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Geólogo dirige diplomatas (2)

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Agostinho Zacarias, geólogo, tornou-se no segundo Director do Instituto Superior de Relações Internacionais, numa nomeação que na altura chegou a gerar alguma polémica. A contestação tinha a ver com o facto de alguns círculos julgarem um paradoxo ou mesmo autêntica “aberração”, alguém aparentemente não familiarizado com a área, de certa especialização, ser colocado na liderança, incluindo dos seus docentes. Zacarias sucedia ao primeiro Director do ISRI, o Embaixador Julião Cuambe.

“Eu vinha do Partido (Frelimo), do grupo de reflexão sobre a política externa, acho que foi em 1990, estávamos na fase de mudanças, primeiro mudanças internas e discutia-se muito dentro do partido como acomodar a Renamo e havia grandes pressões. Mudamos a nossa perspectiva política. Foi numa altura em que estávamos a pensar ao nível do Partido. Há-de se lembrar que quando a Frelimo chegou era uma Frente (Frente de Libertação de Moçambique), depois houve necessidade de se criar um Partido, na base da ideologia. As pessoas, se calhar não se lembram, houve uma discussão bastante forte, primeiro como é que ia se chamar esse partido. Havia proposta de Partido Comunista, Partido Trabalhista, partido de orientação marxista, e houve discussões muito fortes com aqueles que eram os nossos parceiros na altura, a República Democrática Alemã e a União Soviética. A União Soviética era de opinião que nós não devíamos chamar partido marxista, porque não tínhamos uma classe proletária consciente. Debateu-se muito como é que a Frelimo ia se chamar. O debate permitiu a adopção do nome que se encontrou na altura, acho que Partido Frelimo de orientação Marxista-leninista, se não me engano. A adopção desse nome significava alguma coisa na escala internacional e a nível do próprio país. Era necessário repensar nisso tudo, para se colocar de novo Moçambique no mapa, que transformações deviam existir a nível do Partido, para de facto reflectir a imagem que o partido e o país eram. Foi uma fase de conturbação, porque por um lado existia a guerra, existia a resistência, a Renamo já estava ai, a Rodésia de Ian Smith atacava, a África do Sul do “apartheid” também. Não foi fácil na altura os dirigentes saírem com determinadas soluções. Se calhar era necessário voltarmos atrás verificar o que é que foi essa época e o que é que não foi, porque muitos de nós ou as gerações que estão agora no poder são novas, não tiveram tempo de beneficiar disso, mas foi uma fase histórica bastante importante. Foi durante esse processo que eu começo a trabalhar mais nas questões políticas do que na geologia, passo mais tempo no Partido do que noutro sítio. Fui incumbido de organizar uma das primeiras reuniões para pensar em estratégias para Moçambique e para África Austral, porque presumia-se na altura que os dias do “apartheid”

estavam contados, mas era necessário pensar como é que essa transição havia de se passar, as implicações para Moçambique. Trabalhando com o ISRI preparamos essa reunião em que veio muita gente do Leste, Ocidente, Norte, do Sul, africanos e não africanos, e houve um grande debate que nos ofereceu um grande menu para orientamo-nos e reencontramo-nos de novo. Tive a sorte, passado algum tempo, de ser incumbido de criar o Centro dos Estudos Estratégicos, que era a parte de pesquisa do ensino. Na altura o Presidente Chissano (Joaquim) e o Ministro dos Negócios Estrangeiros (Pascoal Mocumbi) defenderam que era bom que combinasse a formação com essa parte de pesquisa e nomearam-me Director do ISRI”.

Em que período ocorre o debate na Frelimo sobre como enquadrar a Renamo?

“Julgo que a partir de 1989 a Frelimo começou a reflectir o que é que devia fazer com a guerra. Não significa que antes não existiam reflexões há mais tempo. Devo recuar, mesmo nos anos 1980 a razão pela qual Moçambique assinou o Acordo de Nkomati com a África do Sul, em 1984, foi na perspectiva de se acabar com a guerra, porque a África do Sul do “apartheid” vinha apoiando a Renamo, quando o Zimbabué ficou independente, em 1980, e a África do Sul tinha maior capacidade de apoio à Renamo do que a Rodésia. Intensificaram os estragos e os métodos, ficou claro que a tentação de uma vitória militar não ia funcionar. É nessa base que começam as reflexões do que é que se deve fazer e algumas instituições de relevo em Moçambique começaram a ter as suas reflexões e o Partido Frelimo também, dai que traça, mesmo depois da assinatura do Acordo de Nkomati. A visita do Presidente Samora à Europa Ocidental e depois mais tarde por ai 1984/85 abre-se a Embaixada de Moçambique nos Estados Unidos da América (EUA) depois que em 1976 cortamos relações com os EUA, seis funcionários da Embaixada norte-americana foram expulsos e isso teve muitas consequências, as relações congelaram, mas a partir de 1984/85 as coisas começaram a abrir-se até que culminaram com a abertura da nossa Embaixada nos EUA, tínhamos apenas Embaixada nas Nações Unidas”.

