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De telefonista a radiófilo

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Por: Boaventura Mandlate

Estamos a falar de Carlos Silva, o mais antigo profissional de rádio em Moçambique. Ingressou na antiga Rádio Clube de Moçambique em 1951 como telefonista, ainda sem idade legal para trabalhar – tinha apenas 15 anos – por força da condição de pobre, da família onde nasceu, entretanto trabalhadora.

Carlos Silva confessa que quando entra para a Rádio Clube de Moçambique nem sequer lhe passava pela cabeça fazer programas de rádio. O que buscava na altura era apenas emprego, para ajudar na sobrevivência da família.

Enquanto telefonista fazia curso comercial à noite, o que lhe valeria mais tarde mudança de carreira de telefonista para o ramo da contabilidade, que entretanto também não fazia parte do se talento, como mais tarde veio a provar-se. “Como tinha tirado curso comercial fui para contabilidade, mas na verdade nunca tive jeito para contas”, diz o professor Carlos Silva, como é carinhosamente tratado entre profissionais ais novos de rádio.

Carlos Silva nasceu, viveu e vive para fazer rádio. Teve uma breve paragem na área da técnica como operador. Três anos depois, a área da técnica serviria de porta de entrada para a radiodifusão.

O gosto pela música levou Isac Faria, antigo chefe da Técnica a aliciar Carlos Silva para o Sector, onde se foi juntar a António Alves da Fonseca, Benjamim Correia e muitos outros.

Como operador começa a lidar com máquinas, gravadores, microfones, captação acústica, música, numa autêntica polivalência, porque na época não havia sonorizadores. Os poucos locutores existentes escreviam os seus programas, escolhiam a música e marcavam com lápis amarelo sobre os discos 78 ou 33 rotações, os chamados LP, o começo e final da música que pretendiam. Os operadores/técnicos encarregavam-se de montar os programas.

A escolha de música acabou sendo confiada quase exclusivamente a Carlos Silva, pelo simples facto de ser “fanático” de música, até que por ai 1961 se decide criar, na Rádio Clube de Moçambique, a categoria de sonorizador, que até então só havia em Portugal.

Carlos Silva torna-se no primeiro sonorizador da Rádio Clube de Moçambique, e só em 1974 cria uma equipa de 15 sonorizadores, cada um com a sua especialidade e sua vocação.

“Mas a radiodifusão para mim começou a ser compreendida na verdade quando eu estive na Técnica, porque pela técnica passa tudo. Já como sonorizador fazia teatro e toda a espécie de programas que a radiodifusão tem eu fiz, ajudei a fazer e ensinei a fazer. Foi em função e através de bom gosto pela música, toda a música, mas principalmente a música clássica”, disse Carlos Silva.

Com a independência, em 1975, são operadas profundas mudanças na então Rádio Clube de Moçambique, com Rafael Maguni na liderança. Carlos Silva deixa de ser chefe da Sonorização.

Leite de Vasconcelos sucede a Rafael Mguni e Carlos Silva é obrigado a conciliar, sucessivamente, a sua profissão de sonorizador com a de Chefe do Departamento Central de Programas, Chefe da Antena Nacional e responsável pela Escola da Rádio, criada em 1981/1982.

“Mas nunca deixei a minha verdadeira carreira que era sonorizador, claro até chegar a produtor, mas isto é o progresso da carreira. Através da música, sempre através da música, é que consegui, modéstia à parte, ganhar o nome que ganhei na radiodifusão. Outros notabilizam-se como repórteres, outros como jornalistas e outros como locutores e eu foi sempre como sonorizador”.

Carlos Silva lembra que a seguir à independência, na era da Rádio Moçambique, foram produzidos muitos e excelentes programas abordando diferentes temáticas e exemplifica com Cena Aberta, Uma Data na História, O Sentido das Palavras. Destaca a Uma Data na História, um programa eminentemente educativo, teve uma utilidade extraordinária na educação dos moçambicanos, e por ai em diante. O trabalho nunca faltou.

