Baltazar Montemor

Grande parte do extenso Moçambique debate-se com graves carências até do básico, a exemplo de água, sendo que o norte de Gaza não seria uma excepção.

Facto curioso, mesmo com o drama quase permanente de água, os afectados recusam-se a abandonar as zonas de origem e fixarem-se em áreas próximas do rio, no caso o Limpopo. “Os nossos corações não aceitam qualquer mudança de zona de residência. Estamos bem aqui. Estamos habituados a esta vida. Não se afigura fácil mudar de zona de residência, pois isso haveria de nos criar uma nostalgia que perduraria para sempre. Aliás, os nossos antepassados nasceram, viveram e morreram aqui nestas mesmas condições”, sentencia o velho Pedro Tchaúque, do Distrito de Mabalane, norte da Província de Gaza.

Raulina Tchaúque também diz que o sofrimento ditado pela falta de água é insuficiente para estimular abandono da terra que a viu a nascer. “E impensável abandonar a nossa terra. Os nossos bisavôs, avôs e pais nasceram aqui, viveram aqui e aqui morreram. No seu tempo já não havia água na zona, mas nem por isso se mudaram”.

Rabeca Sithoe comunga do mesmo ponto de vista. Não há sofrimento que justifique o abandono das origens. “Daqui não saímos. Aqui nascemos, vivemos e vamos morrer, estamos habituados. A mudança pode conduzir-nos a novas zonas para uma nova vida ainda mais difícil. Passar dificuldades em terra alheia é extremamente difícil. Nem sabemos o estilo de vida que adoptam para enfrentar o drama de seca”.

Origem da seca

Há correntes que ligam o fenómeno da seca e da desertificação à pobreza que afecta mais da metade da população moçambicana, principalmente no campo, onde se registam com frequências queimadas descontroladas e a destruição de florestas para obtenção de madeira, lenha e carvão vegetal.

Apontam-se questões de ordem social, económica, cultural, segurança social, emigrações, procura de água potável, entre outras, que concorrem para a degradação dos solos. Perfilam  factores de origem natural e humana.

Em zonas como o norte de Gaza e Matutuine, Goba, Changalane e Magude, Província de Maputo, estão bem patentes os factores de origem humana, que se traduzem no desmatamento de florestas para a produção de carvão, único recurso face ao insucesso da agricultura, devido à seca prolongada. Uma prática justificada pela ausência de alternativas de sobrevivência das populações.

Fanuel Novela integra um grupo de 28 jovens, que na região de Mothasse, Distrito de Magude, Província de Maputo, criam viveiros de uma planta conhecida localmente por mulhupfunga, uma espécie de acácia selvagem. Aquele jovem contou que a iniciativa é apoiada pelo Ministério para a Coordenação da Acção Ambiental.

Em perspectiva, a reposição das plantas destruídas pelas populações para a produção de carvão vegetal, principal fonte de sobrevivência de larga maioria da população moçambicana a residir no meio rural, abraço com a pobreza absoluta.

O jovem Fanuel reconhece que a velocidade da destruição da floresta é muito maior que a velocidade imprimida na reposição, com a agravante de se usarem meios rudimentares. “Produzimos estas plantas para a reposição das árvores destruídas. A ausência de vegetação pode conduzir à falta de chuvas, culimando com a seca, que levará à desertificação. Aliás, as plantas conferem outra alegria a qualquer lugar. Com as plantas o subsolo consegue conservar a água da chuva. Tomamos esta iniciativa porque a seca é grave em Mothasse. A população não tem outra alternativa senão recorrer à destruição da floresta para a produção de carvão. Com o dinheiro da venda deste combustível lenhoso as populações compram comida para a sua sobrevivência. Desde 1999 a 2004 a população não colhe nada nas machambas por falta de chuva”, disse.

Numa luta pela sobrevivência populações pobres recorrem igualmente a queimadas descontroladas em perseguição de animais selvagens que servem de alimento. Isto atenta igualmente contra o ambiente são para o homem. Os animais caçados não só servem para auto consumo como também para venda.

Sandra Tchaúque foi viver para Mothasse por força de casamento. Diz ela que da agricultura há pouca esperança, porque a terra está seca. Faz muito tempo que não chove, mas não param nunca de lavrar. E como sobrevivem? Eis a questão.

“Produzimos carvão que vendemos a grossistas de Maputo. Com dinheiro de venda compramos comida. É verdade que o rendimento não cobre todas as necessidades, mas é o que nos resta para a sobrevivência”, disse Sandra Tchaúque.

Artemisa Khossa, também aldeã de Mothase, lamenta a perda sistemática das culturas por falta de chuva. Também vive de produção e venda de carvão que vende igualmente a grossistas de Maputo. Confessa que é um trabalho duro, envolvendo homens e mulheres.

Na sede do Posto Administrativo de Mothasse, distrito de Magude, o director da Escola Primária Completa local, Alberto Costa, disse que muitos alunos abandonam o ensino para ajudar aos pais na luta pela sobrevivência. Natural de Tete, Alberto da Costa está naquela região desde 2002.

Contou que quando chegou a Mothase a situação da seca e falta de água já era muito séria. A população passava muito mal. O rio onde a população tirava água estava seco, passava muito tempo. Todos envolviam-se na abertura de pequenos poços na esperança de encontrar água por perto. Os animais partilham o drama. Mais dramática era a falta de comida. A população alimentava-se de tubérculos aquáticos, localmente conhecidos por mathevu, porque não havia outra coisa para comer. Os celeiros estavam todos vazios.

A situação reflectia-se negativamente no processo de ensino, com muitas desistências à mistura. As famílias (pais e encarregados de educação) levavam uma vida nómada à procura de alimentação. À medida que se deslocavam levavam os seus filhos e o ensino era afectado por desistências em massa.

Alberto da Costa sugere que a educação ambiental devia começar quanto mais cedo, na escola, o que ajudaria no combate a queimadas descontroladas. “Podia-se fazer palestras nas nossas aulas em algumas disciplinas a exemplo da Biologia quando se fala da fauna e floresta bravia. Também podia-se aproveitar recomendar as crianças para cuidarem do ambiente”, disse Alberto da Costa. (continua)

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *