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Vinte anos na ONU (conclusão)

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Seguem-se 20 longos anos ininterruptos de carreira diplomática nas Nações Unidas, onde entra como conselheiro sénior na área de governação. O ingresso foi por via de concurso público internacional, que lhe valeu o posto de conselheiro para África na área de governação, pela mão do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, PNUD.

Um ano depois, o Secretário-geral da ONU da época, o ganês Kofi Annan desencadeou um processo visando reatar as relações com Angola, que haviam-se esfriado depois da morte de Alioune Blondin Beye. O Governo angolano acusava as Nações Unidas de ter levado Luanda para um processo que não resultou, embora tenha passado por negociações e eleições. O processo chegou a gerar muitas mortes o que irritou Angola, não se evitando que as relações com a ONU ficassem tensas.
Em 2000 o Secretário-geral da ONU nomeia o Embaixador Ibrahim Gambari para representante especial e conselheiro para a área africana. Através do diplomata moçambicano, Carlos dos Santos, na altura Embaixador na ONU, Ibrahim Gambari chega a Agostinho Zacarias, a quem convida para sair do PNUD e juntar-se a ele na difícil missão de resgatar as relações com Angola. Agostinho Zacarias fica assim no Secretariado da ONU e viaja com frequência para Angola, onde se travam discussões no âmbito da espinhosa missão.
“As coisas começam a melhorar e discutimos com os angolanos que era necessário pensar quem dá para continuamente zelar pelos interesses dos dois lados. Muito relutantemente os angolanos não estão convencidos de que querem voltar a ver as Nações Unidas lá, e só ficaram à vontade quando souberam que um moçambicano foi nomeado para o cargo, neste caso Mussagy Jeichand, uma pessoa que eles conheciam e deixaram-na trabalhar. Mas havia um ambiente tenso e restrições e as Nações Unidas não queriam agravar as relações com o Governo angolano. Depois eu ia regularmente a Angola, com Ibrahim Gambari ou sem Ibrahim Gambari, e Mussagy estava baseado em Luanda. Morre o Savimbi (Jonas) e constituiu-se uma missão de manutenção de paz para completar o que tinha sido definido no Protocolo de Lusaka e então vou para Angola como director do gabinete ao mesmo tempo chefe de todo o pessoal da missão”.
Agostinho Zacarias recorda que na parte final da missão foi destacado para oficialmente criar o escritório do Representante Especial do Conselheiro Especial do Secretário-geral para África. As novas funções obrigam Agostinho Zacarias a regressar ao escritório central da ONU em Nova Iorque, também terminava a missão da ONU em Angola e Ibrahim Gambari igualmente regressa à sede da ONU, retomando o cargo de Conselheiro Especial para o Secretário-geral em África. Este foi essencialmente um escritório para ajudar a implementar o projecto da Nova Parceria para o Desenvolvimento de África, NEPAD, no que às Nações Unidas dizia respeito.
“Fui nomeado Representante das Nações Unidas e Representante residente do PNUD no Zimbabué de 2005-2009 e mais tarde fui nomeado para funções semelhantes na África do Sul, de 2009 a 2014, altura em que fui promovido um pouco para Representante Especial adjunto do Secretário-geral no Burundi. Quando esta missão acabou, porque as Comores iam ter eleições muito difíceis, fui destacado para ir às Comores, onde fiquei a trabalhar até os tempos mais recentes, depois sai, agora estou cidadão livre (risos) …”.
Cidadão livre em que sentido?
“Ao nível das Nações Unidas ainda não atingi a idade de reforma, estou numa reflexão sobre o que é que vou fazer, mas desvinculado das Nações Unidas”.
Voluntariamente?
“Acabou o meu contrato. Na altura em que acabou o meu contrato não estava muito interessado nos postos que estavam lá, então não havia outra opção, tinha que me afastar”.
Em termos concretos o que é que faz actualmente?
“Em termos concretos neste momento faço duas ou três coisas. Há uma organização chamada Account, baseada em Durban, África do Sul, que ajudo a estabelecer o seu programa de pesquisa, ajudo também a Fundação Thabo Mbeik e também sou professor visitante na Universidade de Joanesburgo”.
Quais foram os grandes marcos nesta sua trajectória, quer pela positiva quer pela negativa?