Como é que foi a adaptação de geólogo para diplomata?

“Foi fácil, porque grande parte dos conflitos que existem no mundo é com os recursos naturais. Se você está preocupado com os recursos naturais compreende um pouco a filosofia que está por detrás da filosofia que está por detrás da descoberta dos recursos minerais. O próprio meio ambiente no seio da Frelimo permite uma certa consciência política formada. O resto é esforço individual”.

E o doutoramento?

Agostinho Zacarias foi indicado a dirigir o Instituto Superior de Relações Internacionais quando não tinha qualificações, pelo menos formais, desta área.

Aproveita o doutoramento para juntar o útil ao agradável e especializa-se em segurança, uma especialidade que não foge muito das Relações Internacionais. Na época o conceito de segurança pressupunha questões militares.

Sucede que segurança ligada a forças de defesa e segurança não é o único ingrediente para o conceito de segurança. Para Agostinho Zacarias, impunha-se reflectir com recurso à ciência, sobre se o conceito de segurança nos países desenvolvidos deve ser o mesmo que deve adoptado pelos países da região da África Austral. A pesquisa de Agostinho Zacarias resultou num livro que discute toda a problemática e sugestões de como conceber a segurança para Moçambique e para a África Austral.

“Fui dirigir o ISRI só tinha mestrado em pesquisa mineral, era uma situação pouco estranha porque os meus colegas (alguns) que eram diplomatas na altura tinham sido formados no ISRI e o dirigente máximo não tinha qualificações formais nessa área. Depois da assinatura dos Acordos de Paz em Roma (4 de Outubro de 1992), porque o ISRI e o Centro de Estudos Estratégicos sempre desempenharam este papel de reflexão mesmo a resolução da questão da guerra contra a Renamo desempenharam este papel de reflexão, com algumas propostas para a equipa que estava a negociar, algumas tarefas não populares, algumas pessoas estavam ligadas ao ISRI. Chegou-se a uma altura em que estava claro que já não iria voltar aos Recursos Minerais e tinha que voltar para os bancos de escola tentar combinar a experiência que tinha adquirido nestes anos todos e fui fazer doutoramento em London International Institute fot Strategic Studies (Instituto Internacional de Estudos Estratégicos de Londres), Grã-Bretanha, onde tive a oportunidade de ao mesmo tempo trabalhar. Depois do doutoramento voltei e fiquei na Universidade sul-africana de Witwatersrand como docente, mas acabei por abandonar em 1998 quando tive infelicidade da minha filha mais velha. Quando sai de Londres ela continuou lá, porque estava numa fase “crítica” que não podia voltar, ela estava no último ano do Ensino Secundário e que no ano seguinte ia entrar para universidade. Depois quando vinha despedir-se dizer que estou crescida e vou começar universidade, tivemos uma viagem lá para terra dos meus pais (Homoíne), onde não chegamos, ficamos pelo caminho (acidente de viação em que morre a filha e a avó). Isso teve impacto na minha vida pessoal, porque nesse acidente perdi o meu passado, que é a minha

mãe e o meu futuro que era a minha filha. Então não foi fácil digerir isso. Não me concentrava muito bem nas salas de aula na África d Sul, decidi voltar. Tive ajuda do Presidente Guebuza, que na altura não era Presidente. Disse que havia um projecto de aciaria em Moçambique e que com a minha experiência talvez seria valioso voltar, e voltei. Comecei a trabalhar nesse projecto, mas depois consegui uma colocação nas Nações Unidas e sai de Moçambique para as Nações Unidas em 1998”.

Quanto tempo trabalhou no projecto de aciaria?

“Mais ou menos um ano”.

Qual era o objectivo central do projecto?

“Eram conhecidas as potencialidades dos campos de gás de Pande, que o Governo tinha decido entregar à Enron norte-americana. A Enron ia fazer um pipeline para vendar uma parte do gás para África do Sul, mas antes de transportar devia fazer uma aciaria em Maputo, que ia criar muitos postos de trabalho, sete mil na fase de construção. Nessa altura o Presidente Guebuza estava muito atraído por esse projecto, mas o projecto depois não foi à frente, por várias dificuldades, eu saio em 1998 e em 1999 a Enron entra quase num período de desmoronamento. Mas a ideia era para exportamos aço a partir de Moçambique, para o fabrico de autocarros, navios na Ásia e na Europa e havia investidores já identificados nessa altura para ficarem nessa área, que tinha offtake de ferro e do aço. O projecto envolvia a África do Sul e Moçambique. O minério, acho que era hematita, viria para Moçambique. Não era para utilizar o gás como combustível, era para utilizar o gás como redutor do minério, se não me engano de magnetite para hematita, depois de aquecimento utilizando energia de Cahora Bassa, fundia-se o ferro, já quando se pensava na Mozal, que seria a segunda maior indústria e 30 por cento do gás seria vendido para essa aciaria e o resto seria exportado. Era um projecto atractivo que infelizmente não foi avante por várias razões”. (continua)

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