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Governação de Nyusi

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Neste Janeiro de 2018 Filipe Nyusi completa três anos depois de investido como Presidente da República, no seguimento das Eleições Gerais de 2014.

Um breve olhar sobre os primeiros três anos de governação, remete-nos à conclusão de que Filipe Nyusi dedicou grande parte da sua agenda ao contacto com a realidade interna. Foram muito poucas as visitas que Nyusi efectuou ao exterior.

Esta opção terá sido ditada certamente pela conjuntura em que Filipe Nyusi herdou o país, marcada por enormes desafios, sendo de destacar a necessidade de resgate da paz, e de adopção de medidas de austeridade, face à crise económica interna e externa. É uma conjuntura distinta da do seu antecessor, Armando Guebuza. Em muitos eventos externos, Nyusi optou por se fazer representar, entre outras formas que teve de adoptar para não estar “ausente” da agenda externa.

Entretanto, Filipe Nyusi iniciou o ciclo de governação precisamente com visitas de Estado a alguns países como Portugal, França, Índia, Angola e África do Sul. A estes juntaram-se outros tantos nos quais o estadista moçambicano participou em diversos eventos, no contexto do concerto das nações, mas durante largo tempo que se seguiu notabilizaram-se contactos com o país real.

O início do ciclo de governação com primazia ao exterior justificou-se pela necessidade de sempre que entra um novo líder num país, todos os Estados gostarem de saber algo, com alguma profundidade, sobre um outro Estado que tem uma nova liderança. Os Estados amigos gostam de saber da nova liderança, o rumo das relações políticas, sobretudo na actualidade das relações comerciais, no que se chama diplomacia económica.

No campo da diplomacia económica, haverá que reconhecer que Moçambique está num panorama bastante favorável, com a descobertura de recursos naturais e energéticos. Não haverá algum Estado do mundo que não terá interesse em conseguir um espaço privilegiado em Moçambique.

No domínio político, as visitas de Estado do Presidente da República ao estrangeiro tiveram ainda uma relevância especial. Ao integrar representantes dos partidos políticos com assento no Parlamento, estes tiveram uma oportunidade nobre de fazer a sua própria diplomacia enquanto estiveram no exterior, à margem da agenda oficial do Chefe do Estado.

Os partidos políticos têm a oportunidade quase única de capitalizar, no âmbito das suas relações internacionais, o seu espaço informal ou até formal, para poderem colher experiências ou fazer parcerias com outros partidos congéneres ou com membros de governo dos países que o Presidente da República visita

Quanto à inclusão de missões empresariais, a importância da iniciativa nunca podia estar tão clara como se viu. Depois do final da guerra fria, em 1989, com a queda do muro de Berlim, para alguns, ou em 1991, para outros, com o desmoronamento do império soviético, a agenda das relações internacionais, ou seja, dos Estados, deixou de ser marcadamente político-militar e ganhou dimensão mais económica. Calton Cadeado, especialista em Relações Internacionais, certamente que concordará connosco.

Aliás, de lá a esta parte a diplomacia económica passou a dominar todos os debates e todas as agendas internacionais. “A diplomacia económica requer muita presença de um sector económico-empresarial que esteja em ascensão ou que esteja robusto, para criar o valor acrescentado para o desenvolvimento da economia. Seja o ramo comercial, da indústria extractiva, turismo, etc. etc. O nosso país não é o único que está nesta onda. É todo o mundo. Todos os dirigentes ao nível de Chefe de Estado fazem visitas políticas mas com uma agenda mais económica”.

Não estamos a inventar nada. Na Europa, por exemplo, vai um Presidente mais 2-3 ministros e dezenas ou centenas de empresários. Ocorrem sempre encontros com agenda económica bastante forte, que ajudam a fortificar os laços de interdependência que devemos procurar para robustecer a nossa economia.

Nesta diplomacia económica de Filipe Nyusi notou-se ainda algo mais interessante. Durante longo tempo Moçambique conduziu uma diplomacia económica para atrair investimento directo estrangeiro para o país, para abrir mercados para produtos moçambicanos. Agora a perspectiva é outra. Estamos numa perspectiva mais proactiva, de levar o empresário moçambicano a investir noutros países. Trata-se de uma diplomacia económica que deve ser planificada dentro do Estado, com uma grande presença de interesse do Estado.

Já não estamos na era de só receber investimento externo, como também de investir fora. Moçambique começa a capitalizar esta filosofia, pois não fomos nascidos para sermos apenas receptores do dinheiro dos outros, como também temos que colocar o nosso dinheiro nos

outros mercados e espaços, condição para vermos ampliada a nossa visibilidade, rentabilidade e crescimento das nossas empresas para o benefício da nossa própria economia.

Não se pode ignorar que há uma vasta equipa que trabalha com o Governo para preparar todo o ambiente, para o Chefe do Estado ir dar a cara, para mostrar o simbolismo político de peso para chancelar todo o trabalho feito previamente pela diplomacia moçambicana.

Será, por outro lado, esta equipa que mantem a visibilidade do país mesmo naquelas situações em que o Presidente não pode estar, por força da agenda interna.

E como serão os últimos dois anos de governação de Filipe Nyusi, neste seu primeiro mandato? Esperemos para ver, mas o que deve ficar claro é que a agenda será certamente ditada pela dinâmica da vida interna, se o liberta um pouco mais ou não, para compromisso com o exterior. Aqueles compromissos de carácter obrigatório e inadiável certamente que serão salvaguardados, com a presença do país ao mais alto nível. (x)

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