“Logo a seguir à independência havia uma grande necessidade de passar mensagens educativas, não só sobre a nossa história, como também sobre a história do mundo, e a Data na História foi fundamental e talvez seja o programa mais ouvido na Rádio Moçambique. Hoje já está um bocado reduzido, devido à necessidade de racionalizar o tempo de rádio, mas a própria Cena Aberta também tinha carácter educativo e uma das pessoas que muito contribuiu para isso foi o falecido Santana Afonso. Escreveu peças maravilhosas. Mesmo os cubanos quando estiveram na Escola da Rádio levaram para Cuba uma peça intitulada “O Padre e o Professor” como caso de estudo. Eles gostaram tanto da peça que entenderam que devia entrar nos cursos deles em Cuba, para mostrar como é que se faz uma peça. Com os já falecidos Álvaro Belo Marques, Leite Vasconcelos e Gulamo Khan, fizemos também o

Sandokan. Nessa altura ainda não havia televisão e as pessoas não iam à matiné das 5 para ouvir “As aventuras de Sandokan” e realmente ainda temo ai guardado. São 20 episódios, que mesmo eu quando oiço hoje aquele trabalho feito no sistema análogo, fico admirado como é que nós conseguimos fazer com aquela qualidade. Mas muitos e muitos outros trabalhos como Cena Aberta fizemos. Tivemos programas de poesia e outro tipo de programas como desportivos, antes de existir o Canal Desportivo e havia também muitos programas de carácter político, logicamente, como A Voz da Frelimo, Moçambique e a sua História. Este depois teve uma sequência na televisão, a pedido do Ministro da Informação. Moçambique e a sua História é um programa que realizamos com Carlos Serra e tinha um carácter educativo muito grande sobre a história do mundo, sobre biologia, sobre evolução e ainda o temos guardado nos nossos arquivos, em número de 50 edições, julgo eu”.

O que é na verdade ser sonorizador?

“É uma pergunta muito interessante que me fazem muitas vezes e eu tenho dificuldades em dizer, porque repara uma coisa: o próprio Mandlate é sonorizador. Ao escrever um programa, e já escreveu muitos, pensa sempre que há uma certa música que pode entrar ali. O facto de delegar no profissional a escolha da música não quer dizer que não tenha gosto e não saiba que uma certa música está bem ou não está bem. Portanto, sonorizador é a capacidade que uma pessoa tem de seleccionar a música correcta para um determinado texto. Seja teatro, seja Uma Data na História, seja um Jornal da Manhã, seja aberturas, spots. Tem muito a ver com o gosto pessoal das pessoas, mas está fundamentado na capacidade que uma pessoa tem, de compreender que tipo de música é que serve para um certo tipo de programa. Como profissão é um operador de som, é aquele que na consolete escolhe a música, mistura com locução e outros ingredientes, hoje tudo feito no computador, instrumento que trouxe enormes vantagens na sonorização. É a utilização do bom gosto na radiodifusão”.

Mas o “professor” Carlos Silva também entende de texto jornalístico sobretudo para rádio, ajudou e continua a ajudar a muitos nesse sentido…

“Através dos ouvidos do sonorizador entraram milhares, milhares e milhares de palavras, de textos, de noticiários, de tudo e mais alguma coisa. Então, o sonorizador tem uma certa capacidade para poder avaliar se um determinado texto está correcto, além de saber português, evidentemente, mas temos uma certa consciência da linguagem radiofónica, que não é necessariamente uma linguagem literária, nem sequer é uma linguagem de jornal, é uma linguagem mais sucinta, mais directa, mais económica, digamos assim. Essa capacidade

nunca me faltou. E mesmo com alguns colegas, lembro-me de Edmundo Galiza Matos (pai), estava eu a gravar um programa dele sobre Samora Machel, e fiz algumas observações sobre o texto e ele insistiu que mas é assim que eu quero. Eu retorqui perguntando-lhe se não achava que de outra maneira era muito mais correcto. Ele acabou concordando, embora não fosse obrigado. É uma certa noção que nós temos, da linguagem radiofónica. Para conseguir isso não é preciso, não é necessário, não é fundamental que se trabalhe na rádio, é preciso que se oiça muito a rádio. Ouvindo rádio, seja que estação for, estrangeira ou não, nós ficamos com uma consciência da linguagem que directamente nos diz algo, porque através da rádio não podemos confundir as pessoas, temos que elucidar as pessoas, clarificar, temos que educar, e tudo isto de uma maneira muito directa, muito terra-terra. Não quero dizer que se utilize uma linguagem paternalista, nem pensar nisso, mas não é uma linguagem muito erudita, embora existam programas em que a erudição é fundamental, a exemplo de programas educativos”.

