Início politica Se Moçambique violou sanções contra Coreia do Norte 

Se Moçambique violou sanções contra Coreia do Norte 

291
0
COMPARTILHE

Desde os primeiros dias da sua existência como país independente, Moçambique revelou-se cumpridor fiel dos compromissos assumidos no âmbito das Nações Unidas, ONU, para não citar outras entidades internacionais. 

Para não branquear a história, que para muitos e por uma questão de conveniência/sobrevivência não deve ser lembrada, sempre que beneficie o país, haverá que lembrar que em 1976, corria o primeiro ano de independência, Moçambique tomou uma decisão “suicida”, ao implementar integralmente as sanções contra a antiga Rodésia do Sul, decretadas pela ONU.

Ao tomar esta decisão, o país tinha a plena consciência das inevitáveis consequências económicas, políticas e sociais que ia sofrer, face ao posicionamento estratégica do país vizinho. Não foi por acaso que a comunidade internacional “passou um cheque em branco”, prometendo ressarcir Moçambique pelas inevitáveis consequências que se prenunciavam, com a tal nobre e generosa medida. Décadas depois, esse ressarcimento continua por se concretizar, e continuamos nós na nossa asfixia económica, sempre por iniciativa externa!

Menos de um ano após a independência, em total solidariedade com o povo do Zimbabwe, Moçambique aplicou integralmente as sanções decretadas pelas Nações Unidas contra a ex-colónia Britânica da Rodésia do Sul.

Estrategicamente foi um acto corajoso que custou ao país, em muito curto prazo, um impacto económico negativo, que se traduziu na drástica quebra das receitas ferro-portuárias no porto da Beira, com efeitos nefastos multiplicadores no centro de Moçambique.

Adicionalmente, o País sofreu com as mortes de civis, agressões directas dos regimes racistas da Rodésia de Ian Smith e do apartheid da África do Sul, ou através de seus grupos armados que, generalizando a política de “terra queimada” provocaram milhares de mortes indiscriminadas, a destruição de infra-estruturas e danos aos equipamentos e maquinarias.

A situação agravou-se com o declínio das receitas ferro-portuárias em Maputo e Beira e a eliminação dos benefícios cambiais resultantes do trabalho mineiro que, durante décadas, haviam beneficiado a economia colonial, gerando desemprego massivo e a desarticulação dos circuitos de produção e de circulação de mercadorias e pessoas.

Apesar de promessas prévias Moçambique não foi ressarcido dos efeitos danosos do encerramento das fronteiras com a Rodésia do Sul.

Esta foi uma das etapas que se seguiu à proclamação da independência de Moçambique, marcada fundamentalmente pelo bloqueio económico que o país sofreu, numa clara resistência à emergência da jovem nação.

Com o encerramento das fronteiras com a antiga Rodésia do Sul, Moçambique sofreu um prejuízo directo superior a USD 800 milhões, número que peca por defeito.

Socialmente os custos são ainda mais elevados, pois não há dinheiro que pague vidas humanas perdidas. Sabe-se que a adesão de Moçambique ao processo de sanções contra a Rodésia e o encerramento das fronteiras entre os dois países, abriu o caminho para uma história de hostilidades que havia de durar até 1992, com a Assinatura do Acordo Geral de Paz para Moçambique, a 4 de Outubro. E a máquina de desestabilização continua intacta, face à honestidade exacerbada do Governo, que “destruiu” completamente as Forças de Defesa e Segurança, confiando na boa-fé da outra parte. E hoje paga-se a factura!

O apoio dado pelo nosso país aos guerrilheiros e refugiados zimbabueanos agravou ainda mais as relações entre os dois países.

Décadas depois e até aos dias de hoje, ninguém se lembrou de ressarcir Moçambique pelos prejuízos consentidos, embora a comunidade internacional, sob umbrela das Nações Unidas, tivessem feito promessas nesse sentido.

Moçambique, jovem nação, fez aquilo que não se faz, aplicando sanções contra a Rodésia, por uma questão de nobreza. Muitos aplaudiram, mas não passou disso, simples aplausos.

A Austrália foi quase o único país a engajar-se, de forma efectiva e objectiva, no amparo a Moçambique, face à corajosa decisão que um país com menos de dois anos de independência tomava e implementava, mesmo saindo de uma luta armada de libertação de 10 anos.

Por uma questão d justiça devemos sublinhar que a cooperação bilateral entre Moçambique e a Comunidade da Austrália data desde a proclamação da independência de Moçambique, em 1975, tendo-se reforçado quando o nosso país aplicou as sanções à então colónia britânica da Rodésia do Sul, hoje Zimbabué, em 1976.

A partir de então, a Austrália tornou-se num dos maiores contribuintes do Special Commonwealth Fund for Mozambique, criado para financiar programas de apoio ao desenvolvimento do nosso país, durante a Luta de Libertação Nacional do Zimbabwe e, posteriormente, durante a guerra de desestabilização contra Moçambique. A Austrália (Austrália of Commonwealth) foi igualmente determinante para a admissão de Moçambique na Commonwealth, uma organização intergovernamental composta por 54 países membros.

Hoje vêm alguns círculos a acusar Moçambique de estar a cooperar militarmente com a Coreia do Norte, em violação das sanções da ONU. O rótulo da prova da alegada violação é a cadeia de televisão norte americana, CNN, em “reportagem” com direito a espaços nobres de alguma Comunicação Social nacional, a sempre chamada independente (?).

O sociólogo Elísio Macamo confessa ter ficado estarrecido, pelo facto de nessa chamada Comunicação Social independente (?) a “reportagem” da CNN ter sido tomada pura e simplesmente como revelação da verdade, sem recurso sequer a advérbios como supostamente, alegadamente aparentemente, etc. As acusações feitas na dita “reportagem” são apresentadas como verdade, sem lugar ao sagrado contraditório.

Ora, se a “reportagem” da CNN teve esse tratamento na nossa chamada Comunicação Social independente (?) não será por desconhecimento da ética, deontologia e outros valores nobres da classe. É mais por uma questão de conveniência e sobrevivência, pelas quais até se vende o país a preço de banana, sem o mínimo de auto-estima, sequer.

Não estamos contra denúncia de eventuais falcatruas, simplesmente defendemos um jornalismo em que o rigor, a objectividade, ética e deontologia sejam uma marca permanente.

A iniciativa do contraditório acabou sendo do Governo, pela voz da vice-Ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Maria Mauela Lucas, ao sublinhar que Moçambique e a Coreia do Norte mantêm apenas a cooperação política, excluindo a alegação de cooperação militar.

Da vice-Ministra ficamos a saber que afinal o Governo até convidou um painel verificar in loco, e que vai proximamente publicar um relatório sobre o que viu.

Porque saber esperar é uma virtude, esperemos por esse relatório, mas isso não impede o reconhecimento do que o país tem feito ao longo do seu percurso, no contexto das Nações Unidas, muito menos antecipar-se aos acontecimentos.

De resto, não há imprensa nenhuma independente, pois isso passaria por pressupostos que ninguém está em condições de preencher, a exemplo de independência económica. Mesmo as grandes cadeias internacionais estão sempre vinculadas a alguns interesses económicos a quem devem obediência total! (x)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here