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Vida cruel que se confunde com ficção (2)

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Baltazar Montemor

No semblante dos camponeses está bem patente o desespero resultante de longos dias de cultivo, entretanto sem esperança de colher algo. Cultiva-se por hábito, na esperança de que um dia Deus lhes abençoe, deixando cair chuva.

Noutro extremo do norte de Gaza encontramos Nwamawatchi Mandlhazi. Foi em plena lavoura de terra seca e poeirenta. Confessa que não há esperança de colheita, porque não choveu.

Por seu turno, João Lápsi, natural de Nampula, foi desmobilizado no quadro dos Acordos de Roma de 4 de Outubro de 1992, que conduziram Moçambique à paz e decidiu fixar residência no norte de Gaza, mais concretamente em Mabalane, onde defendia a pátria.

Lamenta a seca prolongada provocada pela longa estiagem. Diz ele, que quando falta chuva a seca é contínua. Enumera algumas zonas de Mabalane onde as pequenas lagoas secam a qualquer momento. São lagoas nas quais o homem e animais domésticos e bravios disputam a pouca água que dura pouco tempo até que um dia volte a chover para a celebração dos camponeses.

Entre essas zonas conta-se Munjinji, Mulatimbuti, Mundzaweni. “Quando passa muito tempo sem chover, o que é normal, as populações vivem muito mal, cartam água a 15 quilómetros do distrito, no Rio Limpopo. A população da vila sede também recorre ao rio Limpopo”, conta João Lápsi, acrescentando que mesmo o grande Limpopo há momentos em que fica sem água em alguns intervalos do seu percurso, reduzindo-se a simples charcos. Este fenómeno natural força os camponeses a abrirem poços ao longo do leito do Limpopo, onde podem encontrar água com relativa facilidade, pois o lençol freático é bastante reduzido.

As populações do norte de Gaza lembram-se de que em tempos Outubro era o mês do início da época chuvosa que se prolongava até todo o primeiro trimestre do ano seguinte. Nesse tempo as populações viviam da agricultura e tinham emprego ou auto-emprego trabalhando a terra. Hoje as coisas mudaram radicalmente.

Os jovens da região dizem que com a seca estão remetidos ao desemprego, porque o sector formal pouco tem a dar.

Ezequiel Orlando, jovem de Mabalane, desabafa que a fala de chuva representa praticamente o fim da vida. Nas machambas não se colhe nada e não se acha emprego no sector formal. “Vivemos mal, a chuva foi-se com as piores cheias de 2000. Mesmo com cerimónias tradicionais, evocação dos antepassados, vulgo kuphalha, só caem alguns pingos”.

Por sua vez, João Manganhela, também jovem de Mabalane, mais precisamente da zona de Khombomune, conta que aqui a vida é igualmente um drama, tudo por falta de chuva. “Estamos a passar seca e fome há três anos consecutivos. Recorremos à produção de carvão embora conscientes das consequências desta actividade que nos obriga a devastar florestas e perigar o ambiente. Não temos emprego nem outras condições de vida. Muitas vezes nem água para beber temos. Repare que aqui em Khombomune, lá no Posto de Aridji, não há sequer água para beber. As comunidades têm de caminhar mais de 20 quilómetros para irem tirar água de rio para beberem”.

Solomone Valoi é o líder comunitário da aldeia de Ngopi, também no norte de Gaza. Esta aldeia igualmente não escapa à seca prolongada. “A seca é severa aqui na nossa zona. A terra não produz por falta de chuva. A população está a sofrer. Agora sobrevive do programa comida pelo trabalho, mas esta não pode ser a solução, tanto mais que não beneficia a totalidade dos aldeões. De cada vez podem ser seleccionadas 80 pessoas de diferentes famílias e a maioria tem de aguardar por uma próxima oportunidade, comendo o quê?”, indaga.

