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Deixem-nos traçar o nosso destino

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Na sua mais recente publicação, os peritos da unidade de análise da revista britânica The Economist trouxeram dados interessentes sobre aquilo que tem sido a postura dos parceiros externos de Moçambique, sempre via Fundo Monetário Internacional.

O aspecto mais interessante dos peritos tem a ver com o facto de “denunciar” que os parceiros externos a reboque do FMI só voltarão a Moçambique depois das Eleições Gerais de 2019. Quer dizer, esperam para ver se finalmente há alternância no poder…

Isto só pode surpreender os menos atentos, pois é enorme o investimento externo que se aplica de eleição em eleição, para forçar a alternância de poder em Moçambique. A estratégia é a mesma, mudam apenas os argumentos.

O investimento pela alternância política forçada dura desde as Eleições Gerais de 1999, em que tudo se fez para claramente remover a Frelimo do Parlamento. E o exercício foi sendo continuado de eleição em eleição, sofisticando-se os métodos. Muitos estarão recordados do slogan “ Chissano, yes, Frelimo, not (Chissano sim, Frelimo não) ”, durante o sufrágio de 1999.

Não temos nada contra a alternância política, pelo contrário, porque aliás, a nosso ver, até pode ajudar na melhoria da qualidade de vida, conforme rezam as regras da concorrência. O que deploramos é que essa alternância política seja imposta do exterior, num claro desrespeito pela vontade dos moçambicanos, expressa nas urnas. Que seja os moçambicanos, no gozo dos seus legítimos direitos, de forma livre e transparente, a votar pela alternância, que todos desejamos. Mas não podemos força-los!

Se nos sufrágios anteriores se usaram outros argumentos, desta vez as chamadas “dívidas ocultas” – dívidas não contabilizadas – é o cavalo de batalhas, com o FMI a impor seus métodos de esclarecimento conveniente, sem o mínimo de respeito pela soberania de um Estado chamado Moçambique, que tem as suas instituições a funcionarem em pleno.

O FMI não quer saber nada das instituições que funcionam em Moçambique e usa de toda a pressão para se queimar etapas no esclarecimento de um processo tão sensível, em virtude de igualmente implicar também aspectos de segurança de um Estado que entretanto teima m não aceitar.

Aliás, seria estranho que neste seu exercício o FMI não desrespeitasse a soberania o Estado moçambicano, porque também foi e é assim em todos os Estados onde as instituições da Bretton Woods ditam e impõem as suas políticas.

Curiosamente não se encontra um único Estado próspero modelo no mundo, que tenha resultado das políticas do FMI!

A associação da retoma do programa do FMI às Eleições Presidenciais, Legislativas e das Assembleias Provinciais de 2019, é suficientemente esclarecedor da meta que o FMI persegue: forçar alternância política em Moçambique, independentemente da vontade dos moçambicanos expressa nas urnas.

O exercício em curso, a pretexto do endividamento de Moçambique visa asfixiar os moçambicanos, na esperança de que eles votem conforme a vontade dos que dão dinheiro, para ver se a vida vai melhorar, conforme canta o brasileiro Martinho da Vila.

Claramente se pretende que sejamos eleitores sem consciência própria nem sentido do significado do acto de votar. Pretende-se que nos dirijamos às urnas mecanicamente, ou seja, temos de ir votar porque o candidato é da mesma etnia ou por outros factores, como garantia de que vão acomodar interesses externos hostis, não interessa o que esse candidato vai fazer durante a governação, em prol dos moçambicanos.

Só que uma vez mais o tiro pode sair pela culatra, pois os moçambicanos não são um povo qualquer, já enfrentaram e venceram desafios sinuosos, ultrapassando a engenharia de instrumentalização mental.

Nem daqui a um Século podemos ter a vaidade de pensar que os interesses externos hostis estarão conformados com a independência dos moçambicanos. O saudosismo é tal que ainda estarão a lutar por todas as formas, para instauração de um regime fantoche, porta de entrada para a neocolonização dos moçambicanos.

Os peritos da The Economist citam o FMI a dizer “falta uma direcção política credível” em Moçambique, o que torna o apoio do FMI ainda distante. A questão que não quer calar é: com que autoridade o FMI faz este julgamento, num Estado que resulta da vontade dos moçambicanos expressa nas urnas?

Faz tempo que deixou de fazer qualquer sentido duvidar de que instituições internacionais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial são hoje as reguladoras da democracia. Por via disso, os países vivem e convivem com duas constituições, nomeadamente a nacional, do país, e a grande constituição das multinacionais e das instituições financeiras.

Com os seus posicionamentos mais recentes citados pelos peritos da The Economist, é este o destino que o FMI deseja para Moçambique, onde já não podem ser os moçambicanos a regular a sua democracia.

A democracia hoje é representativa, o que implica eleição como modo de constituição do vínculo de representação. Isto significa que este povo que se governa a si mesmo escolhe alguns dos seus membros, para em nome dele tomarem as decisões que este povo devia tomar. Esta é a democracia representativa.

Mas quando isso acontece não significa que o povo está a alienar o seu poder de governar. Os representantes têm de agir de acordo com os interesses do povo, a quem estão vinculados. Não interesses individuais de cada um, mas sim o interesse do conjunto, o chamado bem comum, o interesse geral.

Quando um cidadão exprime ou expressa a sua opinião, publicamente, sobre um assunto de governação, ele está a participar e a procurar influenciar as decisões tomadas pelos governantes.

É esta a conquista que os moçambicanos não podem deixar escapar, seja qual for o preço.

Deixem-nos traçar o nosso próprio destino! (x)

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