Início Entrevista Gratidão eterna a um curandeiro

Gratidão eterna a um curandeiro

2182
0
COMPARTILHE

Por: Boaventura Mandlate

Chama-se Paulo Francisco Zucula, de seu nome completo, nascido, crescido, educado e enraizado em Moçambique. “Nasci numa terrinha pequenina, hoje chama-se Chobela, mas naquela altura a gente chamava tshovela”, (termo changana que significa colheita).

A modesta terra que “gerou” Paulo Zucula localiza-se no Distrito de Magude, Província de Maputo. Ele lembra que os seus progenitores são da outra margem do Rio Incomáti, numa zona que se chamava São Paulo de Messano, zona potencialmente dos zuculas, sendo que aparentemente o seu avô era chefe da zona.

A criação da estação zootécnica de Chobela atraiu o pai de Paulo Zucula para o local, onde viria a encontrar a mulher com quem casara, sendo Paulo Zucula o segundo filho do casamento.

Todavia, não é naquela zona onde Paulo Zucula cresce. Naquele tempo, as oportunidades de emprego eram muito escassos, e por isso não se evitou que fosse parar em Chokwé, vizinha Província de Gaza.

“De facto eu diria que cresci nas margens do rio Limpopo, em 1955, quando se iniciava a colonização física do vale do Limpopo, caracterizada pelo envio dos colonos, para o povoamento da zona e construção do regadio do Limpopo”.

Paulo Zucula recorda que o seu pai, que era pedreiro, foi parar naquela zona não como empregado do colonato como tal, mas com os padres que edificavam as suas infra-estruturas religiosas (Capela, cemitério e a casa do padre) no colonato.

As treze aldeias do colonato do Limpopo foram construídas à margem e semelhança das aldeias de Portugal na arquitectura e nos nomes.

Paulo Zucula conta que o seu pai, Francisco, foi o construtor daquelas infra-estruturas, até à região vizinha de Mabalane, na altura chamada Vila Pinto Teixeira.

Tal como outras crianças, principalmente no campo, à nascença foi-lhe atribuído um nome tradicional que entretanto julga ser prematuro revelar.

Paulo Zucula nasce na era de escolas oficiais e paroquiais (dos padres), numa clara aliança forte entre o regime português de António Oliveira Salazar e mais tarde Marcelo Caetano e a igreja católica.

Esta aliança conferia uma importância especial aos actos de baptismo, educação e catecismo. Os negros, se não fossem assimilados, só podiam conseguir fazer o ensino primário indo para escola paroquial, para onde Paulo Zucula foi, na Escola Paroquial Nossa Senhora de Conceição de Chókwè. Mas os primeiros contactos com o “abc” dão-se na zona de Chilembene, Mabalane e Lionde.

A quarta classe só podia ser feita mediante apresentação de documentos, porque o exame não era feito pelos padres. Era o mesmo exame de escolas oficiais. Esta condição determinava uma série de exigências, como ser baptizado, possuir certidão, bilhete de identidade e uma série de outras exigências impeditivas.

“Naquele tempo, não sei se era uma lei, uma regra ou arbitrário, sei que não aceitavam nomes que não soassem a português e bíblicos”.

É assim que Zucula recebe como primeiro nome de baptismo João Paulo Francisco Zucula, porque há uma personalidade bíblica que se chama João Paulo. “Eu é que mais tarde achei que o meu nome era comprido e cortei o João”. Sublinha que a atribuição daquele nome visava garantir o baptismo e aceitação como cidadão português, mas apesar do nome comprido as pessoas habituaram-se a chama-lo por Paulo Zucula.

A chegada da Frelimo (independência) inspirou-o a resgatar o seu nome original/tradicional, mas não o fez. “Iria provavelmente afectar muita coisa. Paciência! Pelo menos a minha família me chama por esse nome tradicional”.

Paulo Zucula é produto de parto não institucional (nasceu em casa dos pais), uma lacuna que persiste na sociedade moçambicana, apesar da grande revolução sanitária de lá a esta parte, mas com a persistente insuficiência de hospitais e a força dos hábitos e costumes a minorar os resultados do grande esforço para o incremento de partos institucionais.

“Sei que nasci muito doente, mas não sei dizer qual é a doença que tinha, mas segundo conta a minha mãe, nasci com aquilo que chamam mioleira profunda. Minha mãe diz que eu tinha constante diarreia e o meu estômago não segurava nem comida nem água. Parece que a mioleira não fechava no tempo que deveria fechar. Aparentemente chorava tanto que não parava, respirava muito mal, não dormia, não comia e segundo conta a minha mãe até fui dado como criança que não ia vingar. Depois fui “internado” num curandeiro que não sei quem é, onde passei um tempão com a minha mãe e aparentemente o curandeiro deve ter conseguido, porque estou aqui, não morri, e isto aqui garanto que fechou”.

Infância 

Paulo Zucula passou a infância ao lado dos seus pais e lembra que no meio rural as crianças crescem muito rápido. Mas quem na verdade toma conta de si é uma tia que “graças a Deus ainda está viva”, até aos 12-13 anos.

Naquela zona era normal, quando nascesse uma ou duas crianças numa casa, a irmã mais nova da mãe podia juntar-se a esta, no seu lar (ukatini), para ajudar a irmã mais velha a tomar conta dos filhos.

Empregabilidade precoce

“Aos 8 anos já era pastor e alternava a pastorícia com a escola” recorda Paulo Zucula. Porque os pais não tinham gado, apascentava gado de familiares ou de pessoas que pediam aos pais. O meio de pagamento podia ser uma vaca. Nas férias escolares a pastorícia ocupava todo o tempo. Nos sábados e domingos embora houvesse pastorícia o tempo era reservado ao catecismo e à missa.

Como o pai estivesse em movimentos constantes em perseguição de oportunidades de obras, por conta própria, a família não podia estar sempre junta. Ele fazia base onde deixava a família e rumava para os seus trabalhos, se desse voltava aos fins-de-semana. Havia ocasiões em que a família permanecia longo tempo privado do convívio do marido, pai. A primeira base foi em Chilembene, nas margens do Limpopo. “Quando as distâncias começaram a ser maiores o meu pai às vezes levava um, ou três de nós para ficarmos com ele, num grupo de oito irmãos, sendo dois homens e seis mulheres”.

Paulo era o rapaz mais velho e estava condenado a acompanhar o pai em todas as jornadas. “Lembro-me de uma ocasião em que ele ficou seis meses sem trabalho e ai ele não nos levava. A minha mãe, doméstica, ficava sempre em casa. Naquela zona na altura a família não tinha machamba própria e a minha mãe trabalhava na machamba de alguém. Recordo-me de termos trabalhado juntos nas machambas dos colonos, guardando pássaros que invadiam campos de arroz ou fazendo a sacha. No final do dia ganhávamos um quilograma de farinha de milho ou um bocadinho de açúcar ou ainda leite, dependia”.

Francisco Zucula, pai de Paulo, era pedreiro de profissão e trabalhava por conta própria, mas sempre em ligação com os padres, executando obras ligadas à igreja. Mais tarde ingressou no Estado por via da Brigada Técnica de Fomento e Povoamento do Limpopo, uma estrutura que geria o regadio e a população do colonato. Integrou até à independência, as equipas que construíram os diques de protecção do regadio e outras infra-estruturas do empreendimento.

Depois da independência todas as empresas foram reestruturadas e integraram as conhecidas “Construtoras Integrais” em diferentes frentes.

“Uma coisa bonita da infância rural é que é quase difícil distinguir brincadeiras de trabalho. Hoje há uma grande diferença: o trabalho é ma coisa e a brincadeira é outra. O trabalho é aborrecido e a brincadeira é agradável. Quando eramos pastores de gado, não tínhamos como sê-los sem estarmos a brincar, mas também havia coisas sérias… Enquanto olhávamos o gado podíamos jogar ntchuva, caçar, jogar às escondidas… até tínhamos brincadeiras perigosas, de desafiar animais como rinoceronte, uma forma de aprender a viver com a natureza, criar armadilhas, tudo isto se faz de uma forma a brincar. Também havia um pouco de arte. A gente trabalhava muito com matope, na brincadeira, mas fazendo coisas úteis como produzir potes, panelas de barro, estatuetas de bovinos. Também dançávamos makwaela, makwhai. Havia um sítio chamado xitiquini, um átrio de aldeia ou de povoado (em lugar aberto), onde a gente se encontrava de noite para dançar, também se podia encontrar pessoas adultas. Até era um bom sítio para namorar. Só que era perigoso, porque todas as nossas danças eram proibidas. Ocasionalmente eramos surpreendidos em xitiquini, ou pelo professor ou pelo padre ou pelo polícia para dispersar o pessoal e às vezes se descobria que este é aluno da escola tal e no dia seguinte você era castigado com recurso a palmatória, um instrumento feito de madeira, sob diversos formatos”.

Paulo Zucula lamenta que até hoje ainda não percebeu a razão da proibição das danças tradicionais pelo regime colonial, pois continua sem ver o algum mal nessas danças. “Mas mesmo assim a gente não parava de se juntar, íamos lá ao fim do dia brincar. Também brincávamos em grupos buscando lenha e água no Limpopo. Não havia muita fronteira entre brincar, jogar e a gente fabricava os nossos próprios brinquedos como carrinhos de arame, motas. Hoje, como estamos civilizados (?), o trabalho é uma coisa e a brincadeira é outra!”, ironiza Paulo Zucula.

Sobre a proibição das danças tradicionais pelo regime colonial, Paulo Zucula interpreta que não havia mal absolutamente algum. “Aquilo era efeito de colonização que infelizmente funcionou! Infelizmente funcionou! Entristece ver as nossas danças, a nossa cultura reduzida a folclórica, não quero exagerar, mesmo brincadeira de tipo zoológico, e nós próprios é que estamos a fazer isso! A nossa juventude dá-se facilmente com música estrangeira e dança música estrangeira, mas não conhece o mapico ou massesse”.

Paulo Zucula reconhece que a seguir à independência foi cultivada o suficiente a ideia das actividades culturais, festivais nacionais, aprendeu-se a dançar makwaela, makwhai, mas como manifestação cultural, todavia sob o ponto de vista institucional, isso diminuiu bastante.

São práticas que tendem a desaparecer, excepção para aparições públicas de dirigentes, que são recebidos nos aeroportos com actividades culturais típicas de cada zona. “Algumas das danças, por exemplo, já é difícil encontrar, de ver, aquelas por exemplo que cresci com elas. Naquele tempo eram proibidas porque queriam ensinar-nos que tudo aquilo que é nosso não presta! E não era só dança, até comida. Você vai hoje a um restaurante aqui em Maputo ou na Beira, mais rapidamente encontra bacalhau do que cacana ou matapa, ou uma coisa de género. Se você quiser comer uma comida tradicional num restaurante vai dançar bastante, o que significa que a colonização funcionou e ainda cá está! Estamos alienados um pouco, infelizmente e eu fico triste”.

Socialização

Qual foi o papel da religião e da tradição para a sua socialização? 

“Há coisas que eu aprendi, naquela altura, sobretudo questões de valores, questões de ética. Não aprendi tradicionalmente 1+1; 2+2; 3+3; 4+4, mas muito do valor da vida, muito do valor da socialização, muito da ética tradicionalmente. E há coisas que você aprendia naquela altura, que se dava uma explicação mítica e você acreditava. Depois quando você começava a estudar e a evoluir na educação formal, questionava a explicação mítica das coisas e de certa forma até rejeitar, concluindo que isto é história, não é verdade, mas em algum momento encontra uma relação disto com aquilo. A parte mítica era só para te convencer, como acontece em qualquer outra cultura. Alguma vez alguém me perguntava se sabia porquê o povo tal não come carne de porco e diz que é Deus que proibiu comer porco. Foi uma forma que se encontrou de dizer as pessoas a não comerem, porque naquele tempo o porco transmitia doenças horríveis para as pessoas. Também me lembro destas coisas de “mudlhiwa” (espírito maligno), dizia-se que não se podia apanhar dinheiro na rua, porque pode trazer o espírito maligno para casa, que mal chega começa a matar um por um dos membros da família. Ora, isto assusta bastante e você não pega dinheiro na rua e quando vê moeda afasta-se e passa muito distante, porque senão vai levar o espírito maligno para casa. Contudo, mais tarde vai perceber que o que se pretende ensinar é que o dinheiro não fica na rua à sua espera, ou seja, não existe dinheiro fácil, cuidado com dinheiro fácil, dinheiro fácil trás problemas. Portanto é uma aprendizagem que à volta dela tem uma explicação mítica, mas não deixa de ser um valor ético muito importante quando bem trazido. Se você olhar para todos aqueles provérbios que aprendemos desde pequenos, a ideia de que todos os dias de manhã, quando você se cruza com uma pessoa faz “kurungulissana” (saudação profunda), não é só dizer: bom dia, como está? Estou bem, obrigado, tchau! Não, não é assim! Saudação matinal é mais profunda, implica solidariedade, cumprimenta a pessoa, pergunta como passou a noite e como iniciou o novo dia, como é que estão as crianças lá em casa, como é que a família está. Depois chega a sua vez de dizer como é que está, como é que as coisas estão, e nesse momento você aproveita dizer fulano de tal está doente, ou se houve falecimento na família, na zona, etc. São valores de socialização, solidariedade, ética e moral, muito fortes, que são também instrumentos muito importantes de sobrevivência tradicional de quem é pobre. Os pobres ficam muito mais juntos em volta destes valores do que os ricos, que já não têm muitos valores, têm preço, confundem valores com preço. O preço é que conta: quanto é que custa? Se custa barato quero, se custa caro não quero. Ali as coisas têm mais valor do que o preço, entretanto o preço e o valor não são mesma coisa”.

Qual foi o peso da religião, falou mais de tradição, da mítica?

“A religião também teve o seu peso na minha socialização, na minha casa, porque se olhar bem para os ensinamentos religiosos e espirituais têm muito de moral, também têm o seu mito, não é muito diferente, mas também têm a sua mitologia para explicar as coisas, entretanto muitas das coisas moralizam a sociedade. Não sou muito frequentador da igreja apesar de acreditar no além, mas a presença da igreja moraliza a sociedade, a presença da tradição moraliza a sociedade”.

Fale-nos do processo da sua formação escolar até académica.

“Foi uma estrada tipo picada com alguns corta matos. A formação primária foi longa, porque naquela altura as escolas paroquiais tinham um caminho muito longo para concluir o ensino primário que devia terminar na quarta classe. Naquela altura era quatro anos no primário, tirando a pré-primária. Concluía-se a quarta classe, depois entrava-se no primeiro ciclo (quinta e sexta), segundo ciclos (sétima, oitava e nova), terceiro ciclo (sexto e sétimo anos), seguindo-se admissão à universidade. A parte primária era diferente para os negros estudando em escolas paroquiais, onde também frequentavam filhos de colonos pobres que não conseguiam entrar no ensino oficial, porque havia discriminação também entre os brancos. Na escola paroquial havia primeira, segunda, terceira rudimentar, terceira elementar, quarta e admissão. Penso que esta era uma forma de atrasar a educação para os negros e pobres, até para te apanhar na tropa, porque se incorporasse aos 18/19 anos já com quinto ano ia a Furriel ou Alferes se tivesse sétimo ano. Feito o ensino primário era muito difícil progredir nas classes seguintes. Primeiro ou porque o ensino não existia por perto, segundo porque já não havia ensino paroquial, só havia ensino oficial e privado. A minha família, com a conivência dos padres, encontrou uma maneira de eu entrar no seminário para ser padre. Isso era relativamente mais fácil e fui parar na Namaacha, no Seminário Menor de Cristo Velho. É aqui onde estudei o primeiro e segundo ano, quando tive alguns conflitos que não vale apena contar aqui, com alguns missionários, que me chocaram muito, porque puseram em mim a dúvida não em relação a Deus, mas relativamente à igreja em si. Sai e passei a viver em Maputo (Lourenço Marques) em casa de um tio meu e comecei a procurar emprego. Os meus pais não se zangaram muito comigo mas ficaram frustrados por eu não ter continuado no caminho do sacerdócio. Voltei para casa, e as freiras que me tinham enviado ao seminário convenceram-me a admitir que o tempo em que estaria fora do seminário serviria para solidificar a minha vocação para padre. Por isso continuaram a tomar conta de mim. Ainda hoje estou muito agradecido a elas. Foi assim que se abriu a oportunidade de eu continuar a estudar num colégio de freiras que tinha mais brancos que negros. Se a memoria não me falha ali havia menos de 10 negros e negras num colégio onde havia mais de 100 alunos.