O velho Solomone Valoi acrescenta que a seca prolongada que provoca fome aguda chega a provocar emigrações para países vizinhos como a África do Sul, em busca desesperada de sobrevivência. Uns regressam à terra, mas outros ficam por lá para sempre. “A fome não é dos nossos tempos, sempre existiu, mas hoje a situação é gravíssima e não temos explicação para o presente panorama. A população passa muito sofrimento”.

Ricardo Mabalane recorda que depois das tristemente célebres cheias de 2000, em Gaza, a chuva passou a ser um fenómeno raro. O fenómeno seca é de facto uma realidade cruel.

“Nós aqui em Mabalane sentimos com gravidade o fenómeno da seca. Durante três anos consecutivos não choveu. No ano passado a situação estava mesmo difícil, embora ainda houvesse um pouco de água nas represas e algumas lagoas, mas no ano seguinte já não havia nenhuma represa nem lagoa que ainda tivesse água, tudo estava seco. Felizmente nos princípios do ano veio a chover, o que representou uma grande salvação para a população e para todos. Contudo, em Abril parou de chover e zonas como Mananga, estão novamente com terrenos secos, se bem que ainda se pode encontrar alguma água nas represas, mas as lagoas estão completamente secas”, sublinha o administrador.

Ricardo Mabalane descreve o Distrito de Mabalane e todo o norte de Gaza (distritos de Chigubo e Chicualacuala) de zona de árida “e as populações percorrem quilómetros e quilómetros à procura de água vivendo uma situação muito difícil. Abrimos represas em alguns povoados, mas para as pessoas se beneficiarem têm de percorrer pelo menos 10 quilómetros. Para nós já é muito bom, porque antes percorriam 40 quilómetros”. Conta que na zona alta de Khombomuni foi igualmente aberta uma represa. Todavia, porque a população vive dispersa há famílias que ainda têm de percorrer mais de 20 quilómetros. “Mas antes isso do que nada. A nossa estratégia é mobilizar as populações para viverem próximas umas das outras, não somente para encontrar água perto, como também o posto de saúde, escola, comércio e outros serviços públicos”.

Mabalane confessa antever dificuldades nesta campanha de mobilização das comunidades. Diz que enquanto umas começam a aproximar-se, “outras continuam fortes e renitentes de tudo, mas é um processo e pensamos que um dia vão compreender”.

Exemplifica o drama de água na região com o “suplício” por que um criador de gado passa para manter os seus animais. Segundo Ricardo Mabalane, o criador percorre cerca de 50 quilómetros com o seu gado, levando os animais para beberem a indispensável água no distante Limpopo. É um processo que custa dias de longa caminhada.

“Fui lá conversar com as populações. Todas as famílias têm gado, mas há grandes criadores. Entre eles há um senhor com mais de 100 cabeças e tem trabalhadores. Conseguiu pôr dois acampamentos repartidos entre os 50 quilómetros que separam o Limpopo da zona residencial. Sai do acampamento base (residência) e descansa no primeiro. Depois sai e vem descansar num outro acampamento perto da vila. Leva o seu gado para ir beber água no rio. Este exercício é feito por ele como pelos trabalhadores distribuídos pelos acampamentos a partir dos quais se rendem no acompanhamento do gado para o rio e regresso à casa. Para a população é mais complicado ainda, porque é o pai, é a mãe e o filho envolvidos. Porque a distância é longa pernoitam ao longo do percurso que só fica completo em 4-6 dias. A mulher tem de arranjar comida para ir ao encontro do marido para dar de comer enquanto dura a penosa jornada. É uma ginástica muito complicada, muito difícil mesmo. Repare que antes de chegarem à casa de regresso, o gado já está novamente cheio de sede. O próprio gado fica magro, porque essa distância é muito grande para o gado. Quando o gado chega lá já está novamente com fome e sede, há que pensar em fazer nova viagem. As viagens são preferencialmente feitas de noite”, diz.

No norte de Gaza há épocas em que chega a passar-se três anos sem queda de chuva. Ricardo Mabalane ironiza que as pessoas sobrevivem por milagre de Deus! (continua)

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