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Açucareira de Xinavane empobrece pobres (2)

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A Açucareira de Xinavane é acusada de usurpar terras de centenas de camponeses, que em consequência ficaram sem onde produzir para a sobrevivência.

Angelina Djimissi Mambuza, reside no círculo Chichuco, Distrito de Magude, Província de Maputo, diz que viu as suas terras agrícolas invadidas pela Açucareira de Xinavane, sem prévia conversa. “Este é o nono ano consecutivo depois que nos tiraram as terras. Há alguns coniventes que não os conhecemos, que engordam à nossa custa”.

Segundo Angelina Mambuza, as comunidades não se opõem à actividade da Açucareira, reclamam apenas integração no processo produtivo, de modo a receberem alguma compensação anualmente, à semelhança do que acontece com outras comunidades integradas. Ela defende que a compensação deve ter efeitos retroactivos a 2008, ano da invasão das terras.

Por sua vez, Carolina Maolela, nativa da zona de Maolela, abrangida pelo conflito, revela que depois da usurpação das suas terras pela Açucareira de Xinavane, as comunidades ficaram sem onde produzir comida. “Queremos que a Açucareira continue a produzir a sua cana, desde que sejamos ressarcidos das terras perdidas. A Açucareira deve nos dar a nossa parte. Exigimos uma convivência sã, o que passa por justiça para todas as partes”, disse Carolina Maolela.

Carlos André Matlava, residente de Maolela Chichacanduco, acusa o antigo Administrador do Distrito de Magude, Zeferino Cavele, de ser o mentor da usurpação. “Foi Zeferino Cavele que trouxe a Açucareira de Xinavane. Dissemos a ele na altura que nos opúnhamos à entrega das nossas terras, porque é nelas onde produzimos comida. Estas terras são tudo para as nossas vidas. Comemos, vamos ao hospital, mandamos os filhos à escola, compramos roupa, sal e outros produtos manufacturados, produzindo nestas terras. Perguntamos a ele qual seria o nosso futuro se ficássemos sem as nossas terras. Zeferino Cavele respondeu que quer queiramos queira não, o Governo tira-vos a terra”.

Segundo Carlos Matlava, o antigo Administrador prometeu que quer a Açucareira quer as comunidades tirariam benefícios da mesma terra, desta feita explorada pela multinacional. Prometeu igualmente que a terra passaria a ser explorada em moldes que salvaguardariam o futuro das crianças das comunidades.

Nas palavras do antigo Administrador, segundo ainda Carlos Matlava, a entrega das terras à Açucareira era prenúncio de geração de empregos, que por sua vez desencorajariam emigrações para a vizinha África do Sul, onde muitos moçambicanos trabalham alegadamente em condições deploráveis.

“Passados cerca de nove anos, nem empregos, nem comida, nem outro benefício. Assistimos apenas a estrangeiros virem trabalhar nas nossas terras. Quando reclamos recorrem a forças de Defesa e Segurança para correrem connosco”, denunciou Carlos Matlava, acrescentando que nas terras produziam milho, mandioca, hortícolas, batata-doce, entre outras culturas.

“Quando cá vieram destruíram as nossas culturas e factores de produção como charruas, enxadas, vedação metálica, entre outros, que a Açucareira de Xinavane não nos deu tempo de tirar. O nosso gado está a morrer por falta de pastos e água, apesar de terem prometido construir represas”, frisou.

Francisco Joaquim Mudlovo, da zona de Chichachanduco, no regulado de Chichuco, contou que as máquinas (buldózer) da Açucareira de Xinavane entraram nos campos a coberto da noite para desbravarem as terras usurpadas. As comunidades entraram em pânico sem saber para onde correr. “Aproximamo-nos ao Administrador Cavele, com quem não nos entendemos. Há comprometidos, em número de cinco, que forjaram e viabilizaram DUAT (Direito de Uso e Aproveitamento de Terra) a favor da Açucareira de Xinavane. Ainda hoje estamos a tentar identificar esses comprometidos. Eles têm de nos explicar com quem trataram o DUAT, porque as autoridades, a vários níveis, dizem não reconhecer tal expediente. O que deve ficar claro é que não estamos a exigir as terras de volta, mas sim a integração no sistema produtivo”.

Segundo Mundlovo, o processo reivindicativo dura há cerca de oito anos e as comunidades vêm-se obrigadas a vender o seu gado bovino e caprino para custear as despesas inerentes ao processo reivindicativo. “A Açucareira deve ressarcir-nos dos oito anos de inactividade, culturas e factores de produção destruídos. Infelizmente todos os representantes do Estado indicados para dirimir o nosso conflito são aliciados pela empresa e fazem julgamento parcial favorecendo o Incomáti (Açucareira de Xinavane). Mas o Incomáti não tem culpa, alguém ofereceu as nossas terras, pois sem aval do Governo não teria invadido as nossas terras”, disse. (continua)

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