No colégio pagava-se bastante caro. Mas as freiras a mim me empregaram como contínuo enquanto estudava, e esse emprego era a forma de eu “pagar” os meus estudos. No principio sentia me um pouco humilhado porque eu era o empregado dos meus próprios colegas. E tinha de chegar cedo limpar o quadro, abrir janelas, limpar toda poeira, limpar o campo de futebol para os meus colegas virem encontrar tudo arejado. Mas como precisava de estudar e tinha já aprendido que qualquer trabalho tem a sua honra, superei o que parecia humilhação. Isto ajudou-me a ir até ao quinto ano e depois o sétimo ano. Para o sexto e sétimo anos, como já tivesse 18 anos, fiz os exames como externo. Enquanto me preparava para os exames do sétimo ano ocorreu o golpe de Estado de 25 de Abril, em Portugal e a Frelimo também estava a chegar (independência). Nesse ano do golpe os exames foram uma confusão e não me candidatei a eles. A Frelimo veio despertar-nos de que tínhamos direito à educação, todos tínhamos de estudar. Aquilo que era difícil ficou fácil. Tudo ficou facilitado para progredir até concluir o curso de Agronomia, se bem que na altura eu queria estudar Direito. Só que a Frelimo (independência) quando chega proclamou a agricultura como prioridade. Depois trabalhei na agricultura, tendo interrompido para fazer pós graduação nos Estados Unidos da América (EUA). Concluído este nível voltei ao país e para a agricultura. Todavia, por causa de algumas politiquices relativamente à visão do sector abandonei e fui trabalhar para outras áreas, privadas, por algum tempo”.

Paulo Zucula lembra que enquanto estudante não encontrou exigência especial em termos de traje, quer a nível primário quer a nível oficial. Já no seminário as coisas são outras e são reguladas à base de lista: o seminarista tem de entrar no seminário com duas toalhas, quatro calções, camisola interior, cuecas, escovas de dentes.

“Os meus pais tiveram que fazer um sacrifício muito grande para eu ser o mais privilegiado da família para ter essas coisas todas e consegui entrar, mas não havia uniforme, nunca fui aluno uniformizado em nenhum sítio”.

Na universidade Paulo Zucula foi sempre um estudante-trabalhador, tal como foi desde os oito anos, no primário, por força da pastorícia, tendo sido igualmente empregado doméstico, distribuidor do jornal local, que se chamava clarim do limpo e fez uma série de outras coisas e só não trabalhou enquanto esteve no seminário.

“Estive sempre a trabalhar, fui jornalista do “notícias”, fui professor do Ensino Secundário leccionando francês, música, matemática, quando estava na universidade fui professor na Noroeste. Houve uma altura em que tinha três empregos: professor na Noroeste, jornalista no “notícias” e estudante universitário. Quando já não aguentava deixei de ser jornalista e fiquei só no Ministério de Agricultura e na universidade. Naquela altura havia estudante (tempo inteiro), estudante-trabalhador (passa mais tempo a estudar e menos a trabalhar), e trabalhador-estudante (trabalha mais do que estuda), aquilo que passou para noite (curso nocturno), antes era de dia”.

Paulo Zucula regozija-se que sempre foi estudante-trabalhador, dedicando a manhã à universidade, a tarde ao Ministério de Agricultura e assim foi sempre incluindo durante o curso de pós graduação, nos EUA. Aqui o trabalho durava das 4 às 8 horas de madrugada. E a seguir era a faculdade. Aqui foi ardina, mas só distribuía jornais para assinantes. Teve ocasiões em que trabalhou para fábricas. “O facto de ser trabalhador me dava sempre uma liberdade, com dinheiro que ganhava podia escolher a indumentária”, congratula-se.

Engajamento político 

Zucula diz que houve muitas pessoas que contribuíram, cada um à sua maneira, para a formação da sua personalidade como homem e não é fácil nomear. Dá particular ênfase ao engajamento político e destaca que algumas dessas pessoas nem chegaram a ser figuras tão populares. E tudo começa com o golpe de 25 de Abril.

“Lembro-me que depois do golpe de 25 de Abril, em Portugal, veio o governo de transição em Moçambique e logo tive a honra de cruzar com alguns políticos da Frelimo e todos eles me impressionaram e cativaram bastante. Tive contacto com Guidione Ndove, Ministro de Educação (Zucula era docente), depois conheci João Ferreira, ligado à agricultura. Depois conheci Chissano (Joaquim), Primeiro-ministro do Governo de transição, que talvez foi a maior primeira grande impressão minha ver um negro, muito simples, mais simples do que eu, escoltado por polícias portugueses e por guerrilheiros, e depois falar connosco com tanta simplicidade naquela altura, a dizer coisas que criavam em nós expectativas, não era só falar dizer coisas sem nexo. Imagine que permanecemos longo tempo sabendo que estudar no nosso próprio país era impossível e de repente chegar alguém dizer estudar e trabalhar é um direito! Por isso que eu desde essa altura, quando chegou a Frelimo, até agora que me reformei, não estive um único momento desempregado. Todos os dias tinha trabalho, tinha salário, bom ou mau, não interessa, mas tinha. Ter emprego garantido toda vida, depois de alguém nos ter incutido que não devíamos trabalhar, para nós era uma dádiva muito grande. Por isso muitas vezes quando as pessoas dizem vocês militantes da Frelimo, assim, assim, a Frelimo já não é aquela antiga, porque não sei o quê, eu digo não, não, a Frelimo é mais que uma organização política para gente da minha geração. É uma família, e na família até o pai pode virar a bêbado, marginal, não deixa de ser teu pai, não há que traí-lo só por causa disso, é teu pai, você não muda do pai só por causa disso. Uma das pessoas que também me influenciou bastante foi Armando Guebuza. Estive perto dele a primeira vez quando foi das cheias do Limpopo de 1976 ou 1977. Foi destacado e trabalhamos muito com ele e essas coisas que ele faz hoje, acabou o dia de trabalho, sentar e fazer balanço, já fazia, só que naquela altura no balanço ele não só ouvia as opiniões, como eramos jovens, ele aproveitava ensinar, quando ele respondia às nossas opiniões do balanço. É uma figura que me influenciou, na altura eu tinha 21/22 anos. Já naquela altura era difícil de acompanha-lo, andando, caminhando, é preciso correr atrás dele, parece que… (suspiro) anda depressa, essas coisas de pontualidade já são dessa altura. Essa capacidade de ouvir a todos, mas não ultrapassar a margem da hora estipulada vem de há muito tempo”.

