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Eterno arrependimento (3)

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Baltazar Montemor

Se há algo pelo qual Luís Magaço se vai arrepender para sempre, é não ter feito o Serviço Militar e não trabalhado nas províncias.

Confessa no entanto, que quando tinha idade para tropa, tinha medo de cumprir este dever patriótico, porque se morria, mas já aos 51 anos de idade, lamenta não poder mais desfrutar de escola da vida militar.

Magaço diz que tudo se estragou pelo facto de ter atingido a idade militar numa circunstância de guerra, o que vale dizer ir à tropa nessa época significava estar muito próximo da morte certa, do que de vida. Se tivesse atingido a idade militar em tempo de paz, é das melhores coisas da vida que Luís Magaço não teria desperdiçado. “Se fosse uma tropa em tempo de paz como é agora, eu acho que é uma coisa que eu adorava ter feito”, diz Luís Magaço.

O nosso entrevistado lamenta igualmente não ter trabalhado nas províncias. “Eu acho que estas duas dimensões da vida permitem-nos sermos tudo”. Relativamente ao Serviço Militar, Luís Magaço entende que ensina muita coisa ao homem, desde a capacidade de resiliência, da cooperação e trabalho em equipa, enfim, ensina a conhecer os comandos.

“No exército os comandos são muito claros, o General manda mais do que o comandante, do que o Major, etc., é tudo muito claro. Depois há um senso grande de partilha, quando se está numa zona remota, a gente tem que partilhar tudo, água, comida, o cigarro, etc., então acho que o exército disciplina o homem, o exército constrói o homem, e eu tenho pena de não ter feito a tropa. Acho que construi no meu percurso todos esses valores, mas se eu tivesse ido à tropa acho que teria os valores ainda muito mais reforçados”, caracteriza Luís Magaço. ‘

Na opinião de Luís Magaço, a província ensina o senso da sobrevivência. Exemplifica com os médicos que quase todos iniciam a carreira nos distritos, no termo da formação. “Imagine o médico que depois do curso é colocado em Matchaze (Província de Manica), uma vez aqui ele é enfermeiro, pediatra, oftalmologista, otorrinolaringologista, obstetra, enfim, é tudo. Ensina o homem a viver com poucos recursos e encontrar soluções possíveis que fazem uma grande diferença na vida das pessoas”.

Aversão ao Estado

“Para o Estado nunca trabalhei e nunca quis trabalhar, foi uma opção pessoal, porque nunca achei que teria uma carreira profissional de rigor, de disciplina, realmente uma carreira profissional. Achei sempre que o Estado é um sítio onde há muitos favores, há muitas intrigas e há muitas coisas que não são objectivas. Há muita subjectividade, depende de quem conhece, donde veio, muitas coisas muito complicadas e ruins para ter a promoção. O Estado é muito abstracto, para ser verdadeiro e achei o Sector Privado muito concreto, muito profissional, podemos fazer uma carreira profissional sem termos que agradar a alguém, apenas com trabalho isento e feito com disciplina e rigor e com entrega de resultados sempre a tempo. É por isso que nunca sequer arrisquei a ir trabalhar para o Estado, nunca gostei, nunca arrisquei e nunca quis”, diz Luís Magaço.

Gratidão ao pai

A uma pergunta se alguma vez passou dificuldades na vida, Luís Magaço diz que teve o privilégio de ter tido o pai que teve e os avós que teve. “As minhas avós paterna e materna eram camponesas, mas o meu avô paterno era professor e o meu pai era contabilista, a minha mãe professora, então tive a sorte e talvez o privilégio de ter nascido neste ambiente, quando nasci em casa havia um carro, em 1966, em 1972 andava de avião.

“Malvinas”

Luís Magaço lembra que nem tudo foi um mar de rosas e estudar na Beira, em tempo de guerra, foi um autêntico inferno. “Quando fui estudar à Beira passei o período terrível da vida, absolutamente dramático! A guerra estava no pico, Beira era o foco da guerra. Cheguei a estar 252 dias sem luz, a água vinha quando vinha e tínhamos uma refeição por dia, às 16.30 horas. Havia um mês e outro em que as coisas melhoravam, podíamos ter pequeno-almoço!”.