Carlos Silva revela que sempre gostou de ensinar, mas também tem uma fraqueza: “Eu nunca fui um bom chefe, nunca fui um bom chefe de Departamento, nem um bom Director de Escola (da Rádio Moçambique). Fazia andar a máquina, mas não era um bom chefe. Mas dentro de um estúdio, com dois ou três colegas, eu consigo ser um chefe. Tenho um objectivo, estou a fazer algo que gosto e conheço, e comecei a lidar com os colegas, os meus companheiros, sem transmitir esses conhecimentos. E não sou uma pessoa organizada, quem olhar para um estúdio onde estou a trabalhar, capas, discos, etc. é uma atrapalhada, mas o resultado agrada-me sempre. Agrada-me sempre depois de um grande esforço, porque eu ao gravar um programa oiço uma ou duas vezes, oiço em casa, quando está no ar. Isso é fundamental, ouvir o que fazemos na rádio, porque ficamos com a consciência de como é que o ouvinte ouve e ao termos essa consciência, ao fazer outro programa sabemos que aquela parte que fizemos daquela maneira não é a melhor para a compreensão da mensagem”.

Perdeu-se rigor

“Na verdade tenho tomado consciência com uma certeza tristeza de que muitos trabalhadores da Rádio (RM) vêm aqui fazer rádio e fazem-na bem, porque se não fosse eles não havia rádio, mas ao saírem da rádio (RM) não têm aquela de que ouvir rádio é fundamental como aprendizagem. E acho mesmo que o rigor que existe cá dentro da Rádio Moçambique, no Jornal da Manhã, nos jornais, nos programas, houve sempre rigor e esse rigor é fundamental, mas despareceu. Mas é também necessário que exista fed back da parte dos ouvintes, como é

que o ouvinte avalia os nossos programas. Primeiro somos nós que temos que avaliar os nossos programas. Fazemos, vai para o ar, ouvimos, fazemos a crítica, fazemos as correcções, os ensinamentos é preciso passar, mas também necessitamos do fed back da parte do ouvinte. Claro que o que o ouvinte gosta só ele é que pode explicar, porque é que gosta, mas há sempre uma necessidade que nós temos. Os locutores têm isso, porque na interligação que têm com o ouvinte recebem já um fed back de carinho, de amizade, da parte dos ouvintes, talvez os jornalistas também um pouco. Os sonorizadores estão mais no background, então necessitam também de saber como é que o trabalho deles está a ser avaliado pelos ouvintes. Deve existir essa passagem de mensagem para lá e avaliação para cá, para nós podermos saber como é que o nosso trabalho está a ser feito. É ouvindo diferentes tipos de rádios que fazemos comparações e fazendo comparações correctamente sabemos o que deve ser feito e o que não deve ser feito em determinadas circunstâncias naquilo que nós queremos que seja a nossa vida profissional numa eventual rádio. O jornalista deve saber um pouco do que se passa na sociedade para saber comunicar, deve ser um pouco sociólogo, não para profundar, quando ele quer aprofundar sobre sociologia, economista, etc. convida um especialista. Mas temos que saber um pouco de tudo que se passa no mundo, então o jornalista deve estar constantemente com os ouvidos bem abertos para o que se passa no mundo, não deve ser uma pessoa que ignora… se vai ler uma notícia ou passar os factos que estão expressos nessa notícia, ele também tem que ter consciência de que essa notícia é do seu conhecimento e o ouvinte nota logo se o jornalista está a ser papagaio, desculpa a expressão, ou se está a ler com convicção, se acredita naquilo que está a ler, e para isso é preciso conhecimento. Todas as rádios dão uma grande importância à informação e para trabalharmos na informação temos que ser jornalistas, mas eu não estou a ver nenhum locutor que lé noticiários, que está dentro de uma estação emissora, não ter formação de jornalismo, mesmo um sonorizador, mesmo um produtor. Eu comecei no Rádio Clube como telefonista, depois fui para Técnica, mas na radiodifusão comecei como sonorizador. Mas eu sempre me interessei por tudo. A maneira como se escreve as notícias, a maneira como se lé, a maneira como se faz captação, a maneira como se manipula a música, tudo, mas tudo, sempre e sempre me interessou e é esse interesse que faz de mim, segundo dizem, uma pessoa mais habilitada a falar da rádio, porque se eu estivesse a falar especificamente só da minha área, eu estava a falar só da sonorização, produção de programas, mas não é só isso que eu sei. O que eu sei foi tudo aquilo que eu aprendi durante uma vida inteira, sendo curioso, perguntando, isso é que faz o radialista completo. Há áreas específicas de maior profissionalismo, logicamente, mas isso não quer dizer que não se forme, não se cultive para ser um radialista completo. Um bom profissional