Houve alguma razão específica para também abraçar o ensino superior? 

“As coisas estavam traçadas para nós. Talvez as pessoas de hoje não entendessem, mas a Frelimo quando chegou inclusivamente havia textos que toda a gente lia, convincentes, podem chamar utopia, mas naquela altura funcionou como “utopia”, Samora Machel escreveu discursos e falou várias vezes de que a educação era base para o Povo tomar o Poder. Você não podia tomar o poder “burramente”. A leitura, saber ler, se não está formado permitia pelo menos estar informado. Por isso que foram feitas aquelas campanhas de alfabetização, ensinar velhotes e velhotas a saber ler, e mesmo jornal, toda a gente lia jornal, não porque houvesse jornal que chegasse lá, mas havia alguém que pegava no jornal e traduzia o jornal numa coisa chamada jornal de parede. Havia muita ênfase na educação, mas muita mesmo e com conteúdos e processos que impressionaram, a ligação escola-comunidade, as comissões pedagógicas, a participação dos pais na escola dos filhos, a participação da escola na comunidade. Não sei se ainda há, mas não sinto, naquela altura era muito forte. Por isso, pelo menos na minha geração a Frelimo nos convenceu de que se você não estudar você não é nada. A gente está a dar-te oportunidade, ou aproveita ou vai sempre ser afogado e a oportunidade estava lá, ir à universidade sem pagar propinas, estudar de graça, com professores estrangeiros a quem o Estado pagava. É verdade que não havia muitos livros, mas havia bibliotecas e pouco lá tinha, os laboratórios eram poucos, mas eram acessíveis, quem de facto não aproveitou esse momento é porque não viu que era uma oportunidade que a Frelimo dava. Foi tudo muto fácil, não era preciso ser mágico para se convencer que tem de estudar, havia quem nos convencia para estudar. Havia um discurso do Homem novo e ainda hoje acho que a gente devia criar o Homem novo, não sei se desistimos ou não… porque o Homem novo tinha outros valores, então tudo isto nos motivou a irmos estudar e não para ganhar mais como é hoje. Ganhar mais nunca foi a motivação para a minha geração, nem a Frelimo deixava que fosse assim. Quando entrasse para novo emprego não me lembro ter questionado quanto é que vou ganhar, quando o cheque chegou, chegou. É verdade que naquela altura também não havia muita coisa para comprar, mas não foi por ai. Lembro-me quando concluímos o curso de agronomia, cada um a tentar ver como podia influenciar o sistema para o enviar para distrito, não para ficar em Maputo. Evidentemente que como quadro superior era muito respeitado no distrito e a Frelimo preocupava-se muito com os quadros que estavam no distrito. Sabia quem é o engenheiro que está ali, quem é o agrónomo que está ali, quem é o médico que está ali. Lembro-me de colegas nossos, técnicos superiores, que quando apanhados pela Renamo, todo o país sabia, hoje se calhar muitos já foram mortos que nem saem na página necrológica de qualquer jornal”.

Como é que entra no Aparelho do Estado? 

“A fuga, abandono ou ida dos colonos ou quadros portugueses logo a seguir à independência, criou muitas vagas e a Frelimo sabia que só podia preencher essas vagas com o que tinha. Como estivesse na agricultura, a entrada neste Ministério foi natural e ingressei como técnico de planificação e a minha área de concentração era o aprovisionamento. Passei também pela estatística e quando acabei o curso obviamente fui colocado num distrito, Ile (Zambézia) para lidar com mandioca e caju, enquanto aguardava pelos resultados. Quando o curso terminou e saiu o certificado fui colocado em Unango (Niassa), durante a guerra. A ida aos EUA para pós graduação dá se precisamente quando se conclui que com a guerra já não era possível trabalhar à vontade. Aproveitou-se a ocasião para se enviar quadros para irem prosseguir estudos no exterior em preparação do período pós guerra. Quando voltei ainda havia guerra e fui colocado nas estruturas centrais até 1992, no Ministério da Agricultura, como vice Ministro, em 1989. Esse período de vice-Ministro… (suspiro) foi de muito trabalho, de muita criatividade, mas estávamos em guerra, portanto ao mesmo tempo muito traumatizante, fazíamos muita coisa de emergência, tínhamos que ser inovadores para pôr as coisas a produzirem enquanto havia guerra e ao mesmo tempo estávamos a implementar as famosas medidas do Programa de Reabilitação Económica, PRE, quando o país se abria para economia de mercado. Foi um período de muita aprendizagem, costumo dizer que foi o período em que a palavra de ordem era mudar o pneu furado mas não pára o carro. Era preciso mudar o pneu furado com carro em andamento, era preciso ser suficientemente criativo. Algumas vezes frustrado, algumas vezes desesperado, mas com a mão na massa e em 1992 acho que estava extremamente cansado, extremamente desapontado com algumas coisas e muito contente com outras. Então em 1992 pedi licença sem vencimento para beber outras experiências e voltei depois muito mais tarde para o Estado até hoje”.

