Início Editorial Sem paninhos quentes

Sem paninhos quentes

158
0
COMPARTILHE

Moçambique vive períodos muito especiais, com o pensamento de quase todos a convergir no que os pleitos eleitorais que se avizinham nos reservam, sendo indisfarçável a expectativa até exacerbada.

Na história dos pleitos eleitorais pluripartidários estas serão sem dúvidas as eleições mais importantes, pelo contexto muito especial que o país vive, um contexto de dificuldades principalmente para as maiorias desfavorecidas, entretanto com enorme peso no voto.

Não cremos que as dificuldades crescidas sejam apenas para a Frelimo pelo facto de como Governo de dia a ela caber resolver os problemas que afectam a sociedade e uma vez mais tornar-se atractiva para os eleitores, como foi em ocasiões anteriores. Outros concorrentes terão igualmente as suas dificuldades, que essencialmente se prendem com a necessidade de provarem ao eleitorado, que são de facto a alternativa viável, com trabalho concreto, longe de violência e de promessas falsas perante um eleitorado pensante.

O contexto do país, marcado por dificuldades até básicas, não pode ser assumido tacitamente como mecanismo de garantia de alternância. Há muitos outros factores a ter em conta, que os outros concorrentes terão de ter em conta, havendo muito trabalho a realizar.

A pensar nas eleições, o Presidente da Frelimo, Filipe Nyusi, também Presidente da República, tem abordado o contexto do país sem esconder as dificuldades e apela aos seus camaradas a faze-lo igualmente com realismo e pragmatismo. Aliás, a história da humanidade ensina-nos que só conhecendo o passado e o presente podemos pensar melhor no futuro. Tentar esconder que o país passa dificuldades extremas seria uma fatalidade total, porque o eleitorado, esse encarregar-se-ia de fazer melhor julgamento.

Da actual situação política, económica e social do país, Nyusi destaca o que chama de questão que mais preocupa aos moçambicanos, o custo de vida e qualifica os pleitos de batalhas eleitorais de 2018 e 2019.

Para Nyusi, a Frelimo não se faz de vítima, mas sim transforma os desafios em oportunidades para resolver os problemas e conclui exemplificando que o resultado da eleição intercalar de Nampula coloca à prova a capacidade do partido no poder de enfrentar e vencer os próximos pleitos eleitorais.

O Presidente da Frelimo não esconde que as Eleições Autárquicas de 2018 e as Eleições Gerais Legislativas e Presidenciais e para as Assembleias Provinciais de 2019 poderão ser realizadas dentro de um quadro, constitucional e legal, marcado pelo novo modelo de descentralização e numa conjuntura adversa para o seu partido.

“Por isso, as próximas eleições representam um grande desafio, mas também, uma oportunidade ímpar para a FRELIMO demonstrar, mais uma vez, a sua capacidade de vencer grandes batalhas”, sublinha Filipe Nyusi.

As eleições autárquicas vão trazer indicações sobre o que se pode esperar nas Eleições Gerais de 2019.

Arriscamos a admitir que os dois pleitos serão extremamente difíceis para o partido no poder, que terá de se reinventar e reencontrar-se no curto espaço de tempo que nos separa dos dois sufrágios.

Mesmo que não se queira assumir, é uma verdade inegável que a Unidade que levou a Frelimo a conduzir com sucesso e conquistar a Luta Armada de Libertação Nacional anda muito longe do partido libertador.

Foi a falta de coesão interna que determinou a perda pela Frelimo, dos municípios da Beira, Quelimane, Nampula e Gurué. A falta de coesão verificou-se precisamente na escolha dos candidatos, em que os interesses individuais acabaram imperando em detrimento dos interesses do Partido, desde as eleições autárquicas de 2003. Na altura não se quis dar ouvido à voz da razão e os resultados não se fizeram esperar.

Nas próximas eleições a Frelimo vai enfrentar desafios acrescidos, pois terá de lidar com um eleitorado passando dificuldades extremas, hoje sem hipótese de esconder o elevado nível de insatisfação. Cabe à Frelimo, como partido no poder, encontrar estratégias que conduzam à solução dos problemas ou desafios, mesmo perante adversidades de vária ordem.

Os acontecimentos recentes revelam que já não basta a aposta em máquinas de propaganda sofisticadas. Haverá que fazer muito mais em matérias de trabalho que se reflectia nos bolsos do eleitorado. Os resultados desfavoráveis nos municípios acima citados não se deveram à falta de propaganda, mas sim de outras coisas de fundo que a Frelimo deve atacar, se quiser manter-se no poder.

A Frelimo precisa de trocar a ostentação com valores humanistas em que moram a humildade, sobriedade e voltar a conquistar o coração das bases desencontradas. Esconder esta realidade é prejudicar o próprio partido e facilitar a vida do adversário. Não se pode disfarçar o défice de presença efectiva nas bases, onde se está presente, não é como já esteve noutros tempos! As bases não são somente do meio urbano. O meio rural tem uma importância extraordinária, sobretudo em Eleições Gerais, face ao número de eleitores que alberga. Estima-se que cerca de setenta por cento da população vive no meio rural entretanto negligenciado, não interessa se intencionalmente ou não.

O descontentamento exacerbado no sector público, com a educação e saúde como espelho, multiplica-se por milhares de famílias espalhadas pelo país fora, os votantes. Os funcionários nunca entre eles deixaram de se queixar dos atrasos sistemáticos dos baixos salários, falta de integração nas devidas carreiras, etc. etc. e já se tornou quase comum ouvir “vamos ver nas próximas eleições, porque nós é que votamos”.

E é um quadro sobre o qual não há conhecimento real, pois em fórum próprio as pessoas não falam, com o medo de “ofenderem” os que não gostam de ouvir verdades, ou serem mal entendidas e preferem ficar pelo mais fácil, que é polir e agradar. As pessoas ficam pelos murmúrios, que por sinal têm carácter malicioso.

Se quiser sair vitoriosa nos próximos pleitos, a Frelimo terá de vestir fato-macaco, descer às bases e tentar arrancar o que mora no íntimo do eleitorado e seus próximos.

Este conhecimento permitirá pensar em estratégias concretas para soluções que minimizem o descontentamento das massas populares.

De contrário, não haverá discurso que convença aqueles cujo início do dia representa mais uma incerteza sobre que comer, para não falarmos de outras necessidades básicas, como levar o filho ao hospital, escola, etc.

No lançamento das celebrações dos 50 anos do II Congresso, o antigo Presidente da Frelimo e da República, Joaquim Chissano, falou de traidores, exemplificando com os membros que se recenseiam mas não vão votar. Já se tornou normal, em processos eleitorais, a Frelimo conseguir número de votos muito aquém do número de membros de um determinando círculo. O que é que haverá por detrás deste fenómeno?

Ainda bem que o Presidente do Partido, Filipe Nyusi, apela aos seus camaradas para abordarem o contexto do país sem esconder as dificuldades, ou seja, com realismo e pragmatismo, sem paninhos quentes. (x)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here