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Saber esperar é uma virtude

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A forma exuberante como Moçambique se mobilizou para saudar a assinatura do Memorando entre o Governo e a Renamo sobre questões militares, no âmbito do diálogo ao mais alto nível em busca de paz efectiva e definitiva para o país, talvez tivesse sido mais branda, cautelosa e prudente.

É de toda justiça para com os actores e a sociedade no seu todo reconhecer o mérito desse instrumento, visto como mais uma etapa importante no longo processo de pacificação do país, mas a natureza do próprio documento e o passado histórico da Renamo não aconselham tanta celebração assim.

Um Memorando não é algo vinculativo, não tem o mesmo peso de um acordo, por exemplo, tornando-se, por conseguinte, vulnerável a incumprimento por qualquer das partes. Se até o Acordo Geral de Paz e os Acordos de Cessação de Hostilidades de 2014 a Renamo os atirou à sargeta, o que é que nos garante que finalmente em Memorando a Renano nos vai oferecer paz efectiva e definitiva?

Aliás, os próprios pronunciamentos do coordenador interino da Comissão Política da Renamo, o General Ossufo Momade, estimulam o nosso cepticismo e prudência, face a tamanha ambiguidade que encerram. Ademais, não se conhece guerrilha alguma que tenha sido erradicada, salvo naquelas situações em que essa mesma guerrilha se tornou governo, à semelhança do que se viu com as Forças Populares de Libertação de Moçambique.

As ambiguidades na declaração de Ossufo Momade, sem direito a perguntas, embora fosse numa “conferência de imprensa”, começam precisamente no facto de que a armas serão entregues a um organismo previamente constituído. Ora, esta afirmação carrega consigo uma elevada dose de desconfiança continuada que a Renano “nutre” pelo Estado Moçambicano, que enquanto não removida, o processo negocial só chegará a bom porto com muito sofrimento, se é que ainda não sofremos o suficiente.

Ainda no rol das ambiguidades, Ossufo Momade defende, em nome da Renamo, reintegração e integração humanizada e digna dos seus homens residuais, sem nos clarificar o significado real e honesto deste conceito. Porque desconhecemos em absoluto os termos específicos do tão saudado Memorando, somos tentados a persistir no mundo da prudência. É que tanto uma como outra coisa carrega consigo muita relatividade de difícil convergência.

Somos igualmente tentados, como os demais de bem, a reclamar uma definição clara, específica e desambigua dos conceitos como humanizado, digno e organismo previamente constituído. A dita entidade de confiança a quem a Renamo promete vir confiar as suas armas assassinas, certamente que não terá a mesma visão para diferentes actores. O facto de acharmos que uma entidade “X” inspira confiança, não deve vincular a toda uma sociedade.

Ainda estamos recordados da promessa de Ossufo Momade, de entregar a lista dos homens residuais em 10 dias. Na hora da verdade, no lugar da lista viu-se apenas entrevistas do General a esclarecer que a promessa não incluía o período da discussão! Em consequência, nem ao fim de mais de um mês a lista foi entregue!

E não é a primeira vez. Começamos por celebrar efusivamente, é legítimo, o Acordo Geral de Paz de 4 de Outubro de 1992 longe de imaginarmos que a Renamo estava a vender-nos gato por lebre! Em 2014 celebramos também efusivamente o Acordo de Cessação das Hostilidades. Não interessa os mais de 500 milhões de meticais dos nossos impostos gastos na altura, com a entidade criada (EMOCHIM) para o processo de desarmamento, desmobilização e integração dos homens residuais da Renamo. Nem silhueta disso se viu, porque a Renamo não logrou quebrar a sua tradição de falsas promessas. Objectivamente as hostilidades foram interrompidas, pois elas voltaram, quando e como a Renamo entendeu, impunemente e assim vai continuar, não sabemos por mais quanto tempo.

Enquanto as questões bastante ambíguas não forem resolvidas, aconselha-se optimismo extraordinariamente resguardado. Não precisamos de lupa para verificar que a colocação do general Ossufo Momade está pintada de manobra dilatória para alargar os paços até ao tempo de interesse da Renamo, nomeadamente os resultados das Eleições Gerais de 2019, as tais que numa espécie de cheque em branco condicionam o regresso dos parceiros externos do Orçamento do Estado. O discurso do General está recheado de muitas coisas escondidas, que em nada se aproximam da forma humana com que o Chefe do Estado, Filipe Nyusi, luta por encarar a Renamo.

Por isso mesmo, nós preferimos para esperar para ver o desfecho do cumprimento do Memorando. Ai vamos celebrar na dimensão correcta, pois saber esperar é uma virtude!

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