deve ter um trabalho pré-preparado. Eu quando tenho um programa para sonorizar, em casa, sozinho e calado, calado, calado e a minha mulher pergunta: o que é que tens? Estás triste? Eu respondo não, não, estou a sonorizar. Sonorizar? Sim, estou a pensar nos efeitos, que efeito é que há-de entrar ali, como é que hei-de cortar. Quando chego ao estúdio posso embelezar, posso cortar, posso melhorar, mas tenho já uma ideia daquilo que eu quero”.

Bom radialista

“Eu acho que deve ser aquela pessoa que gosta de fazer e ouvir rádio, gosta de entrar numa rádio e ver como é que ela trabalha, conhecer os mecanismos da rádio, conhecer o seu pessoal. Só gosta disso quem gosta de ouvir rádio e a rádio é um mistério, como não tem imagem, o ouvinte tem que visionar na sua mente as pessoas, os ambientes, e a rádio própria é feita para criar ambientes. Tem de ter curiosidade em conhecer tudo aquilo que envolve fazer rádio, técnica, sonorizadores, estúdios, como as nossas crianças têm essa curiosidade, ciaram o Programa da Criança, é assim que se começa a gostar de rádio. É ouvir e perguntar, como é que se faz isto, e depois faz-se a experiência e a experiência é com os profissionais que criam as condições. Ser um bom radialista é já com aqueles que com experiência de rádio transmitem a experiência, dão cursos correctos para que as pessoas possam desenvolver as suas habilidades, aquilo que mais gostam de fazer, seja escolher música, seja falar, seja fazer jornalismo, é tudo um bocado complexo, mas leva muitos anos. Mas também conheço muito bons radialistas que têm muito poucos anos de carreira, há pessoas excepcionais, há pessoas que levam muitos anos a afirmarem-se e há pessoas que muito rapidamente se afirmam como locutores, como sonorizadores, depende, mas a experiência, que é a palavra que nos faltava aqui, realmente consegue-se ao longo de muitos anos, porque trabalhar durante um dia inteiro, engajados por completo naquilo que gostamos de fazer, isso não tem horário. O tempo é que nos dá experiência, nos dá uma visão do que é realmente ser um radialista, porque ser radialista não é ser mecânico, não é ser alguém que maneja estúdios, que maneja entrevistas, que maneja noticiários, é aquele que consegue falar com o ouvinte, aos milhões”.

Vazio

“Nós precisamos de programas sobre literatura, sobre poesia, que sempre tivemos na Rádio Moçambique depois da independência, é fundamental, e programas sobre cultura geral, também precisamos, sobre Geografia, sobre História, porque o programa Uma Data na História menciona factos e acontecimentos do mundo, mas não é suficiente, realmente precisamos de programas de carácter educativo”, apela Carlos Silva.

Memórias

Pela positiva – “A começar por coisas boas, por exemplo, no tempo colonial, na era do Rádio Clube, marcou-me profundamente a inauguração do actual Estádio da Machava, antigo Estádio Salazar. Foi um espectáculo muito bem organizado por militares, foi um espectáculo muito bonito. Toda a acção de milhares de figurantes era determinada pela música. Durante meses trabalhamos na escolha da música que fazia movimentar todas aquelas figurantes. Foi muito bonito, gostei bastante e senti-me muito orgulhoso ter feito aquele trabalho. Boas memórias no tempo da independência é a própria independência que fiz o controlo do CM1 (estúdio de emissão). Foi realmente uma emissão muito especial, muito excitante”.

Pela negativa – “O pior momento da minha vida profissional foi quando morreu Samora Machel. Eu tive que fazer uma emissão de 10 dias. Praticamente tive que escolher a música, fazer o controlo, escolher as pessoas, conduzir a emissão desses 10 dias que tanto entristeceram aos moçambicanos. É tanta coisa, são tantos anos, tantos programas, que realmente houve partes boas e partes menos boas”.

Que conselho àqueles que querem seguir a sua carreira?