Luís Magaço “atravessou este deserto” mesmo tendo uma irmã que por sinal vivia bem na Beira, mas não quis partilhar o tecto, porque com 15-16 anos já se sentia adulto. Por outro lado, sentia-se melhor (solidariedade) ao lado dos seus amigos e “passei as águas da amargura que se passa no lar”.

Podia fazer tudo menos ousar falhar a única refeição das 16.30. “Se você falha aquela refeição das 16.30, quando é que é a próxima? É no dia seguinte (24 horas depois). Mas cheguei a falhar uma vez, todavia, alguns amigos meus tinham feito uma pequena marmita para mim. Essa altura foi dramática, sem dúvidas, foram dois anos, e tudo o que eu queria era sair da Beira. A nossa ganância de terminar o curso era enorme”, recorda, enfatizando que as taxas de reprovação estavam a abaixo de 25 por cento, de um grupo de alunos bastante numeroso.

“Eramos muitos nesse lar, conhecido como “Malvinas”, alguns dos quais são hoje ministros que experimentaram aquela vida terrível. Curiosamente, ao fim de dois anos não vi alguém doente, não se comia, vivia-se muito mal e eu estava num quarto com 70 pessoas, mas ninguém ficou doente, nem anemia, nem cóleras, nem diarreias, zero, nem o que quer que fosse, estávamos todos vacinados, as pessoas entraram e saíram intactas. Foi realmente um período dramaticamente sofrido, mas também é dessas situações de grandes dificuldades que se criam grandes aprendizagens e grandes resistências e resiliências a este tipo de situações. Depois das “Malvinas”, pior do que aquilo eu tenho muitas dúvidas que volte a acontecer-me, ficar sem luz, sem água, sem comida!”, sublinha Luís Magaço.

Privilegiado (?)

Dos sete irmãos, Luís Magaço foi o único a ter formação universitária. A irmã mais velha casou-se aos 16 anos e foi-se, mas não esteve mal de vida. Vivia na Ponta Gêa, zona “chique” da cidade da Beira, capital provincial de Sofala. Os restantes irmãos foram andando, uns mais cedo que outros. O mais novo chegou a entrar na universidade – Instituto Superior de Educação Física, mas não foi por ai além.

“É um fenómeno sociológico muito interessante: filhos criados na mesma casa, com as mesmas condições e mesmas oportunidades, terem proveitos diferentes. Mas vou dar um exemplo: quando foi para ir viver naquele lar da Beira, muitos (dos seus irmãos) não queiram. Para ser franco, de todos nós, eu sempre fui o elo mais fraco: não sabia dançar, no desporto era o mais falhado, os meus irmãos nadavam, até eram campeões de natação, eu nunca soube nada, os meus irmãos eram excelentes caçadores de pássaros, mas se eu trouxesse um passarinho num mês era uma grande sorte, portanto entre os meus irmãos, naquele talento físico, sempre fui o elo mais fraco, mas tinha a parte melhor sempre (inteligência), sempre fui um estudante bom, e sempre me dediquei muito aos estudos. Isso realmente é uma coisa que o meu pai já dizia, tínhamos nós 12-13 anos de idade, façam como o vosso irmão Zito (nome de casa), dediquem-se aos estudos, como ele está a dedicar-se, mas como eu fosse “matreco” eles achavam que serem iguais a mim era um bocado de fraqueza. O meu irmão mais velho era músico, tocava viola, piano, órgão, como ninguém mais fazia e eu nunca consegui tocar uma viola, já peguei naquela viola, tentei tudo, mas nunca saiu absolutamente nada! Mas os meus irmãos eram tudo: músicos, desportistas, dançarinos, caçadores, tudo muito bons, mas eu não conseguia e só me refugiava nos estudos. (continua)

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