Antes de pedir licença sem vencimento Paulo Zucula foi exonerado de vice-Ministro da Agricultura, em 1992, a seguir ao Acordo de Paz. “Tenho que confessar que naquela altura eu estava psicologicamente um pouco perturbado com as coisas que a gente via nos campos de refugiados… (suspiro), as destruições do país, há algumas pessoas que não têm ideia do que foi a destruição deste país e algumas coisas frustraram e desesperaram muito, é difícil explicar por palavras. Para mim era um momento muito bom para ficar de fora, mas tive uma janela de oportunidades, porque enquanto vice-Ministro tinha tentado criar uma agenda. Naquela altura, durante a guerra, o Ministério de Agricultura, pelo menos, funcionava com “projectinhos”. Cada doador, cada ONG tinha seu “projectinho” e havia muitos “projectinhos”, mas não havia um programa único, uma orientação única, cada um tinha a sua orientação. Era uma forma de fazer alguma coisa enquanto havia o desespero da guerra. Na altura tentei acabar, como vice-Ministro, com todos os “projectinhos” e fazer um programa, que fez nascer o PROAGRI. Só que no meu tempo houve um tempo de transição em que houve um pré-programa, ainda não se chamava PROAGRI. Desenhamos um pré-programa e pedimos financiamento para um único programa na agricultura e nas pescas e a transição foi aceite do pré-programa para o PROAGRI. O início de implementação coincide com a paz e eu estou de saída. Foi relativamente fácil aproveitar esta janela para entrar na FAO para dirigir este programa que havia traçado. O meu primeiro emprego fora do Aparelho do Estado – foi ainda dentro do Aparelho do Estado – foi como contractado da FAO. Para implementar o pré-programa e a partir dai foi mais ou menos fácil subir a rampa e ir para outros sítios”.

Mas afinal que outras experiências foram essas? 

“Trabalhei muito em organizações internacionais, das Nações Unidas, sobretudo a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), mas como consultor, nunca fui quadro da FAO. Aproveitei uma janela aberta naquela altura, porque havia muitos pontos quentes e é em África onde a FAO tinha projectos, mas os grandes consultores, aqueles de renome mundial não queriam ir. Nós não nos importávamos, foi assim que fui parar na Eritreia, Sudão, Etiópia, locais um bocado quentes e em algum momento fui a Cabo Verde, enfim, fiz coisas para as Nações Unidas, USAID, Bando Mundial. Aqui dentro também fiz coisas para o próprio Governo, mas contratado por Embaixada ou uma organização e nessa altura visitei muitos países e o último onde estive foi a África do Sul, durante cerca de quatro anos. Da África do Sul cobria toda a zona da SADC. Aprendi muito a conhecer a viver o mundo, como é que a mesma regra é interpretada num e noutro sítio, como é que as pessoas sobrevivem. Em países como Cabo Verde, por exemplo, impressiona muito, é um país que não tem água, mas sobrevive e insiste em querer fazer agricultura e estão a andar mais ou menos bem. Fui para estas experiências saindo do Ministério da Agricultura, onde tinha sido vice Ministro”.

Três anos e meio o tempo que Paulo Zucula trabalhou para as Nações Unidas implementando o pré-programa e seguiram-se outras missões”.

O regresso ao Aparelho do Estado surge a convite do Presidente Armando Guebuza, que já o conhecia. Para além de Chókwè, tinha cruzado com ele no Niassa.

“Quando eu estava lá ele visitou Unango várias vezes, onde eu era dirigente de uma empresa, e muitas das pessoas da operação produção foram lá parar. Cruzamo-nos várias vezes, interagimos, falamos, teve uma influência em mim. Então, quando ele me convida, eu estava no Sector Privado. Convidou me para trabalhar nas Calamidades. De facto não diria que foi um convite, me lembro da conversa dele dizendo: olha, eu tenho um problema, no Instituo Nacional de Gestão de Calamidades. Há percepção de que esta instituição é corrupta, não faz nada, está sempre de mão-estendida, eu queria alguém que me ajudasse a transformar aquilo numa instituição que sabe transformar o desastre numa oportunidade. Quando um Chefe de Estado diz que está a pedir ajuda (risos) é uma honra e difícil negar, acabei aceitando, apesar de me tirar do mundo rosado, das consultorias externas, gostei e não me arrependi. Trabalhamos juntos e acho que conseguimos uma grande parte daquilo que era o sonho dele. Só que depois disso não me deixou ir embora, colocou-me nos Transportes e Comunicações embora fosse por pouco tempo, acho que era por 20 meses. Tinha acabado de haver uma manifestação muito grande na cidade de Maputo, por causa de autocarros, também havia o problema das negociações do carvão que não aconteciam, havia o problema da LAM. Então convidou-me para ver se naqueles 20 meses, não que fosse resolver os problemas, mas desenhar uma estratégia que levasse à resolução dos problemas”.

É este Moçambique com que sonhou quando passou por aquelas fases eufóricas?