“Gostarem de falar com as pessoas. Quem gosta de falar com as pessoas, quem se interessa pelos problemas das pessoas, quem se interessa em comunicar, em passar mensagens que possam fazem bem à comunidade, que possam fazer bem às pessoas. Quem gosta de ter amigos venha para rádio, aprenda a fazer rádio que nunca deixará de ter amigos, nunca deixará de ser excelente comunicador. Mas é preciso gostar de resolver problemas também. Trabalhar para rádio é tomar conhecimento dos problemas, seja das comunidades, seja das pessoas, seja de quem for e saber passar mensagens que possam corrigir esses problemas. É interessar-se, quem tem interesse, quem se interessa pelas coisas deve ser um jornalista, neste caso da rádio”.

Carlos Silva entrou para rádio aos 15 anos de idade e hoje, com 81, nem a idade lhe pesa. Continua firme, embora na condição de aposentado, mau grado duas grandes limitações: visão e audição. Tem um programa de música clássica, a que mais gosta, que faz e oferece à Rádio Moçambique.

“Clássicos ao Domingo” é o título do programa, transmitido às 21.30 horas, já lá se vão 22 anos. Diz ser um programa necessário, porque a música clássica também é educação. Não concorda tanto com um seu colega que algum dia lhe disse que era outro patamar. Não é bem

outro patamar, é outro género de música, mas um género tão rico, tão cheio de variantes, que toda a gente gosta de música clássica. Carlos Silva exemplifica que a abertura do programa Uma Data na História é uma música clássica. Há música para todos os gostos.

Classifica a “revolução tecnológica”, nomeadamente a passagem do analógico para o digital, como uma das maravilhas da ciência.

“Quando trabalhamos com os LPs, com o analógico, nunca nos passou pela cabeça, que o digital ia aparecer. E os computadores apareceram, também apareceram os discos. O digital veio trazer não só a facilidade de trabalhar, mas a qualidade e essa qualidade técnica vai obrigar também o profissional a trazer para os programas qualidade de mensagem, porque ela vai chegar aos ouvintes de maneira muito mais transparente, muito mais certeira. E o digital é realmente uma coisa que não pára. Não sabemos nem calculamos o que vem ai à frente, mas é realmente uma das grandes invenções do Século passado”.

É esta a radiodifusão com que sonhou ou leva alguma frustração?

“Radiodifusão é um contacto directo, passam-se notícias e passa-se música. Dá a impressão de que é tudo muito simples. Claro que o conteúdo falado é extremamente importante. O que há de mais importante na radiodifusão é a palavra. É através da palavra, porque se por qualquer desastre natural desparecessem todos os discos da Rádio Moçambique não deixaria de haver radiodifusão, bastava a palava para fazer. A música é claro, vem embelezar, vem enquadrar, vem entreter, vem enriquecer, vem educar também, a música é fundamental. Mas a radiodifusão actual é nós tomáramos a consciência do mundo em que vivemos, não só Moçambique, Moçambique não é uma ilha, mas no mundo globalizado em que vivemos. Tomar a consciência dos desastres, das misérias criadas pelo próprio homem, da violação das mulheres, na morte das crianças, na fome que há por todo o mundo, sabermos e compreendemos tudo isso, sabermos passar essas mensagens todas para o público, o que está bem e o que é que não está, o que é que está mal no nosso país, os casamentos prematuros das nossas raparigas com 10-12 anos, isso tem que acabar. E como é que nós vamos passar essa mensagem a não ser através de informação? Seja jornal, seja televisão, seja a rádio, mas a rádio tem esta “qualidade” de chegar rapidamente, chegar a todo o lado. Onde a televisão tem mais dificuldades de chegar a rádio chega. Então a rádio é um instrumento de uma importância vital. A rádio nunca há-de acabar. E realmente fazer rádio é nós termos a consciência de onde vivemos, o que é fundamental, o que é que está mal, o que é que está bem, como passar a mensagem correcta. Isso que é fazer rádio”.

Tempos livres e prato predilecto

“Com o meu problema dos olhos, estou a ficar cego, não posso ver televisão, portanto oiço televisão e oiço rádio. Não posso ler, oiço os programas. Oiço muito a BBC, uma estação de rádio de referência, tem todo o tipo de programas e aprende-se muito ouvindo essa rádio, não quero dizer que nas outras não se aprenda, mas esta (BBC) tem um nome já mundial. Oiço muito a música, mas tenho que ter muito cuidado porque os ouvidos já começam a falhar, a idade é assim, mas não tenho pena de ter a idade que tenho, vivi uma vida, estou satisfeito, e estou satisfeito por ver a juventude a caminhar com gosto pela vida, com gosto pelo trabalho e espero muito para além dos 80 anos que eu tenho”.

