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Gaguez que valeu ouro (1)

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Baltazar Montemor

Nasceu gago, um defeito natural que não há conhecimento científico de alguma vez ter sido corrigido plenamente, havendo casos em que um e outro consiga minimizar o efeito na comunicação oral, onde mais se reflecte.

Mas haverá outros que nascendo gago acabam colhendo loiros desse defeito, conforme o caso. Tal é o caso de Luís Magaço Júnior, que só conseguiu seguir a carreira profissional dos sonhos fruto do facto de ser gago.

Luís Magaço Júnior, filho de um pai contabilista, alimentou desde cedo, o sonho de ser economista. Todavia, os ventos da revolução acabaram levando-o ao mundo da docência, para leccionar Português, História e Geografia. São tempos em que a Pátria chamava por nós, e Luís Magaço Júnior não tinha como escapar.

O ingresso no ensino superior passava por um período inicial (propedêutico) de três meses, findos os quais os “recrutas” eram avaliados para se saber das suas habilidades e o destino a dar. As opções eram cursos de professorado em Letras (História, Geografia e Português) ou Economia.

Para Luís Magaço calhou a primeira opção, e assim pagava o preço das suas habilidades extraordinárias na escrita e oralidade. Lembra que ele e um amigo (colega de escola) sempre tiveram notas acima da média até ao nível média, tornando-se nos dois melhores da escola. Todavia, o seu sonho nunca havia passado por curso de Professorado, muito menos por algo similar. Evidentemente que não gostou, pois a carreira dos sonhos foi sempre Economia.

Sucede que logo no primeiro dia de aulas do curso do Professorado, Luís Magaço Júnior é escolhido pela professora para se levantar e ler trecho de um livro. E o diálogo não se fez esperar: “O menino é gago? Sim, sou gago. Desde quando? Desde que nasci. Então, você não pode fazer Letras, não pode dar aulas. Vá já fazer economia!”.

“Foi a minha bênção realmente pensar que a gaguez, que é um defeito, de fabrico, ia tornar-se a minha bênção e a minha salvação para aquilo que eu queira fazer”, diz Luís Magaço Júnior, lembrando que como ele, havia pessoas que queriam cursar Economia, mas acabaram no Professorado e vice-versa, para uma tristeza para sempre. “Eu tive a sorte de que realmente a gaguez naquele instante funcionou a meu favor”.

Luís Magaço Júnior é o quarto de sete irmãos, filho de Luís Magaço (falecido há 12 anos) e Eugénia Magaço. Luís Magaço foi contabilista dos Caminhos de Ferro de Moçambique, de onde reformou ao fim de 43 anos, alternando a Contabilidade e os Recursos Humanos, enquanto Eugénia era Professora Primária. Depois de alguns anos passou a doméstica e mais tarde foi gestora dos negócios do marido.

Luís Magaço Júnior nasceu a 3 de Junho de 1966, na região carbonifica de Moatize, Tete, onde igualmente faz os estudos primários, entre 1973 e 1977. Porque em Moatize não havia Ensino Secundário, teve de “emigrar” para a cidade de Tete, onde em 1978 iniciou o nível de 5ª a 9ª classe, em 1982.

Em 1983 foi estudar a Beira, na Escola Secundária Samora Machel, para em 1985 ingressar na Universidade Eduardo Mondlane. Foi na Beira onde Luís Magaço passou os piores momentos da vida, a falta de quase tudo.

Tendo frequentando o Ensino Primário no período colonial, sujeitou-se a um curriculum, regime de ensino e a uma vivência em português, numa escola oficial, em Moatize, beneficiando do facto de o seu pai ser contabilista e por via disso assimilado. Vigorava o Hino Nacional e Geografia Portugueses.

O primeiro emprego de Luís Magaço Júnior foi em 1987, no Grupo Entreposto, por cerca de três anos. Embora gostasse imenso do posto, viu-se obrigado a novas aventuras. “Era um lugar de trabalho fabuloso, com bons colegas, numa empresa grande, sólida e enorme”, recorda, lamentando que o que provoca o desenlace foi o salário ditado pela tristemente célebre lei 4/80, que ficou famosa por limitar o pagamento de salário até uns miseres 2100 meticais, mesmo para aquelas instituições que podiam muito mais.

Sucede que já estava à espera do primeiro filho, quando o “magro salário” já não cobria as despesas só do casal, entretanto a caminho de três membros da família. “Fui pedir aumento de salário ao meu director. Infelizmente, nessa altura todas as decisões no Grupo Entreposto eram tomadas em Portugal. Eu não queria muito, só queria passar a ganhar USD 50, que para mim já era muito. O Director estava plenamente de acordo, mas não tinha como decidir. Contactou Portugal, que levou muito tempo a decidir. Foi quando recebi um convite de uma agora falecida colega minha, para trabalhar para uma empresa que estava a ser constituída, Austral. Uma empresa nova, desconhecida. Gostei das pessoas. O que nos atrai numa empresa são as pessoas, muitas vezes não é a dimensão nem a sua fama, mas as pessoas que lá estão. Foi a dose certa para eu concordar. Foi, de facto, uma das minhas melhores decisões da vida”.

Luís Magaço Júnior qualifica de extraordinários os momentos que passou na Austral. “Se alguma coisa hoje me entristece é termos vendido aquela empresa ao fim de 20 anos e até hoje pergunto-me como, porquê. Não precisávamos, a empresa era lucrativa, tinha dimensão, escala, marca. Tendo falecido a minha colega Jane, houve algum desinteresse para alguns dos sócios em continuar o projecto sem a Jane. Mas de facto foi um projecto espectacular, quando começamos eramos cinco pessoas, por fim, nos fins dos anos 90 princípios do ano 2000, eramos 300 pessoas e facturávamos uma pipa de massa, tínhamos lucros todos os anos, empregávamos pessoas, varríamos o país de ponta a ponta e em 1994 fui pessoalmente, com a minha colega Jane, abrir o nosso escritório em Luanda (Angola). Em 1993 já tínhamos ido também juntos abrir o nosso escritório em Joanesburgo, ainda no tempo do apartheid”, recorda Luís Magaço Júnior, com alguma nostalgia à mistura, concluindo ter-se tratado de uma jornada de vida muito fascinante, muito gira, do seu percurso.

E como a venda da Austral não significava o fim do mundo, emergiu outra oportunidade. Porque se tratasse de uma empresa internacional de grande caibre, com cerca de sete mil empregados, dos quais cerca de 2000 na região dos Escandinavos, os dinamarqueses convidaram Luís Magaço Júnior para continuar na empresa, já com a designação de Cow, como Director Geral, cargo em que permaneceu até 2014, quando recebe novo convite para função de Administrador no Mozabanco. (continua)

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