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Reflexão de paradigmas

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As crenças e a sua realidade mutável. Mudanças de paradigmas 

 PorButsu Makanda 

Há uma história que se conta sobre uma investigação realizada com macacos. Cientistas colocaram cinco macacos numa gaiola, e no centro da gaiola uma escada que tinha bananas no topo. A primeira coisa que os macacos fizeram ao ver as bananas, foi subir a escada. Mas havia  uma armadilha.

Cada vez que um macaco subia a escada, um balde de água fria era accionado para molhar os outros macacos que não estavam na escada. Depois de algum tempo e algumas repetições, cada vez que um macaco tentava subir a escada, os outros batiam no atrevido para evitar o banho frio. A moda pegou e todos os cinco macacos deixaram de tentar subir a escada. Então os cientistas substituíram um dos macacos por um outro que não conhecia a história da água. Este novato, mal entrou na gaiola, mesmo antes de cumprimentar os hóspedes antigos, trepou a escada. Todos os outros caíram lhe em cima à pancada. Sem perceber a atitude dos outros o novato esqueceu a aventura da escada para alcançar as bananas. Os macacos foram sendo substituídos um a um até que todos os cinco não sabiam do balde de água fria. Mas cada vez que um novato chegava a esta “casa” e tentava ir as bananas, era coberto de tareia. Os tareadores não sabiam porque batiam, e a vítima não sabia porque apanhava.  Afinal as bananas estavam ali à mão de semear. Se os macacos pudessem falar e o mais novo perguntasse aos mais velhos porque é que não lhe deixam chegar as bananas, com certeza que responderiam “é a nossa tradição”.  Esta experiência, que parece que não existiu como contada, pretende ilustrar a origem de um paradigma, conceito, ideia ou crença que se acredita ser verdade e a partir da qual se estruturam outras ideias que de certa maneira governam a vida individual e/ou colectiva.  Apesar de os humanos serem racionais e inteligentes, desde crianças que estão expostas a crenças e comportamentos que adoptam e assumem sem questionar ou analisar. A crença se torna tradição não mutável. No fundo, esta maneira de ver o mundo não passa de uma preguicite mental e intelectual que remete para a zona do conforto, ou de desejo de aceitação pelos outros, o que impede procurar o sentido das coisas, mesmo quando se sente que é necessário e imperioso. E isto remete os humanos a um comportamento e atitudes opostas à logica, transformando-os em simples pobres imitadores uns de outros. Isto acontece em quase todas as esferas da vida e podem ser nocivos ou irrelevantes. Estão na vida politica, na vida social, no amor, no ambiente, na saúde, na ciência, etc. Acreditar que toda a sexta feira que calha no dia 13 traz azar, é um paradigma que pode influenciar decisões que se tomam. Há indivíduos com muito potencial que não o aproveitam porque acreditam que são incapazes de realizar certas funções. Outros que poderiam ter o companheiro ou companheira da sua vida perdem a oportunidade porque ganharam a crença de que aquela pessoa que lhes atrai é “demasiada” para elas. Há paradigmas propositadamente construídos para manipular pessoas ou exercer influencia sobre elas. Quando se diz que os macuas são assim assado, ou os macondes são daquela maneira e os maxanganas daquela outra, se constrói ou se aceita um paradigma usado para manipulação do poder e outros interesses menos transparentes. E isto pode construir barreiras na agenda da unidade nacional, nas escolhas dos lideres, nas relações que se constroem e até no tipo de democracia que se estabelece. De igual modo pode ser manipulador o paradigma que diz que é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico ir para o Céu. Quando uma sociedade inteira baseia a sua conducta nos mesmo paradigmas a evolução é retardada porque morrem divergências de opiniões o que sufoca debates. As tecnologias de comunicação e informação modernas, os média, etc. por mais benéfica que sejam, propagam o pensamento igual abrindo espaço para manipulação dos humanos na esfera planetária. Com poucas diferenças o pensamento de conceitos como democracia, desenvolvimento, economia, saúde, etc. se baseiam nos mesmos paradigmas. Por isso a evolução social nestes aspectos é extremamente lenta. Como dizia o General George Patton “quando pensamos a mesma coisa, então alguém não esta a pensar”, ou ainda Walter Lippmann que diz que “onde todos pensam igual, ninguém esta a pensar a serio”.  Infelizmente, a própria ciência que é motor inovador de evolução se baseia em muitos paradigmas que não são revistos como deveria ser. O Doutor Canrobert Costa Neto da Universidade do Rio de Janeiro, citando outros cientistas (Kuhn, 1989; Capra, 1982) diz que “a noção de paradigma é normalmente utilizada para estabelecer uma diferenciação entre dois momentos ou dois níveis do processo de conhecimento científico. Para um entendimento mínimo do que significa essa noção, pode-se conceituar o paradigma enquanto um modelo de ciência que serve como referência para todo um fazer científico durante uma determinada época ou um período de tempo demarcado. A partir de um certo momento da história da ciência, o referido modelo predominante tende a se esgotar em função de uma crise de confiabilidade nas bases estruturantes de seu conhecimento”. A existência de paradigmas científicos levou o físico e filósofo Norte Americano Thomas Samuel Kuhn (1962), a convidar os seus colegas de ciência a reexaminarem esses paradigmas, criando assim o apelo a mudança de paradigma. Embora este convite não tenha sido o primeiro do género, tornou-se popular em meios científicos e académicos e se alastrou para outras esferas. É questionando paradigmas que se estabelecem ajustes que permitem dar outros saltos na qualidade de conhecimento e melhoramentos da vida. Hoje se deve questionar a neutralidade da ciência, pois ao basear-se nas observações e perceções se torna um acto subjectivo que pode levar a construção hipóteses baseadas em paradigma. De vez em quando somos surpreendidos com verdades “científicas” que chocam quando se diz que muitos dos resultados de investigação médica e clínica são financiados e influenciados pela indústria farmacêutica que tem como objectivo fazer lucros vendendo medicamentos. E aqui vemos a nudez da não neutralidade da ciência.  

Voltando a história dos macacos, aqueles pobres animais devem ter construído cada um o seu paradigma baseado na sua observação e experiencia. Uns devem ter construído a teoria de que subir escadas provoca chuva fria. Outros devem ter pensado que não se deve comer bananas que não estão nas arvores.  Outros ainda devem ter pensado que subir escadas provoca a ira dos outros que não sobem escadas. E qualquer dessas é uma mentira, talvez até inocente. Uma mentira só, mesmo que inocente pode estragar muitas verdades de hoje e de amanhã. Butsu Makanda, convida aos amigos e leitores da Primeira Mão a debater neste espaço alguns paradigmas que se acharem importantes, como forma de aguçar a mente, melhorar conhecimento, e quem sabe contribuir para melhorar a vida em geral. 

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