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OS MITOS E REALIDADES SOBRE O PODER E AUTORIDADE (Parte 1)

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Butsu Makanda

Há uma película que conta a história de um cientista apregoado como famoso, que teria pedido autorização ao Ministro respectivo para realizar uma experiência, para determinar qual seria o nível de choques eléctricos que os humanos podem suportar sem dor. A experiência consistia em arranjar dois voluntários que depois de tomarem conhecimento dos perigos envolvidos, eram usadas como objectos de investigação. Numa escolha “aleatória”, um dos voluntários ficava encarregue de aplicar os choques eléctricos ao outro.

Depois de autorizado, o cientista iniciou as suas experiências e passado tempo, convidou o Ministro que o autorizara para assistir à última fase. Nessa sessão, em que a voltagem era administrada de forma ascendente por indicação do cientista, em cada fase, este ia comentando com o Ministro os resultados. Chegou uma altura em que a voltagem era tão alta, que o recebedor dos choques transpirava demasiado e espumava pela boca. O Ministro mandou parar o processo quando viu o aspecto desesperado do recebedor dos choques. Não só fez isso, como manifestou-se zangado e decidiu expurgar o investigador da equipe dos cientistas. Nesse momento, o cientista explicou ao Ministro que o voluntário que recebia os choques elétricos era de facto um actor. O aplicador de choques era um dos objectos do experimento e aquelas máquinas não tinham corrente eléctrica. A experiência era de facto para saber até que ponto um cidadão aceita cegamente as ordens de uma autoridade. No caso vertente, o aplicador continuava a “infligir” dor no outro, mesmo percebendo o “sofrimento” não justificado da “vítima”. O Ministro também, era objecto da experiência, porque acreditara na autoridade do cientista. Esta história induz a uma reflexão sobre os fenômenos do poder, da autoridade, da liderança e da maleabilidade da sociedade perante esses fenômenos. Os seres humanos sabem que colectivamente podem atingir mais rapidamente os seus interesses comuns, do que individualmente. Neste contexto, há necessidade de liderança que pode assegurar a conquista desses interesses. A liderança pode ser mais ou menos efectiva dependendo do líder, tamanho do grupo social, os seus valores, necessidades, etc.

A necessidade de liderança acarreta factores considerados como vectores aliados à liderança, nomeadamente o poder e a autoridade. O poder aparece como a capacidade que um individuo ou uma organização tem para influenciar a vontade e a conducta de outros, enquanto que a autoridade se manifesta como a forma (legal ou não, reconhecida ou imposta) para exercer esse poder. A autoridade politica é conferida a alguém ou grupo de pessoas para exercer poder sobre a sociedade. A autoridade empresarial é conferida ao Director/PCA, ou um grupo de pessoas (Conselho de Administração, etc.) para exercer autoridade sobre os destinos da empresa.

Muitos estudiosos reconhecem que um líder tem certas características natas e/ou adquiridas, que lhe permitem exercer influência sobre os outros, algumas vezes sem necessidade de uma autoridade conferida. A sua capacidade de liderança pode depender de muitos factores, tais como estabilidade e heterogeneidade do grupo. Por exemplo, é mais fácil convencer um grupo da necessidade do seu reassentamento, quando este grupo está dentro de uma crise de cheias e inundações (instável), do que quando esse grupo parece estável no seu ambiente. Há historiadores que defendem que Adolf Hitler conseguiu chegar ao poder porque a sociedade alemã estava em crises sem precedentes originadas pela depressão econômica dos anos 30 e pela implementação do Tratado de Versalhes, que obrigava a Alemanha a pagar os danos causados pela I Guerra Mundial.

O poder e a autoridade chegam às pessoas de muitas maneiras e nem todas as pessoas que chegam lá tem as premissas que caracterizam um bom líder.  Uma autoridade acadêmica não é necessariamente um líder, e um líder excelente pode não ter grau acadêmico. Nem sempre o poder e a autoridade conferidos a um bom politico traduzem a sua capacidade de liderança. No outro extremo, muitas vezes os liderados ou subordinados depositam as suas expectativas nas mãos do empossado e/ou o vestido de autoridade sem questionar, tal como no caso da experiência dos choques elétricos. Quando o cientista escreve um artigo a defender uma tese, muitos vão absorver essa tese sem a questionar, incluindo outros cientistas que não dominam essa matéria. Os habitantes dos países subdesenvolvidos aceitam com facilidade o que vem dos habitantes do mundo desenvolvido pois já foram doutrinados para pensar que o que vem desses países mais desenvolvidos, vem de autoridade inquestionável.

Na reflexão de mudança de paradigmas, este raciocínio serve para aprofundar os critérios que se usam na escolha dos lideres quer ao nível comunitário, quer no sector de trabalho e ao nível de governação. O uso de critérios limitados faz do direito democrático, um direito exercido com cegueira total ou parcial. E isso pode, e vai limitar o sucesso na busca de coisas de interesse comum.

 

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