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Contrastes interessantes no BRICS

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A família do BRICS, as cinco economias emergentes do mundo (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), está a passar por momentos de alguns contrastes interessantes.

Se por um lado temos a Rússia e a China a reforçarem e a consolidarem as respectivas lideranças, por outro, temos o Brasil e a África do Sul com os respectivos sistemas judiciais por cima dos antigos presidente Luís Inácio Lula da Silva e Jacob Zuma, respectivamente. A Índia continua imune a estas dinâmicas.

Vale isto recordar que o BRICS nunca foi um conjunto uniforme como países. A China, Rússia e mesmo a Índia são países de tradições milenares. Temos de um lado a Rússia com os czares e do outro a China com um regime muito ligado aos seus próprios reis, com uma cultura muito forte e uma pirâmide também muito sólida.

Por sua vez, países como o Brasil e a África do Sul são democracias, sendo que na terra de Nelson Mandela estamos perante um projecto ainda em construção. O Brasil já leva uma democracia madura, mas nem por isso ultrapassou o estatuto de país enraizado em desigualdades e crenças que impedem algumas mentes de se abrirem e com muitos adeptos das desigualdades.

Na Índia encontramos a grande democracia mundial, multicultural, multirreligiosa, entretanto um país em que a democracia sempre foi um desafio, porque também se baseia muito nas castas e nas religiões.

É deste quadro que emergem acontecimentos muito interessantes na família do BRICS, em que países com um eixo central muito forte (Rússia e China) cresceram enormemente nas suas economias. A Rússia passou de um rendimento per capita de USD 400 biliões para USD 2,1 triliões, um crescimento económico quase 6-7 vezes nos últimos 10 anos, tendo à cabeça o Presidente Vladimir Putin. A China é o que todos sabemos.

Países de forte crescimento económico precisam de uma grande liderança. A China e a Rússia percebem aquilo que tem sido pouco perceptível noutros países, embora se tratando de uma mensagem muito forte.

Uma liderança que gera um grande crescimento claramente não precisa de ser trocada. A Rússia e a China entenderam este imperativo e transformaram-se de modo a garantir que haja crescimento, desenvolvimento e eliminação da pobreza, e que em consequência os dois países

sejam de avanço tecnológico industrial e comercial mundial. Esta é a única e grande razão da Rússia e a China terem consolidado e terem conferido aos respectivos líderes, muito mais anos de poder, porque a sua liderança gerou um grande crescimento e uma grande riqueza, ganhos que devem ser mantidos. Com este entendimento não se pode fazer democracia de mudanças por mudar, porque é maior o risco de uma má opção, numa eventual mudança.

Quanto à África do Sul encontramos uma pequena diferença, pelo facto de se tratar de uma democracia relativamente recente, consubstanciada na participação da população, mas vai passando por momentos tumultuosos, com a sua economia a atravessar um caos, o desemprego está em alta, idem o crime e a corrupção.

O país de Nelson Mandela tinha opções entre transformar-se muito rapidamente e radicalmente, ou estava condenada a tornar-se mais um país africano, mais uma independência falhada.

O Brasil é um país das desigualdades muito enraizadas, com uma história de escravatura, dos paraíbas, do Norte e do Sul, dos alemães e dos polacos no sul, os descendentes, que se pensam superiores aos descendentes africanos e portugueses do norte e do nordeste. Trata-se de uma luta de classes, que hoje tem como vítima o antigo Presidente Luís Inácio Lula da Silva, enquanto na África do Sul o antigo Presidente está abraços com efeitos de uma crise de um elevado índice de corrupção e de desgoverno.

Até à saída forçada de Jacob Zuma, a África do Sul estava em decadência e impunha-se salvar a economia. Hoje, o Presidente Cyril Ramaphosa tem a difícil missão de resgatar a caminhada da África do Sul rumo ao desenvolvimento. Sabe-se que de longe a África do Sul ostentava a economia líder em África. Entretanto quedou-se para terceira economia do continente, atrás da Nigéria e do Egipto.

Quer dizer, a África do Sul enfrenta o problema de crescimento económico e de corrupção, diferentemente do Brasil, que começou o grande crescimento com o Presidente Fernando Henrique Cardoso, mas claramente teve em Lula da Silva o crescimento inclusivo de maior escala. Ora, um crescimento inclusivo num país com tradições de desigualdades e de lutas de classes não é bem visto pelas classes que se acham superiores.

O que está a acontecer hoje no Brasil é cópia do que aconteceu com o Presidente Evo Morales da Bolívia, mesmo reconhecendo que este é um índio indígena, uma qualidade de contestação. Já no Brasil, o antigo Presidente Lula, mesmo sabendo-se quem ele é, tem a

virtude de pertencer a uma classe trabalhadora e as elites não o aceitam e não olham sequer para aquilo que Lula realizou como obra nobre.

O Brasil teve o seu maior crescimento e inclusivo com menos problemas sociais e com menos instabilidade social na era do Presidente Lula, que logrou tirar 20 milhões de brasileiros da pobreza. Com Lula, os brasileiros tinham sonhos e aspirações, e os ricos nunca fizeram tanto dinheiro como fizeram com Lula. Para os ricos este sucesso não consola. Não é aceite que alguém que seja de uma casta inferior governe uma casta superior.

O Brasil não está a viver uma luta pelo resgate da economia como está a acontecer na África do Sul, mas sim uma luta de classes. Se a África do Sul estivesse num bom caminho não teria havido problema algum com Zuma, continuaria numa boa. No Brasil o estar no bom caminho não é tudo. O que se pretende é que quem esteja em frente seja da sua classe.

Constata-se no entanto que a família do BRICS, no seu todo, não ficará afectada com os acontecimentos nos países membros menos Índia. O BRICS tinha como grande valor comum a liderança nos blocos regionais.

Com a criação dos blocos regionais dos países emergentes na Europa, Ásia, África e na América Latina, os líderes iriam juntar esforços, criando inclusivamente um banco de desenvolvimento para o apoio ao crescimento dessas economias. Hoje estamos perante uma perspectiva quase ultrapassada.

A génese do BRICS alterou-se, porque alguns dos países saíram do jogo, como a África do Sul, enquanto o Brasil está numa situação em que não pode estar no jogo, com uma instabilidade política enorme. Enquanto outros países (Rússia e China) consolidaram o Brasil fragilizou-se consideravelmente. Reter um parceiro que pode contaminar os outros não é bom. Contudo, todo o propósito inicial do BRICS prossegue, mas o propósito dos países que o compõem mudou muito. (x)

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