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Dívida que Dlhakama não saldou

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Em vida, o líder da Renamo, Afonso Dlhakama, teve inúmeras oportunidades de saldar uma dívida que com a sua morte, fica para sempre, perante a sociedade e o mundo.

Escrevemos em ocasiões anteriores, que Afonso Dlhakama e a Renamo não tinham absolutamente algo a provar relativamente à sua capacidade de conduzir uma guerra de guerrilha prolongada e das mais mortíferas e destruidoras que alguma vez a humanidade conheceu.

Afonso Dlhakama morre quando ainda enfrentava apenas o desafio de provar aos moçambicanos e ao mundo inteiro, que também tinha capacidade de se conformar com o ordenamento jurídico do país, conduzindo qualquer processo reivindicativo recorrendo a instituições que ele próprio ajudou a criar, em detrimento da violência. Lamentavelmente, até ao último suspiro, Afonso Dlhakama não deu provas, em termos práticos, de capacidade de emprestar a Moçambique uma paz efectiva e definitiva, salvo em discurso de ocasião e conveniente.

A paz efectiva e definitiva dependiam só de Afonso Dlhakama e da Renamo, e enquanto o líder viveu não logrou afastar quaisquer dúvidas sobre a sua capacidade nesse sentido. Nenhum outro actor tinha força suficiente para alterar a vontade de Dlhakama, sendo que as coisas só podiam seguir o rumo que ele traçasse e desejasse, e foi assim, até ao último minuto da sua vida. Se dependesse dos outros actores Moçambique já estava em paz e mesmo ele teria morrido deixando um país em paz efectiva e definitiva, em plena prosperidade.

Demos o benefício da dúvida de que no processo do diálogo a alto nível com o Presidente da República, Filipe Nyusi, Afonso Dlhakama ia a tempo e provar, que como qualquer ser humano, podia mudar e aceitar viver conforme a lei que ele próprio ajudou a criar e aprovar. A lei da natureza não quis que assim fosse, e Afonso Dlhakama partiu deixando a dívida eterna de nos convencer de que também amava a paz, isso traduzido não só em palavras como em actos concretos, de ausência total de violência de qualquer índole. Simplesmente lamentável.

Afonso Dlhakama parte levando consigo o benefício da dúvida de que nem sempre viveu de vontade própria. Forçado ou não, não conseguiu livrar-se de agendas externas hostis a

Moçambique, que sempre cumpriu com o máximo de fidelidade, zelo e dedicação, activando, desactivando e reactivando a máquina de guerra, sempre que desejou.

A morte de Afonso Dlhakama deixa-nos, por outro lado, duas incógnitas, relativamente ao futuro da Renamo e da contribuição do partido armado para o futuro de um Moçambique de estabilidade total, sem partidos armados, conforme reza a lei.

São oportunidades nobres para quem vai suceder a Afonso Dlhakama, pelo rumo que vai desejar seguir. Ou prosseguir a via belicista ou pacifista, sendo que qualquer das escolhas conduz à colheita de loiros, variando a cor ou o sabor.

Não cremos que o futuro da Renamo passe pela manutenção da visão do líder que partiu para sempre, lamentavelmente. Difícil é imaginar uma sucessão interessada em fixar residência na serra da Gorongosa, comandando uma máquina mortífera para asfixia total do país. O mais credível é a reedição dos acontecimentos de Angola, onde a morte de Jonas Savimbe devolveu a paz total ao país. Infelizmente a vida humana é feita também de coisas em que a perda de uma vida leva a bom porto. Ninguém desejou nem desejava a morte de Afonso Dlhakama, pelo menos a nível das lideranças a alto nível, a partir da era do Presidente Joaquim Chissano.

Mesmo na serra da Gorongosa, quando foi necessário flexibilizar a mobilidade de Afonso Dlhakama, por razão de saúde ou outras, não faltou a ordem para aliviar o cerco, num claro desejo de ver o líder da Renamo continuar vivo. Aliás, o Presidente da República, Filipe Nyusi, confessa-se deprimido pelo facto de não ter podido ajudar a salvar a vida de Dlhakama e lamenta, acima de tudo, que não tenha sido informado em útil paga agir com sucesso. O estado de saúde de Dlhakama degradou-se, mas quem devia ter comunicado para as devidas diligências a alto nível não o fez. Quando Nyusi tomou conhecimento já era tarde demais. Será que alguém, de dentro da própria Renamo, desejou a morte de Afonso Dlhakama? TPC para dentro da própria Renamo, com contas a prestar aos moçambicanos, porque Dlhakama já não era somente da Renamo.

Sobre o caminho a seguir na era sem Dlhakama dentro da Renamo e tendo em conta os interesses soberanos da Nação inteira, se pacifista ou belicista, a decisão vai exigir imenso da Renamo, porque vai representar uma grande viragem na história do que agora se pretende seja, de facto, um partido político, e não uma máquina de guerra. O que pode aparentar ser

difícil até pode vir a provar-se que foi o mais fácil, porque afinal a vontade política é a mãe de todas as batalhas.

Uma escolha diferente da via pacifista está precocemente condenada a um fim trágico, que não se deseja para ninguém. Um desafio tremendo para os que agora ficam na Renamo.

Não se pode ignorar que são muitas as almas que sempre fizeram do líder uma máquina para a satisfação de apetites. Não são poucos, dentro da própria Renamo, que desejaram mal a Afonso Dlhakama, para colher dividendos. São pessoas cujas vidas só podiam realizar-se apenas quando Dlhakama estivesse em parte incerta, em condições inóspitas. Para essas pessoas a saída de Afonso Dlhakama da parte incerta para o convívio com a família e com a sociedade moçambicana significava fazer secar a fonte.

Essas pessoas podem hoje estar a chorar, mas o que derramam não passará de lágrimas de crocodilo, pois não estarão a sentir pela partida do líder, mas sim pelo futuro das suas vidas, no que à fonte de sobrevivência diz respeito. Fizeram do sofrimento de Afonso Dlhakama nas matas, uma máquina de fazer riqueza e agora têm a gigantesca tarefa de identificar outras formas de sobrevivência.

No que ao país diz respeito, antevemos um futuro em que o epicentro da manifestação da diferença de opinião são as instituições legalmente estabelecidas. Ganharão os partidos políticos, os moçambicanos, a democracia e todos os actores do bem.

Que a sua alma descanse em Paz, Afonso Dlhakama! (x)

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