Início Dossier Paz definitiva extravasa consensos Governo-Renamo(9)

Paz definitiva extravasa consensos Governo-Renamo(9)

149
0
COMPARTILHE

Os acontecimentos relativamente mais recentes, com epicentro em Mocímboa da Praia e arredores, Cabo Delgado, devem despertar aos moçambicanos sobre a necessidade de a busca da paz efectiva e definitiva não se limitar aos consensos entre o Governo e a Renamo.

Paira a sensação da existência de outros nichos da instabilidade no país, que devem ser atacados com firmeza, sob pena de estarmos a cantar vitórias na luta pela paz efectiva e definitiva apenas com base nos consensos entre o Governo e a Renamo, para um dia sermos surpreendidos.

Adensa esta sensação o facto de até hoje, pelo menos publicamente, não terem sido esclarecidas e génese e as motivações da situação preocupante que afecta a região de Mocímboa da Praia e periferia, em Cabo Delgado, onde as Forças de Defesa e Segurança são obrigadas a enfrentarem algo que se assemelha a uma força com alguma base social, quando as atenções estão viradas apenas à consolidação dos consensos com a Renamo, único partido da oposição que mesmo à margem do ordenamento jurídico da República de Moçambique mantém desde a sua existência, um exército armado com peso igual ou superior ao de um exército Constitucional.

Diga-se em abono da verdade, que desde a independência nacional, faz quase 43 anos, Moçambique nunca teve uma paz efectiva. O que pode ser entendido como períodos (curtos) de paz acabou sendo “interlúdios” de algo pior que sempre veio a revelar-se letal para toda uma sociedade que a cada dia chora por uma paz definitiva. Foram períodos de encubação de máquinas de guerra, por sinal de grande dimensão.

Não interessa se o objectivo final é servir interesses externos de onde tudo é orquestrado, à semelhança do regime do “apartheid” e racista do Ian Smith, na antiga Rodésia do Sul, ambos erradicados. O mais importante é que somos nós, os moçambicanos, que no teatro das operações somos usados para nos matar um a outro, enquanto os mentores nos assistem expectantes para um objectivo que dificilmente vão alcançar. A nobreza dos moçambicanos perpetua em nós pelo menos esta convicção. Mas o sofrimento, esse deve terminar.

Não pretendemos subestimar o diálogo Governo-Renamo, antes pelo contrário. Nem o facto de a fase actual do processo de Descentralização Administrativa resultar mais do “pressing” armado da Renamo tira mérito aos consensos.

Aliás, o politólogo José Jaime Macuane entende que os países têm a sua história e não há interesse em criar-se algum modelo ideal de que as coisas tinham que ser doutra forma. “É bom como análise, só que na prática o que ocorre é que cada país tem o seu histórico. A gente teve este conflito entre a Renamo e o Governo e isto, portanto influenciou a forma como fomos construindo as nossas instituições, pelo menos nestes 20 anos”.

José Macuane sublinha que muito mais de olharmos se isso tem mérito ou demérito, o mais importante é a sociedade começar a pensar que apesar de o conflito entre a Renamo e o Governo ter sido estruturante nos últimos 20 anos da nossa história política e até institucional, não se pode ignorar outros factores que estão a constituir a nossa história, e que naturalmente fazem parte do nosso mundo político, económico e social.

“Constituir instituições apenas olhando para uma parte das dinâmicas estruturantes da história e das instituições, acho que é um erro histórico muito grande. Mesmo que a gente entenda que a paz é urgente, é fundamental, é estruturante também, porque sem a paz muitas coisas não podem ser feitas, inclusive pode ser complicado termos democracia consolidada sem paz”, frisa José Macuane, sublinhando a necessidade de a sociedade não ignorar as outras dinâmicas.

“Então, com todo o mérito que possa existir em relação à importância que se dá a este assunto, temos que aceitar que faz parte da nossa história, mas também temos que ter uma visão mais ampla do que é a nossa história e das várias dinâmicas em que se constrói essa história. E penso que até aqui parece que não estamos a dar a devida importância a este elemento, mas claro, como este assunto particularmente ainda está em debate, imagino que a um certo nível possa se abrir ainda um espaço para que essas outras dinâmicas e outros actores que existem e que constroem também a história deste país também possam ser levados em conta”.

Até que ponto essas outras dinâmicas condicionam a desmilitarização efectiva da Renamo que devia ocorrer em paralelo com o processo da Descentralização Administrativa?

“Penso que são dinâmicas que não devem ser ignoradas, porque não é possível se ter um conflito por anos que não tenha uma base social e essa base social não pode se assumir que

apenas vem da própria dinâmica do conflito, ou seja, a base social que torna “aceitável o conflito”. Digo aceitável porque não pode ser vista apenas na clivagem que existe entre o Governo e a Renamo. Vimos que quando houve este reacender do conflito nos últimos anos, o governo apelou para que as pessoas condenassem a Renamo, mas o nível de condenação esteve muito aquém do que numa sociedade em que o conflito é canalizado de uma outra forma seria de se esperar”.

José Macuane defende a necessidade de profunda reflexão sobre até que ponto essa base social que aceita o conflito armado como uma forma de resolução de diferendos não pode ser vista apenas como uma mera relação entre o Governo e a Renamo. Para Macuane existe um conflito latente em várias áreas por várias razões, que faz com que alguns de nós pensamos ser aceitável resolver as coisas por esta via mesmo que não seja necessariamente da Renamo. “Acho que se nós queremos construir a paz de forma consistente é preciso olharmos para todos os elementos que favorecem uma dinâmica de resolução de problemas pela via de conflito dessa natureza e que elas não se esgotam apenas na relação estrita entre a Renamo e o Governo, é muito mais amplo. Dai ser importante entender essas dinâmicas e traze-las para dentro daquilo que é o recomendável para o fim definitivo do conflito. A título de exemplo, esses acontecimentos de Mocímboa da Praia e outros sítios são novas dinâmicas que surgem e que acham que pode-se resolver diferenças pela via de conflito armado e deve existir uma base social para isso ou pelo menos tentaram criar uma base social para isso. Então, acho que temos que ter uma visão muito mais ampla justamente para que os focos que possam existir que nos levam a entrar em conflitos desta natureza que envolvem conflitos armados, mortes, possam ser mitigados, enfraquecidos e idealmente eliminados da nossa sociedade como uma forma de resolução de diferenças entre nós”. (x)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here