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Preço de reconciliação

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 Assiste-se em Moçambique as mais diversificadas iniciativas, fundamentalmente do Governo, desde a proclamação da independência, com o intuito de reconciliar a família moçambicana.

São iniciativas que têm como fim conseguir que os moçambicanos vivam em paz definitiva e sustentável.

Mau grado que os resultados tardam a aparecer, não interessa o número de acordos já assinados nesse sentido. O que é um facto é que esses acordos têm um preço altíssimo, chegando a custar a violação da norma, pelo menos moral.

Viu-se isto no processo do último adeus ao líder da oposição. Em vida, Afonso Dlhakama em momento algum se identificou com algum acto do Estado, muito menos com os símbolos também do Estado. A única bandeira que reconhecia é do seu partido, Renamo.

Negou tudo quanto era oferta ou reconhecimento da sua figura por força da lei, como do estatuto de líder da oposição, por mérito próprio, em virtude de a Renamo a que presidiu até à maldita morte, ser a segunda maior força no Parlamento. Não se reviu com o estatuto de membro de Conselho do Estado, por isso nunca chegou a tomar posse.

Tendo perdido a vida, o Governo decidiu esquecer tudo quanto Dhlakama foi no capítulo de inconformismo e puxou da lei para conferir (legitimamente) ao líder da oposição, um funeral oficial, com a urna coberta de bandeira nacional, até à sua última morada. Até à sua última morada, a urna do líder da Renamo foi igualmente transportada por oficiais das Forças Armadas de Defesa de Moçambique.

Sucede, porém, que em vida, Afonso Dhlakama em algum momento reconheceu os símbolos nacionais. E a questão é se em vida tivesse sido consultado sobre o funeral que gostaria de ter em caso da morte, ter aceitado tais ofertas.

Não temos mandato para falarmos em nome do Governo. Todavia, assiste-nos o direito de especular que se o Governo tomou a decisão de conceder um funeral oficial a Afonso Dhlakama, não significa que se tenha esquecido dos posicionamentos, em vida, do líder da oposição. Não significa que o Executivo queira branquear a história do país sofrido por vontade dum homem. Terá o feito em mais um gesto que traduz o espírito de busca incessante da reconciliação da família moçambicana.

Se não estamos perante uma ilegalidade nos termos de lei, estamos pelo menos nos termos da moral, porque se concedeu algo que Dhlakama nunca aceitou em vida. Nos termos legais, precisaríamos de um jurista para nos elucidar, se procede conceder a alguém, um estatuto com qual nunca se identificou, apesar da imposição legal, em vida! Mas tudo foi feito em nome da reconciliação nacional.

Esperamos que as “ilegalidades” (morais) cometidas sejam correspondidas pelos seguidores do líder, pois é a eles que o gesto foi dirigido, acima de tudo.

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