Apesar da cegueira (quase consumada), Carlos Silva continua a percorrer os compartimentos onde se faz radiodifusão na Rádio Moçambique que bem conhece desde os seus 15 anos, dispensando apoio. Recorre às mãos (tato). Quando recolhe à casa, bem ao lado da RM, tem ajuda de um amigo apenas para atravessar a rua.

Preferencialmente vai à RM de noite, porque segundo ele, o escuro com a ajuda da luz artificial orienta-o melhor. Espera que a condicionante auditiva seja passageira e para isso está em tratamento médico.

Atribui as duas mazelas às décadas escutando tanta música, vida inteira trabalhando com som os ouvidos vão perdendo a capacidade de audição, com a idade a estimular essa perda progressiva.

Consola-se e diz que não se queixa de nada. “Vou-me safando”. Diz que o problema de visão é hereditário, é uma coisa congénita, que vem dos seus antepassados. Trata-se de perda de visão angular e de visão nocturna. “Claro que com a idade começou a ser total. Só a claridade é que afecta os meus olhos, mais nada, eu não vejo mais nada”.

Do prato predilecto, diz que gosta de tudo. “Eu gosto de tudo, mas não mais dispensai galinha à zambeziana que uma vez nos foi servida, quando fui a Quelimane, Zambézia, com o já falecido jornalista Albino Magaia. Das comidas vulgares, o bacalhau toda a gente gosta, cozido à portuguesa toda a gente gosta, eu gosto de tudo, sou um bom garfo”.

Origens

Carlos Silva conta que nasceu numa família pobre, sem recursos, filho de pai militar de uma categoria muito baixa. Ganhava muito pouco e a família com muitas dificuldades, mas vivia. “Cheguei a viver para Namaacha numa casa de pobres. O meu pai foi para Índia e ficámos

sós. Daí que a minha mãe nos inscreveu no edifício do então Instituto de Assistência Social, que era aqui em frente da Rádio. Levei uma vida solitária. O meu pai morreu e a minha irmã partiu para Portugal. Há 35 anos estou com a Maria Judite, locutora reformada, e sou feliz ao lado dela. Tenho poucos amigos e ando sempre isolado. Tive sempre medo da vida mas nunca tive medo de trabalhar, tanto mais que quando vou ao estúdio trabalho para valer e sempre fui um bom profissional. Gosto de ficar nervoso quando trabalho, porque os nervos puxam pela criatividade. Não gosto de pessoas extremamente calmas, porque o meio rádio não é feito desse estilo de vida. Sou muito falador mas tenho muito poucos amigos. Muitas pessoas gostam de mim e eu acho também que gosto delas. Gosto muito de ajudar as pessoas, não sei se é pelo facto de ter passado privações quando pequeno. Sempre gostei de nadar mas nunca cheguei a competir. Quando entrei para a Rádio, aos 15 anos, mais nada saiu da minha cabeça a não ser a rádio. Se voltasse tudo ao princípio talvez fizesse uma separação porque tudo o que é demais prejudica. Gosto de trabalhar com gente nova pois gosto também de coisas novas. Sei aceitar ideias novas, não sou pela imposição nem devo, nem faço esforço para impor as minhas ideias. Aprecio o trabalho da juventude e se há uma correcção a fazer é algo de pormenor e nunca para mudar a ideia. Além de que a velhice que não compreende a juventude é uma velhice estúpida”.

Superou vícios

“Já bebi muito e fumei quando era jovem porque aqui na Rádio tínhamos um centro social que vendia também bebida. Mas foram exageros da vida. Parei de beber e aos 60 anos também deixei de fumar, de maneiras que já não tenho vício nenhum senão ouvir a música clássica. Gosto de ouvir todo o tipo de música mas a música clássica é o meu forte. Em todo o mundo a música clássica está a crescer bastante, orquestras sinfónicas de tão grande categoria que já correm o mundo. Venezuela tem uma experiência que se chama Sistema, em que um padre tirou as crianças de rua e pô-las a tocarem piano e a fazer música clássica. É uma experiência que já acontece em muitas partes do mundo, incluindo Moçambique, onde para além de crianças de rua muitas outras já despertaram interesse nela”. (x)

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