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Falta de quadros pretexto para empregar mão-de-obra estrangeira

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Por: Boaventura Mandlate

Inês Macamo Raimundo, docente universitária com décadas na carreira que jamais trocará, entende que a propalada falta de recursos humanos moçambicanos qualificados serve apenas para justificar a proliferação de mão-de-obra estrangeira num contexto de concorrência capitalista.

A nossa entrevista argumenta que o país nunca deixou de formar quadros para diversas áreas, incluindo para o que hoje está a dar, recursos naturais, sendo que o discurso de falta de quadros moçambicanos habilitados é um argumento sempre e universalmente as multinacionais usam para justificar dar emprego aos seus nacionais, nos países onde investem.

Inês Macamo Raimundo, quadro da Universidade Eduardo Mondlane e leccionando também em universidades estrangeiras, lembra que a mão-de-obra moçambicana é de um valor tal que sempre granjeou e granjeia muita simpatia e procura nos países vizinhos conforme testemunham, a título de exemplo, os acordos seculares com a vizinha África do Sul, e não seria incompetente no seu próprio país. A extinta República Democrática Alemã é um exemplo, entre muitos outros, a reter.

A força das multinacionais é tal que fazem de tudo até para subjugar os Estados receptores do grande capital estrangeiro, hipotecando, em termos práticos, a soberania, com o medo de ver o investimento a fugir, sob várias alegações. E quando os recursos se esgotam os países receptores do capital ficam ainda mais empobrecidos, sobrando nos seus territórios elefantes brancos.

Por outro lado, a Docente Inês Macamo Raimundo lamenta que a exploração dos recursos naturais, cuja descoberta data dos anos 1800, estejam a conduzir Moçambique para uma situação de eterno importador de comida, fundamentalmente por défice de visão, que leva à troca de agricultura pela mineração. A docente universitária detesta falar de descoberta de recursos, porque a descoberta já ocorria nos anos 1800. Hoje estamos perante a valorização dos recursos então descobertos.

“Eu sempre estive contra isso, inclusivamente já dei palestras sobre isso, um dos meus trabalhos que foi publicado este ano é exactamente sobre esta designação de descoberta.

Se pegarmos o mapa geológico de Moçambique tudo que estão a falar já estava lá catalogado. Então onde está a tal de descoberta? Este é que é o meu desafio, aceitar a descoberta. Eu prefiro usar o termo valorização dos recursos minerais. Assim faz mais sentido do que dizer descobertas. Um dos meus trabalhos tem como uma das referências um trabalho feito no ano 1800 sobre recursos minerais em Moçambique e Angola. Então onde está essa descoberta? Para mim a expressão mais correcta seria valorização dos recursos minerais. O perigo de usar descoberta para uma coisa que já existia é desvalorizar o trabalho que já foi feito por outros, e o segundo é que por causa disto vai ter impacto. Há pouco tempo fui a Cabo Delgado, as pessoas estão a deixar de fazer agricultura para produzir alimentos, porque sabem que vão extrair ouro, vendem e compram os seus produtos (alimentares). Estamos a dizer que estamos a influenciar para o desvio da mão-de-obra campesina para industrial, e quem vai fazer a produção de alimentos? Significa que Moçambique nos próximos tempos, ao em vez de ser auto-suficiente na produção alimentar vai à importação e as devidas consequências sobre isso”.

Sobre a questão específica de alegada falta de mão-de-obra especializada, a Professora Inês Macamo Raimundo diz ser difícil de aceitar e fundamenta: “Historicamente diz-se que o Vale do Zambeze foi o centro da penetração portuguesa através dos Prazos, etc. e que nessa altura fazia-se a extracção de ouro de aluvião. Onde está esse conhecimento natural que durante séculos as pessoas sempre usaram? Segundo ponto, vamos para o sul de Moçambique. Migração laboral para a África do Sul, para as minas de ouro, diamante e carvão. Onde é que está este conhecimento? Foi perdido? E não só isso, olhando para a minha universidade (UEM), o curso que nunca desapareceu é de Geologia, onde estão essas pessoas que foram formadas em Geologia? Dentro de Moçambique, na UEM e outras pessoas que foram estudar para a antiga República Democrática Alemã. Onde está esse pessoal? Para mim é mais um discurso e vão dizer que usam tecnologia moderna, mas isso só precisa de uma reciclagem. Para mim é sempre aquele problema de que tem que se usar o discurso de que não há força de trabalho qualificado para poderem trazer mão-de-obra estrangeira. Esse é o meu ponto de vista sobre isso. Não é que não haja força de trabalho nacional, existe”. (leia mais em Persistência arma de sucesso)

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