Do ponto de vista político, 2017 foi um ano que se destaca pela estabilidade, que essencialmente se traduz na ausência de uma confrontação militar, entre o Governo e a Renamo, diferentemente do que aconteceu nos anos anteriores.

Para além da ausência de confrontações militares, esta estabilidade política assenta sobretudo no facto de ter havido um sinal de negociação à moda da diplomacia silenciosa e secreta, que está a ser conduzida pelo Chefe do Estado, Filipe Nhusi, e pelo líder da Renamo, Afonso Dlhakama.

A confiança estabelecida no funcionamento normal das instituições políticas e judiciais, que permitiram alguma credibilidade em termos de esperança de uma estabilidade e harmonia que pode ser revitalizada, assume-se como um elemento fundamental do clima prevalecente.

Calton Cadeado, académico, considera normal que apesar dos progressos na diplomacia silenciosa e secreta o líder da Renamo tenha aparecido nos últimos dias a queixar-se de alguma lentidão no processo.

“Em processos negociais políticos, que envolvem a dimensão militar, não se pode esperar celeridade, por causa dos detalhesenvolvidos. Estou a ver o lado social, que está com pressa de ver as coisas resolvidas, mas também estou a entender o lado político de quem está preocupado em olhar para os detalhes e evitar determinado tipo de assuntos que podem ter conduzido à situação de instabilidade”, defende.

O processo negocial de Roma (durou dois anos) que culminou com a assinatura do Acordo Geral de Paz para Moçambique ajuda a entender a sensibilidade e delicadeza dos processos que envolvem questões políticas e militares associadas.

Se estivéssemos perante uma dimensão política apenas era até capaz de ser “fácil”, mas tudo fica complicado quando se aglutina as duas dimensões (político-militar).

Era desejável que o país transitasse para 2018 com uma paz efectiva e definitiva, todavia esta meta não se consegue alcançar de um momento para outro. É um projecto de longo prazo.

Frise-se, aliás, que apesar de todos os percalços (avanços e recuos no assunto da paz) que Moçambique tem experimentado, o país continua a ser um exemplo de estabilidade política e

de coesão sociopolítica. Mocímboa da Praia não tem que ser necessariamente chamado para a presente reflexão.

A história lembra-nos que experiências conhecidas como da Suécia, Suíça e todos os países nórdicos, tiveram uma longa caminhada em termos de tempo, para chegarem à estabilidade que hoje exibem.

Trata-se de países que hoje podem-se dar ao luxo de acordar e dizer que não sentem a ameaça de guerra, a despeito de que a guerra hoje é com o terrorismo.

Foram longos anos de luta até chegarem a um ponto de exaustão para consolidar as instituições e criar coesão sociopolítica.

Não pretendemos defender que Moçambique passe por décadas de guerra que aqueles países passaram para uma paz efectiva e definitiva, até porque os tempos hoje são outros.

Até porque Moçambique, de uma ou de outra forma, está firme no caminho da edificação da sua paz e chegará um dia em que a sociedade moçambicana em si vai encarregar-se de tornar obsoleto o instrumento de guerra como um elemento para resolver os problemas internos.

Não nos podemos assustar com o processo, embora se perceba que a ansiedade de todos os moçambicanos é ver edificada uma paz efectiva e definitiva.

São ainda muito poucos os países que estão consolidados do ponto de vista de estabilidade política, de paz, que não tenham passado por momentos de turbulência.

Que o digam as Maurícias e o Botswana, exemplos clássicos de uma estabilidade política, com ausência total de guerra e com uma probabilidade de ocorrência de guerra também extremamente baixa.

Estes são casos excepcionais. Os maiores casos do mundo sempre se seguiram a muitos, longos e penosos anos de destruição mútua.

Não esperamos que seja o caso em Moçambique, contudo é a realidade histórica que não pode ser branqueada.

Paz efectiva e definitiva é um projecto de longo termo, sendo que o diálogo e a reconciliação são um instrumento que se pretende presente, de forma permanente! (x)

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