“Não, claramente que não é, mas isso por si só não é frustração, porque não há nenhum plano que é implementado tal e qual. Nós tínhamos sonhado com um Moçambique mais rosado, tínhamos feito um caminho para chegar a esse local, mas o contexto internacional, o contexto mundial, as guerras, não sei mais o quê, não deixaram, mas sobretudo o capitalismo não deixou. O capitalismo não admite outra forma de pensar e essa é a contradição do capitalismo, que apregoa a democracia, dizendo que a opinião divergente é bem-vinda, mas quando a opinião divergente se chama socialismo, eles não perdoam. O “apartheid” não deixou, maltratou-nos bastante, o racismo não deixou, foram vários inimigos criados naquela altura, o racismo da África do Sul, da Rodésia, o capitalismo mundial, os próprios americanos, os ingleses, todos eles não deixaram que construíssemos aquele sonho rosado, não só em Moçambique, caiu tudo. Provavelmente isso iria cair doutra maneira, porque se calhar é o contexto que não permitia, mas talvez não fosse preciso passarmos por tanto sacrifício, por tanto sangue, por tanta destruição. O que hoje me frustra mais, alguns dos nossos valores que me parece estarem a desaparecer, mas talvez é por causa da cidade, não vejo o que se passa lá fora, é a questão da soberania, a capacidade de nós tomarmos as nossas decisões, parece que mingua aos poucos. Há vozes de doadores, de embaixadores, que vêm a público apontar dedo, impor, já nem sequer de forma diplomática de fazer negociação, é dizer não, vocês têm de fazer isto, senão isto não acontece. E isso sempre foi feito, mas foi feito mais com um bocadinho de respeito a certos valores, à soberania. Isso me entristece muito, posso estar completamente enganado e gostava muito que estivesse enganado, mas não gosto de ver a minguar a nossa habilidade de tomar decisões internas, de resolver os nossos problemas internos sozinhos. Nós tivemos tantos problemas, a nível do partido, desde Mondlane, de assassinatos, de mortes, de traição, tantos outros, e o partido resolveu, e quando hoje se diz que para resolver isto é preciso ir pedir licença, dói um pouco, espero que esteja enganado. A segunda questão é de solidariedade. A solidariedade era muito maior naquela altura. Não era solidariedade só por causa das cheias. Era solidariedade por causa do funeral e de muitas outras coisas. Também a questão que referi de valores e preço, hoje as coisas têm mais preço do que valor. O dinheiro conta tanto hoje, parece que o dinheiro é o único valor que ficou. Estou muito convencido que as coisas não sejam iguais no meio rural, mas verdade seja dita: as cidades influenciam o campo. Se a cidade cresce torta, vai influenciar o campo a crescer torto”.

Tem alguma frustração com algum processo de desenvolvimento do país?

“Toda a nossa matriz de desenvolvimento tem coisas que eu não concordo com eles. E não é só não concordo, é que é tudo repetitivo, tentar sempre seguir o mesmo caminho, depois voltar para atrás, depois repetir, assim sucessivamente, e não aprendermos que esse caminho não está certo. Por outro lado, ter modelos. Esta questão de pessoas que morrem à fome, há tanto tempo, porque estamos a tentar seguir modelos. Nós estamos a correr atrás do prejuízo enquanto estivermos a seguir modelos, porque os modelos mudam. Quando você chega àquele modelo alguma coisa já mudou. A revolução agrícola na Europa não é aquela dos fertilizantes, etc. quando estava a acontecer na Europa nós nem ouvíamos falar que existem fertilizantes, ficamos atrás dos fertilizantes e agora que podemos falar de fertilizantes a Europa diz que não, já não queremos nada fertilizado. Queremos comida orgânica. Já fizemos comida orgânica. Estamos atrás de modelos. Na questão de infra-estruturas estamos também no mesmo ciclo vicioso. Fala-se tanto da falta de infra-estruturas e quando se começa a edificar essas infra-estruturas manda-se parar, alegadamente porque o Estado está a pedir dinheiro demais. Você imagina, se tivermos que ficar à espera de auto-estradas e pontes em Moçambique, que agradem, para iniciar o desenvolvimento, não vamos chegar lá. Temos que fugir um pouco desse modelo. Agora estamos a discutir gás, petróleo, mas ao mesmo tempo já estão a dizer que até 2030 temos que ter carros eléctricos! Então o teu gás e o teu petróleo vão durar quanto tempo? Essas coisas frustram bastante. Ter modelos na cabeça e seguir modelos na cabeça e ignorar caminhos que deveriam ser mais endógenos, internos, pensados, para mim seria realístico, como se vê na Ásia. Se não me engano, a guerra do Vietname acabou mais ou menos na mesma altura com a de Moçambique e o Vietname estava mais destruído do que Moçambique, já estive lá duas vezes, eles aparentam serem muito mais desenvolvidos do que nós. E tu quando cavas um bocadinho vês muito trabalho endógeno, interno, que recusou seguir modelos construídos que deviam seguir. Ainda hoje vão buscar coisas de fora mas como referências e não como modelo. Queremos fazer de Tete igual a Nova Iorque. Temos de procurar sermos mais tomadores das nossas decisões próprias, sem nos isolarmos, tomando os conhecimentos de fora como referências, não como doutrina.

Obra realizada 

Paulo Zucula alternou a vida profissional entre o Estado, onde dedicou maior parte do tempo, e o Sector Privado, em ambos os casos ou como líder ou como técnico, emprestando a sua inteligência para o desenvolvimento do país.

Com muita modéstia à mistura, Zucula ironiza que foi com muitas falhas (?), com muitos erros (?), mas também com aquilo que ele chama de modestas contribuições, mais aprendizagem que contribuições. “Eu diria que a minha experiência foi mais de aprendizagem própria do que de ensinamento, mas em todo o caso há pequenas coisas que me orgulham”.

Exemplifica com a sua passagem pela região histórica do Unango, na Província do Niassa, onde afirma ter aprendido muito de agricultura com os camponeses, “mas Unango era um desafio”, recorda.