“Eu acho que nesta trajectória tive privilégio de trabalhar com dirigentes moçambicanos que me inspiraram na minha juventude. Trabalhei de perto com Marcelino dos Santos, praticamente criamos uma relação de pai-filho, a maneira e o à vontade com que discutíamos as questões do país sem reservas, não haver o intocável. Eu acho que criei numa determinada fase, uma relação também bastante forte nesse tipo de análises e discussões com o Presidente Guebuza (Armando), os políticos moçambicanos e vários outros. Quando fui para o Partido, José Luís Cabaço, Jorge Rebelo, muitas vezes José Óscar Monteiro, são pessoas que passei horas e horas a discutir e trocar impressões com eles, são individualidades com quem aprendi muito. Na África do Sul há muitas personalidades também, desde o próprio Presidente Thabo Mbeik, e aquele aparelho todo “A Baleka Mbete” discutimos vários assuntos como camaradas, perspectivas da região, perspectivas dentro do próprio ANC (Congresso Nacional Africano). Há quadros do partido (ANC), esse que foi tesoureiro agora e um que morreu, Chabane. Zimbabué para mim foi uma grande escola de compreender melhor o mundo, tanto o mundo dos doadores tanto o nosso mundo. O Zimbabué fez-me crescer muito depressa (risos) … imagina eu chego com tanto idealismo de que certas coisas devem ser feias de tal maneira e as coisas não estavam assim muito bem no Zimbabué, mas não tinham atingido aquele nível de a gente considerar que não tem salvação e o processo de trabalho lá com colegas, tive a sorte de na altura ter o Tomáz Salomão como Secretário Executivo da SADC, com o qual trocávamos impressões, perdíamos noites e noites a discutir, com o Presidente Thabo Mbeik depois de ele ser nomeado enviado principal e os membros da equipa dele à volta ajudaram a compreender melhor o que é esta a nossa região, os desafios que o mundo enfrenta e a definir melhor o lado em que você deve estar. Nessa trajectória a grande pena que eu tenho é termos perdido muitas vidas aqui no nosso país. Julgo que devíamos evitar perder mais vidas e encontrar solução. Moçambique está no bom trajecto. Tenho conhecimento que a própria informalidade com que o Presidente Nyusi (Filipe) encara estas interacções com a Renamo cria uma dinâmica diferente, permite um relacionamento que pode encontrar soluções. Eu penso que ele (Presidente Nyusi) não se tem cansado de procurar essas soluções e convidar o seu compatriota (Afonso Dlhakama) da Renamo a enveredar pela mesma rota. Não é uma questão fácil, mas penso que estamos a bom caminho, temos que resolver os nossos problemas internos com gás, temos que resolver os nossos problemas internos com a nossa economia e temos que resolver o nosso problema da paz, para termos uma paz duradoira. Se conseguirmos resolver estes problemas, a governação e todos nós podemos passar a dedicar mais tempo, de uma maneira positiva, ao que temos que fazer, mas não é fácil”.
É este Moçambique com que alguma vez sonhou?
“Nós sempre sonhamos o ideal. Sonhamos aquilo que faz os nossos olhos brilharem e começamos a construir nas nossas mentes, nas nossas cabeças que devia ser isto ou devia ser aquilo, mas a realidade do país é outra, nem tudo que a gente sonha se materializa, mas se me perguntar se isto me faz desistir de continuar a lutar pelo melhor vou dizer que não. É minha tarefa, enquanto eu viver, de sempre procurar fazer melhor dentro das circunstâncias que se apresentarem como tal, senão sou uma pessoa morta. Acho que o dever de cada um de nós, mesmo reconhecendo que este não é o Moçambique ideal com que eu sonhei em juventude, sonhos são sempre sonhos, principalmente aqueles são sonhos com a branca de neve, muitas vezes não são realistas, não levam em conta as realidades e as dificuldades do país, mas isso não é motivo para pensar que eu já dei a minha contribuição o que resta é com os outros, não, enquanto eu estiver aqui, naquilo que eu puder fazer hei-de tentar sempre fazer melhor. Nunca pensei que havia de ter esta trajectória de vida toda, foi uma questão de oportunidades, foi alguém que me puxou com a mão, que me empurrou e eu também tenho que fazer o mesmo com os meus semelhantes e com as gerações mais novas”.
Chegou a desligar-se da Frelimo por força desta trajectória que pode levar ao mundo complicado de incompatibilidades?
“Não, não, não! Apenas deixei de pagar quotas (risos) …”.
Alguma razão?
Não voluntariamente, são as dificuldades, estás neste país, estás noutro, às vezes não tens métodos, vais-te esquecendo, mas os ideais do Partido estão lá e julgo que se os ideais não estão perfeitos é também minha responsabilidade, porque sou membro, fazer esses ideais. E também era incompatível, como funcionário internacional, continuar a pagar quotas dum partido político, o regulamento não permitia, mas agora, sim, se eu puder, enquanto estiver aqui, ainda não estou em Moçambique, tenho mais ou menos um pé fora, a residência continua a ser África do Sul, mas sempre que estiver aqui darei o meu melhor. (x)

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