Início Editorial O “deslixo” para a morte 

O “deslixo” para a morte 

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Finalmente e infelizmente consumou-se o que se esperou na lixeira de Hulene, na Cidade de Maputo. Vidas humanas perderam-se numa situação que era perfeitamente evitável. 

Contabiliza-se, pelo menos, 16 pessoas que morreram e outras tantas ficaram feridas na sequência de deslizamento de resíduos sólidos do que necessariamente de solos. Receia-se que o balanço pode pecar por defeito.

O deslizamento dos resíduos sólidos, de cerca de 17 metros, foi provocado pela intensa chuva que afecta Maputo e outras regiões do país, em plena época chuvosa.

Essas pessoas não foram surpreendidas em alguma missão associada à lixeira, não. Haviam fixado residências junto ao maior depósito de resíduos sólidos da capital moçambicana e o que aconteceu esteve sempre previsível. Faltou prevenção do que só se fala hoje, depois das mortes confirmadas.

Consumadas as mortes, as autoridades vieram uma vez mais afirmar que algumas das vítimas haviam recebido em tempos, terrenos e materiais para a construção de habitações em zonas seguras.

Esta constatação não é nova e repete-se de catástrofe em catástrofe. Se as famílias vivendo em zonas de risco receberam todos os meios necessários para se transferirem para locais seguros têm quota-parte dos desastres que depois se seguem, não é menos verdade que as nossas autoridades também têm a sua responsabilidade, sobretudo quando está claro que a qualquer momento o país pode ser enlutado por irresponsabilidades individuais dessas famílias.

As autoridades estão revistadas de todo o poder e todos os meios que podem e devem ser accionados, desde que seja para defender vidas humanas.

Não cremos que alguém de bom senso venha a condenar as autoridades por alegados excessos, desde que esteja claro que a acção pretende salvaguardar vidas humanas. Não cremos que alguém de bom senso venha a acusar as autoridades de violação de direitos humanos, quando o que se pretende é precisamente defender vidas humanas.

As nossas autoridades não podem recuar sempre que se trate de causa justa, para depois dizer que foram tomadas medidas que as pessoas não acataram.

A ser verdade que algumas das famílias das 16 vítimas mortais receberam terrenos e materiais para se transferirem para zonas seguras, faltou monitoria no cumprimento escrupuloso do gesto das autoridades e, hoje, o país está enlutada. Não basta atribuir novos terrenos e materiais. Impõe-se usar todos os meios para forçar o abandono efectivo dos locais de risco.

Hoje, o país chora as 16 vítimas mortais da lixeira de Hulene, com cerca de 30 anos de existência, mas outros casos similares abundam pelo país fora e há que agir já!

Em algum momento, o excesso de tolerância perante situações graves chega a cheirar a fins eleitoralistas, ou seja, as autoridades evitam accionar medidas de coerção justificadas, mesmo quando necessário, com medo de perder votos nos pleitos subsequentes.

Dizia um antigo Ministro de Educação, que “se as barracas do Museu fossem encerradas, o Partido ‘X’ perderia eleições na Cidade de Maputo”! Que argumento!

Desde que seja por uma causa justa, as autoridades devem usar todos os meios de coacção e podem ter a certeza de que não será por aí que se perderá votos, porque as pessoas envolvidas gozam de total sanidade mental e sabem perfeitamente quando é que se está perante uma medida governamental justa e quando é que se está perante medidas de coerção injustas.

Na hora dos acontecimentos até podem fingir que estão zangados com as autoridades, mas certamente será uma zanga passageira e a razão acabará imperando.

Os custos da “tolerância” revelam-se claramente altíssimos, as vidas humanas perdidas não mais serão recuperadas, comparativamente aos custos de medidas de coerção justificadas.

As 16 vítimas mortais de deslizamento de resíduos sólidos podem juntar-se a outras tantas vidas humanas perdidas de forma indirecta, pois há muito a lixeira de Hulene deixou de ser ambientalmente amiga de milhares de famílias em volta.

As promessas de encerramento e transferência da lixeira vão sendo renovadas a cada dia, e não mais passamos das promessas. E enquanto isso esperemos por mais tragédias, infelizmente! (x)

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