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Ainda sobre as investigações da CNN em Moçambique

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Por: Tomás Vieira Mário

Quando tu trabalhas com a única finalidade de sufragar agendas de terceiros, alheias aos princípios da tua missão, o risco de caíres no ridículo é sempre inevitavelmente alto. Porque aí, baseando-te em crenças ou preconceitos, nomeadamente de uma suposta superioridade ou infalibilidade das ideias ou convicções de quem tu queres servir, tudo o que vais fazer é procurar confirmar isso mesmo, a qualquer preço! 

Esse tipo de tarefas é geralmente solicitado e desempenhado por pessoas ou instituições de prestígio: os mandantes, sabendo, precisamente, desse prestígio, estão certos que, seja o que for que tal pessoa ou instituição disser, terá um grande potencial de credibilidade junto da grande chamada opinião pública.

As Nações Unidas decretaram, em 2006, sanções contra a Coreia do Norte, visando travar o programa nuclear do país, quando Pyongyang fez os seus primeiros ensaios de misseis. As sanções falharam, pois a Coreia do Norte continuou e desenvolveu, nestes últimos 12 anos, uma forte indústria nuclear militar, como o mundo tem testemunhado, através de sucessivos ensaios de mísseis de longo alcance.

Os Estados Unidos da América (EUA), que se colocaram na linha da frente das sanções, têm agido como o líder mundial da campanha, estatuto ora robustecido pela administração do Presidente Donald Trump.

Em 2017 surgiram notícias, alegando que Moçambique estaria a violar o bloqueio económico decretado contra a Coreia do Norte. A notícia, como seria de esperar, teve maior eco nos EUA. O Governo moçambicano diz que estas alegacões não são verdadeiras e, para efeitos de confirmação, convidou membros do Painel de Peritos da ONU, que monitora as sanções, a vir a Moçambique.

E vai daí que, a prestigiada cadeia televisiva norte-americana CNN decidiu despachar uma equipa de “investigação” para Maputo, a qual afirma ter feito, aqui, suas pesquisas durante um mês. Qual era o fim da pesquisa? O fim da pesquisa não era averiguar SE Moçambique estaria, efectivamente, a violar, ou não, as sanções decretadas contra a Coreia do Norte: isso era já um dado adquirido! A missão da CNN era vir recolher EVIDÊNCIAS dessas violações!

Ou seja: a pesquisa da CNN não colocava, de forma alguma, a hipótese de terminar concluindo que não encontrou EVIDÊNCIAS das alegadas violações em Moçambique: ela devia, necessariamente, mostrar EVIDÊNCIAS sustentando a acusação! Ora, quando um jornalista ou um pesquisar vai ao terreno animado de tais propósitos, só pode, muito facilmente, “encontrar” o que deve, necessariamente, encontrar! Ainda que faça simulacros!

A CNN transmitiu, na semana passada, o vídeo que resume o resultado das suas ‘investigações” e o mesmo tem estado a “correr” o mundo. A reportagem centra-se em duas áreas em que Moçambique estaria a violar o bloqueio económico a Pyongyang, a saber: na área das pescas e na área militar, donde a Coreia do Norte estaria a ganhar “significativos montantes em dólares para financiar o seu programa nuclear”, motivo porque Moçambique corre o risco de perder “milhões de dólares de apoio financeiro americano”.

Ora, o que, então, mostra o vídeo da “reportagem”da CNN: mostra, primeiro de longe, supostas embarcações “escondidas” no interior de uma “sucataria “de velhas embarcações, com as denominações de Susan 1 e Susan 2. E, com aquela pose de quem surpreende e “revela” esconderijos de gangues de traficantes, o repórter aponta, de longe, dizendo: “é provavelmente com estas embarcações de pesca que Pyongyang ganha significativos montantes de dólares para financiar o seu programa nuclear”.

Acto contínuo, o jornalista vai penetrar o interior de uma embarcação, de aspecto francamente precário, mostrando uma estrutura rústica e envelhecida, e ai ele “surpreende” os pescadores “coreanos”: um individuo com aspecto pacato, que se mostra assustado com a “invasão” ao interior do seu barco…. E o repórter, que não conseguiu falar com ninguém, diz, peremptório: “apanhamos aqui um pescador norte-coreano, neste barco de pesca”. E fica por aí!

Em nenhum momento a reportagem explica, exactamente, como funciona o tal esquema de pesca que dá à Coreia do Norte “significativos montantes de dólares para financiar o seu programa nuclear”.

Mas há uma outra EVIDÊNCIA que a reportagem deve trazer: a da alegação segundo a qual a Coreia do Norte tem estado a ganhar “milhões de dólares em Moçambique, treinando forças militares de elite “num campo de Maputo”. O repórter passeia pela cidade de Maputo; “descobre” uma casa com um aspecto que para ele é suspeito, porque tem portões metálicos de cor castanha; simula tocar uma campainha; aborda dois indivíduos ao largo, incluindo aparentes transeuntes e… diz: “de acordo com fontes militares é nesta casa onde se situa o Estado-maior dos especialistas coreanos que treinam forças de elite em Moçambique”. Ao deixar o edifício, diz: “alguns asiáticos viviam aqui; mas saíram há alguns meses….” (nota: ele não diz coreanos).

Mas há mais EVIDÊNCIAS: o vídeo mostra aquilo que o repórter designa por “instalações militares como esta”. Mas de que se trata, afinal? Trata-se de uma estação da empresa Telecomunicações de Moçambique (TDM), com parte do equipamento troposférico, aliás desactivado há mais de 14 anos, no Monte Chiluvo! E são imagens de arquivo!

É isto uma reportagem digna de uma televisão do prestígio da CNN? É isto uma investigação jornalística?

Alguns perguntam-me: devemos, então, concluir que a péssima qualidade desta “investigação” da CNN prova que Moçambique não está a violar as sanções contra a Coreia do Norte? Não, não devemos concluir nada disso! Concluímos, isso sim, que a CNN não provou absolutamente nada em Maputo! E, pelos vistos, parece que nem era esse o objectivo da sua…”pesquisa”!

É a este tipo de exercícios que, em contexto de conflito ou crise, se chama, na língua inglesa: “building a case”. Ou seja: inventar um problema!

Uma inacreditável fabricação mediática internacional!

(Extraído da sua conta no Facebook)

 

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