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Seca e desertificação uma realidade indisfarçável

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Baltazar Montemor

O fenómeno da seca é ou não uma realidade em Moçambique?

Se a seca já representa um drama que afecta milhares de moçambicanos, pode ser que a desertificação ainda não seja um problema real, mas pode ser que não falte muito para o fenómeno também se tornar realidade, caso medidas claras e concretas de combate à seca continuem a ser adiadas.

Se ainda não se pode falar de desertificação em Moçambique, não deixa de ser preocupante o drama da seca que se repete ano após ano, sobretudo em algumas regiões do centro e sul do país, onde escasseia água e comida.

Dois dias de longa caminhada, em busca de menos de 20 litros de água tirada directamente de rio, ou seja, não tratada, trazida à cabeça, é quanto custa a vida em grande parte do meio rural, em Moçambique. Vinte litros de água “imprópria” para a cobertura total das necessidades de famílias numerosas com agregados que podem ir até 5, 10 ou mais membros.

Mas a vida custa ainda muito mais do que isso. Famílias há que buscam água também de rio, a distâncias que podem atingir 40 quilómetros, caminhando. Trata-se de água não tratada, a tal que no meio urbano é qualificada de imprópria para consumo humano, mas que dela vivem milhões de moçambicanos. Se no meio urbana até a água de torneira é tida como imprópria, privilegiando-se água mineral, para os que podem, calcule-se água tirada de rio directamente para boca, sem passar sequer pela fervura ou outro tratamento!

Alguém alguma vez calculou que famílias moçambicanas percorrem dezenas de quilómetros em busca de algo como 20 litros de água de rio não tratada, um esforço e sacrifício que dura no mínimo dois dias? Este é o país real do vasto Moçambique!

Percorrendo Moçambique de lés-a-lés fomos encontrando no chamado país real, várias pessoas nesta dramática e sinuosa situação. Para ilustrar podíamos escolher qualquer ponto deste vasto Moçambique, pois em pelo menos todo o meio rural a grave crise de água é algo comum, para não falar de outras carências do básico. Mas vamos ficar pela recôndita aldeia Madlhambuti, no Distrito de Mabalane, norte da Província de Gaza, sul de Moçambique. Aqui encontramos entre muitos aldeões, o velho Pedro Tachaúque.

Ele lamenta que a seca é severa, em consequência de escassez da chuva. As famílias fazem-se aos campos para agricultura tradicional, contudo o rendimento é nulo, porque não chove. A escassez da chuva na zona é algo cíclico, mas 2004 terá sido um dos piores anos.

Pedro Tchaúque diz que os aldeões de Madlhambuti dependem do conhecido programa “comida pelo trabalho”, porque das machambas já se perdeu esperança. A produção de carvão, que leva à desmatação, permite algum dinheiro com o qual se completa a cobertura das necessidades das famílias. O maior drama da região é a falta de água, líquido sem o qual não há vida, como se costuma dizer.

“Não há água para bebermos. Nesta região não há nenhum poço. Quando seca esta pequena lagoa o recurso é o longinco rio Limpopo, que dista a cerca de 20 quilómetros. O percurso custa às nossas mulheres e filhas, dois dias de longa caminhada. Se partirem hoje só regressam amanhã, com apenas 20 litros à cabeça”.

Pedro Tchaúque lembra-se de um dia em que alguém iniciou a abertura de um poço na aldeia, mas em vão. O nível do lençol freático é tal que não ajudou para evitar a desistência. “Tentaram abrir um furo manualmente, mas não conseguiram. Desistiram, com a promessa de um dia voltarem, mas nunca mais cá vieram de novo”, disse.

Tal como outras populações moçambicanas afectadas por falta de água as comunidades de Madlhambuti socorrem-se, por algum tempo, de uma pequena lagoa, numa disputa jamais vista, com animais como bovinos. Disputa de água não tratada, com a agravante de não ser corrente, como é a água de rio de caudal permanente. E o velhote Pedro Tchaúque ironiza: graças a Deus, nem cólera ou uma outra doença derivada de consumo de água imprópria nos incomoda. A água quando existe naquela lagoa seca é purificada por Deus! “É mesmo esta água que bebemos. Mas acaba em menos de um ano”, frisou.

Por sua vez, Raulina Chitlango, também aldeã de Madlhambuti, disse que por força de chuva a terra está tão seca que qualquer iniciativa de sobrevivência fica limitada. “Faz muito tempo que não chove. A última vez que choveu o necessário foi em 2000, o tal ano das piores cheias no sul de Moçambique, principalmente ao longo do vale do Limpopo, em Gaza. Todas as pequenas lagoas encheram e conservaram água por longo tempo. Mas não podiam conservar água por um período eterno, porque nunca mais voltou a chover para o reforço dos caudais, passam-se anos. Nem os campos produzem e dependemos do programa comida pelo trabalho, abrindo e limpando estradas, em troca de milho”, lamenta.

No campo a busca de água é um trabalho habitualmente reservado à mulher. Raulina Chitlhango vive no corpo e no sangue o drama diário, como esposa, mãe e avó. “Quando esta pequena lagoa seca recorremos ao rio Limpopo, que fica a cerca de 20 quilómetros daqui. Toda esta zona não tem água. Esporadicamente nos socorremos também de Niza (pequeno riacho), também muito longe. Mas em Niza a água também acaba, porque é muito disputada com numerosas manadas de bovinos e até animais bravios”, desabafa.

Mesmo com a seca a vida não pára em Mabalane, com forte tradição na criação de animais, com destaque para bovinos. Alguns dos animais acabam sucumbindo por falta de água. Aliás, os animais vivem o mesmo drama das populações, recorrendo ao Limpopo, em busca de algo para molhar a garganta seca. É um percurso de dezenas de quilómetros, que dura no mínimo dois dias. Mal os animais retornam à origem, certamente que de novo estão cheios de sede.

“Os bovinos iniciam a longa caminhada para o Limpopo a altas horas da noite ou da madrugada. A acompanhar os animais, os miúdos, sob a supervisão dos pais ou pastores adultos. O regresso só no dia seguinte. Os animais cansam-se, mas não têm outra saída. Não têm a quem se queixar. Morrem de sede e também de fome, porque quando há seca, não há capim para garantir pastos”, queixa-se Raulina Chitlango.

Rabeca Sitoe, outra aldeã de Mabalane, ironiza que a seca dura que já se tornou um mal que faz parte do dia-a-dia das populações locais. “Há muita seca. Choveu muito pouco, diferentemente dos anos anteriores. Não chegou a encher todas as lagoas. Choveu apenas para fazer crescer capim. Vivemos sofrendo permanentemente. Isto não é vida. No passado o que sabíamos é que a riqueza residia no campo. Hoje passamos a pouca vergonha de ter de viver de esmola”, disse.

Em algumas zonas afectadas pela seca, quando finalmente chove é motivo para grandes celebrações em ambiente festivo que quase não termina. Ainda que sejam chuviscos ou pingos de chuva para as populações sofrendo se recordarem de que afinal o fenómeno ainda ocorre.

É muito curto o período do ano em que as populações têm água nas poucas e pequenas lagoas. O longo período do ano está reservado ao sofrimento com tendência a eternizar-se.

“Quando as lagoas secam não há outro recurso que não seja o Limpopo. Quando partimos de madrugada chegamos ao Limpopo ao cair da noite. Caminhos toda a noite de regresso à casa, onde chegamos na manhã seguinte. Mesmo temendo animais bravios, não temos outra alternativa”. (continua)

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