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Paixão de Luís Magaço (conclusão)

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Baltazar Montemor

Luís Magaço, gerou apenas dois filhos, ambos radicados nos Estados Unidos da América, onde estudam e trabalham. O filho mais velho foi o primeiro a decidir que queria fazer ensino superior fora do país.

Os pais escolheram Copenhaga, capital da Dinamarca, influenciados pelo facto de Luís Magaço estar a trabalhar, na altura, na Cowi, onde era Director Geral, com sede precisamente na capital dinamarquesa. Por conveniência de serviço, Luís Magaço viajava com frequência a Copenhaga, onde chegava a ir nove vezes só num ano.

“Quando foi estudar foi um bocado violento para nós (típico do africano). Ter filho fora, àquela distância, foi duro para nós, mas fundamentalmente para o irmão dele mais novo, que tinha nele a única companhia, desde à nascença. Mas com tempo, passado 1,5-2 anos, fomo-nos habituando. Mas a dureza mesmo, de ter filho fora, é imaginar que pode surgir um problema. E lembro-me estar no escritório em 2013, a ligarem-me a perguntar se conhecia um jovem chamado Steve. “Está aqui na ambulância…”. Este tipo de eventos são chocantes, lembra-se Luís Magaço, frisando que imediatamente comunicou à sede da sua empresa, em Copenhaga, e logo a seguir estavam 4-5 funcionários (colegas) a acompanharem a situação (do filho) de perto.

“E era só pedra, na vesícula, e pedra na vesícula dá dores de parto, quase, porque não queremos que o filho pare na polícia, no hospital ou um outro ponto ruim!”, sublinha Luís Magaço.

Quando o segundo filho decide também partir para o estrangeiro, instala-se um novo vazio na família, mas desta feita muito mais curto, porque já estava “vacinada” pela primeira partida. “Isso hoje é muito mais leve, porque a tecnologia permite-nos ver os filhos todos os dias, não interessa a distância em que eles estiverem”.

Luís Magaço lamenta que apesar de os seus dois filhos estarem a viver nos Estados Unidos, separados por seis horas de voo, há dois anos que os irmãos não se avistavam. Reconhece ser um desafio e consola-se da lei social, que determina que um dia os filhos acabam saindo de casa, uns mais tarde e outros mais cedo, em processo típico de crescimento das famílias.

Porquê fez economia?

“Fiz economia, porque em 1983 li um artigo escrito pelo Professor Salomão Munguambe, e estava tão bem escrito, com números, com cálculos… deu-me a vontade de fazer uma coisa como aquelas, um dia. Passados alguns meses, li um outro artigo sobre o Doutor Mário Machungo e voltei a apaixonar-me. Ai foi uma paixão sem ponto de retorno. A minha decisão foi mesmo fazer economia e essas duas figuras, pelas suas produções intelectuais inspiraram-me a fazer economia. O outro facto que e não mencionei, e que é fundamental, é que em 2000 eu decidir ir fazer o meu mestrado na Austrália, para onde fui com a minha família, por dois anos. Ia fazer o mestrado em Marketing. Chegado à Austrália e com toda aquela panóplia de cursos que havia, escolhi um curso que depois mudei para um outro, de MBA em Bolsa de Valores”.

Moçambique dos sonhos

“Tenho duas formas de estar: sonhar ou ajudar a sonhar. Ao longo da minha carreira e ao longo da minha vida, tudo fiz, sobretudo na vida profissional, para que contribuísse um pouco, para que Moçambique se tornasse num bom país para viver. Onde as pessoas pudessem crescer bem, terem melhores condições de vida, terem emprego e habitação, terem a sua reforma e pudessem morrer bem. Em 2003 o Dr Prakash (Ratilal) convidou-me a fazer parte da equipa que estava a produzir a Agenda 2025, foi me dada a responsabilidade de compilar um dos quatro capítulos e o capítulo Economia e Desenvolvimento foi entregue a mim. Tive que andar pelas províncias, pelos distritos, pelos seminários, para colher o sentimento das pessoas sobre os sonhos em 2025. Eu acho que nós estamos a construir esse sonho. Eu acho que esta crise que nós vivemos nos últimos dois anos, não nos desvia da grande figura, ou seja, nós temos um arquipélago, não podemos olhar para ilha. Há um erro muito grande de várias pessoas, que hoje estão a olhar para ilha, quando é preciso ver arquipélago”.

E dai?

“Eu acho que nós estamos a construir este país, fizemos muito para isso. Compare este país com o que estava em 1992, quando acabou a guerra dos 16 anos, com gente descalça e a morrer de fome, na rua. Imagina este país com o que era em 1975, em termos de abastecimento de água, energia eléctrica, actividades empresariais dos moçambicanos, que não havia, o negócio dos chapas, dos mukheristas e das barracas, pequenas ferragens, as carpintarias. Todas estas actividades não existiam.

Veja-se a quantidade de quadros formados, a quantidade de universidades, não pretendo discutir a qualidade. Veja-se a quantidade de estradas, também não quero discutir a qualidade de algumas delas, mas o país não estava ligado em 1975. Não havia uma ponte que ligasse Zambézia e Sofala e construímos a ponte Maputo-Ka Tembe.

Todos estes progressos devem ser devidamente considerados, para que possamos manter a nossa confiança.

Não é menos verdade que não fosse condicionantes impostas, talvez podíamos hoje ter um Moçambique melhor, mas para quem já viu este país numa situação crítica tão má, o que temos hoje é uma bênção, pois não tínhamos nada disto há 20-30 anos atrás.

Temos de dizer que sim, estamos a construir um país, podemos acelerar esse desenvolvimento, temos muitos desafios.

Hoje Moçambique não se debate apenas com desafios domésticos, porque para estes podemos dar um jeito. Mas os desafios internacionais, da migração, do tráfico, o comércio mundial em que estamos sempre em desvantagem, pois dependemos dos que compram o que produzimos.

Para enfrentarmos estes desafios internacionais, enormíssimos, devemos manter o foco. E há uma coisa que é inequívoca para nós conseguirmos esses resultados. Precisamos de construir os eixos centrais.

Quando nós fizemos a agenda 2025 estávamos a construir um eixo central, não importa que governo, se é o município, se é a província, se é a oposição, etc. Toda a gente deve estar focada num instrumento único.

Temos que voltar a resgatar as iniciativas que constroem os valores da moçambicanidade: aquilo que une todos os moçambicanos”, concluiu Luís Magaço.

 

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