Unango era uma empresa cujos trabalhadores eram tidos como criminosos. A ideia era reeducar as pessoas pelo trabalho e “apesar de se falar mal do Unango, acho que só as pessoas que não estiveram lá, nem têm nível crítico positivo podem falar assim, porque comparar criminosos a presos em produção, em campo aberto, com criminosos fechados, nas celas, que é o que fazemos hoje, eu não tenho dúvidas nenhumas que o trabalho liberta mais as pessoas do que o encarceramento total.

Há dois anos tive o privilégio de voltar para o Niassa e para Unango, convidado para ir testemunhar algumas coisas, algumas sementes que foram plantadas naquela altura, e fiquei emocionado, primeiro por saber que está lá a Faculdade de Agronomia, que foi pensada nessa altura. Dois, encontrar alguns desses “criminosos” da época, encontrar os filhos deles na Faculdade. Encontrar a eles, uns ainda a trabalharem na agricultura sozinhos, outros a trabalharem no Estado, até encontrei um que é Secretário Permanente, e tivemos uma grande conversa. Foi emocionante ver que aquelas pessoas, de facto, voltaram à vida livre e estão a produzir. Isto acho que foi uma contribuição positiva. Mas já naquela altura a nossa empresa bateu recordes de produção, com enormes rendimentos de milho e feijão. Até fomos premiados com medalha na altura chamada “Herói Socialista de Trabalho”, e eramos das poucas empresas estatais que não tinha dívidas operacionais. A gente pagava as dívidas ao BPD (Banco Popular de Desenvolvimento). O investimento era um bocadinho mais complicado, porque não era controlado por nós.

A minha passagem pelo Ministério da Agricultura coincidiu com o período do Programa de Reabilitação Económica, PRE, e o grande trabalho que tivemos nessa altura, tempo de guerra, era um bocadinho complicado. Era difícil fazer quase nada fora de emergência, mas fizemos aquela operação de transformação das empresas estatais de uma forma rigorosa e rápida e pela primeira vez se fez um trabalho que se tentou que fosse um trabalho de empoderamento dos empresários nacionais. Alguns resultados ainda estão ai, como na zona do Limpopo estão lá a produzir. Obviamente que não estão a produzir nos mesmos padrões das empresas estatais, mas estão a produzir em padrões melhores do que eles próprios produziam anteriormente e foi na mesma altura que a gente consolidou o Serviço de Extensão do país.

O sector dos Transportes e Comunicações (onde foi Ministro) foi muito desafiador, em termos de trabalho, mas conseguimos mobilizar, no período em que lá estive, entre USD 10-15 biliões de investimento em infra-estruturas, e mobilizados sem endividar o Estado, com base na parceria público-privada. Antes, todas as linhas férreas tinham orientação Este-Oeste, mas as linhas do sul não ligam com as do centro, as do centro não ligavam com as do norte, e era nosso sonho fazer essa ligação e nessa altura conseguimos ligar o Centro com o Norte. Hoje pela primeira vez pode-se viajar da Beira para Nacala, o que não era possível antes. É verdade que se passa por Malawi, havia uma pequena queixa sobre isso. Reabilitamos infra-estruturas de transportes que estavam precisando, a exemplo de alguns aeroportos. Hoje a gente já não se lembra da imagem do que era o aeroporto de Maputo, há 15 anos, o aeroporto de Vilanculos (Inhambane), o aeroporto de Pemba (Cabo Delgado). Essas foram algumas pisadelas por onde eu passei, pelas quais tenho orgulho.

Nas calamidades (Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, INGC), transformamos uma instituição que era percebida como corrupta, inefectiva, e pedinte, que não tinha reacção própria, não tinha credibilidade, transformamos numa instituição creio que ainda é credível, mais se acredita hoje no INGC, não fica à espera de mão estendida dos doadores para agir, age, e age com uma certa eficiência e sobretudo envolvemos as comunidades no combate às calamidades naturais pela criação dos comités de gestão local, que hoje são um dos pilares do INGC.

Mesmo no Sector Privado, por exemplo quando estive na África do Sul, fizemos o Corredor de Maputo, trouxemos pela primeira vez (e hoje toda a gente diz que não é nada porque se fala em muitos biliões de dólares), mas naquela altura quando trouxemos a Mozal aqui, acho que o projecto todo andava entre USD 1-2 milhões. Naquela altura era muito dinheiro e ainda é, mas prontos, está ai, está a funcionar, alterou um pouco o Corredor de Maputo, em termos de funcionamento da fronteira, estradas, manutenção de estradas, a MOTRACO, a energia, e participei nesse trabalho do lado da África do Sul, na parceria Moçambique-África do Sul, e está ai a pisadela, obviamente que não fui eu, estou a dizer que contribui, em tudo isso contribui mais do que fiz.

Portanto estas são algumas das coisas que poderia aqui indicar, que apesar de modestas, me enchem de orgulho, mas consciente de que houve mais aprendizagem e mais erros do que resultados positivos”.

Tempos livres

Exercícios, leitura e escrita. “Também faz parte do meu hobby, gosto muito do mar, não consigo fazer mergulho, mas de ver peixinhos, quando posso pescar, nadar e gosto muito de viajar conhecer outros sítios e participar em conferências, não como trabalho, mas gosto de participar em certos seminários, sobretudo aqueles que gostam de discutir coisas pragmáticas. Tenho muitos amigos, a gente senta muito, conversa, lê, comenta e tal, esta portanto é mais ou menos a minha vida privada: socializar, ler e escrever”, finalizou, Paulo Zucula. (x)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here