exemplo, a questão das cerimónias tradicionais, que é “kutchinga (no sul) e patakufa no norte” (purificação da viúva), eles dizem sempre que é nossa tradição. Mas devemos morrer porque é nossa tradição, não há outras formas que podemos encontrar para fazer esta mesma tradição? Se nós formos a aprofundar mais esta conversa veremos que há relatos de pessoas mais idosas ainda, que dizem que estes rituais sempre existiram, mas eram feitos doutra maneira, com base em chás, raízes. Essa questão do sexo partiu de uma determinada altura e eu penso que já é momento de uma profunda reflexão. Nós temos que nos colocar no lugar dos outos, se fosse eu que estivesse infectada com o HIV/SIDA? E se fosse meu filho? Eu havia de aceitar que a outra minha filha fosse infectada porque tem que se fazer a cerimónia? Como é que nós podemos inverter este cenário? Portanto a questão da cultura penso que é uma desculpa, nós temos que preservar aquilo que é bom na cultura e eliminar aquilo que nos destrói, que nos mata. Temos que encontrar mecanismos de como é que podemos continuar com os nossos valores, mas não continuarmos a matar as nossas gerações, não continuarmos a matar-nos a nós mesmos, porque temos que dizer que é cultura”, recomenda Rafa Machava. (x)

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