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Ambiente paga pela pobreza humana (4)

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Baltazar Montemor

Noutro extremo da Província de Maputo encontramos exemplo típico de desmatamento que forçou o verde a ceder ao capim seco. Das árvores que tornavam a zona aprazível, nada se vê. Trata-se de acção de desmobilizados de guerra que acabaram fixando residências na aldeia de Alto Inchiza, em Changalane, Distrito da Namaacha, Província de Maputo.

Juvêncio Ambrósio, ambientalista, relata um cenário dramático. Ali faz-se alguma arborização, numa área de cerca de três hectares. Conta que os desmobilizados de guerra fixaram-se na zona com o objectivo de produzir carvão vegetal e lenha. Começava o derrube das árvores. A arborização foi inviabilizada por falta de chuva. A terra está seca!

Ambrósio precisa que o “assalto” à floresta seguiu-se ao fim do conflito armado dos 16 anos, em 1992. “Esta zona era toda verde. A população veio a aglomerar-se aqui. Como as populações não tivessem nada a fazer, dedicaram-se ao corte de lenha e produção de carvão e acabaram dizimando as árvores que estavam aqui, em busca de meio de subsistência. Era tudo um verde contagiante emprestado por plantas nativas como micaias, entre outras!”.

Artur Vilankulos é um dos desmobilizados de guerra empenhados na destruição da floresta. “Não me lembro quando é que foi a última vez que vi chuva aqui. Sobrevivemos cortando lenha e produzindo carvão. Doutro modo não teríamos nem como comprar sal. Aqui não há nenhum projecto, nem loja, nem barraca. É por isso que estamos a cortar árvores, pequenas ou grandes, porque temos essa falta”.

Na zona de Mahelane, Júlio Chiúre afirma que a incerteza em relação à chuva dita atraso das lavouras. “Os campos prometiam. Pena que não tenhamos aberto áreas suficientes, devido ao atraso das chuvas, o que nos causou alguma preguiça. Antigamente fazíamos as lavouras à espera das chuvas que acabavam caindo na hora certa. Mas foram longos os anos de espera e acabou não chovendo. Decidimos ir à machamba apenas depois de chover. Acabamos esgotando os poucos recursos. Quando conseguimos algum dinheiro gastamos na compra de comida para alimentar as crianças e acabamos ficando sem recursos para ajudar nas lavouras. A época chuvosa mudou. Naquele tempo iniciávamos as lavouras em Setembro/Outubro e chovia a seguir. Em Novembro as sementes despontavam e em Dezembro/Janeiro outras atingiam a fase de maturação. Fevereiro/Março era o período de colheita e nada falhava. Agora chove fora da época, apenas para fazer estragos”.

Júlio Chiúre confessa não saber o que é que estará por detrás da mudança da época chuvosa. Admite que a acção do homem também pode concorrer, como a desmatação. “Aqui em Changalane não há empregos e o único recurso para a sobrevivência é a produção de lenha e carvão, o que implica o abate indiscriminado de árvores. Esta acção danifica a fertilidade dos solos, uma vez sabido que as plantas ajudam a manter os solos ricos. Contudo, aqui a desmatação é tal que algumas áreas ficaram autênticos desertos. Como pode observar nem uma planta se vê. A floresta sofreu e continua a sofrer muita destruição”.

Alice Mussagy, da região de Mahubo, opina que a irregularidade das chuvas, com tendência para longos períodos de estiagem para seca severa, pode ser consequência directa das mudanças climáticas associadas à acção do homem.

O fenómeno da seca impõe uma abordagem no contexto do uso sustentável dos recursos naturais e de combate à pobreza. O uso sustentável dos recursos naturais passa por perceber de que forma a componente terra é usada.

Se os fenómenos causados pelo homem podem ser controlados, o mesmo não acontecerá com fenómenos de outra dimensão, cujo controlo não está ao nosso alcance. É disso exemplo a problemática da seca, que tem muito a ver com alterações no comportamento do clima, com o registo de episódios de menos precipitação e em alguns casos de maior precipitação. A temperatura global do planeta Terra tende a aumentar, entretanto com efeitos muito localizados.

Quando esses efeitos incidem sobre um determinando local a vulnerabilidade é extremamente elevada e tudo sobra para o homem: baixas precipitações, evidências de transformação de terras antes férteis em áridas e semiáridas. É verdade que são fenómenos que ocorrem em muitos outros países, todavia, quando existe uma capacidade de resposta eficiente e mitigação torna-se uma realidade.

A capacidade de resposta reside fundamentalmente na melhor gestão dos recursos, principalmente o recurso terra. Todavia, haverá que ter em conta igualmente a necessidade que não pode continuar a ser adiada, de retenção de água e uso racional dessa pouco água, sabido que um dos maiores dramas das zonas afectadas é precisamente a falta deste precioso líquido, o que dificulta qualquer actividade das populações. São bem conhecidos os elevados níveis de desperdício de água em Moçambique, principalmente nos centros urbanos e periurbanos.

Por outro lado, porquê não se pensa na modernização da agricultura, optando-se por aquele tipo de agricultura que vá ao encontro das exigências dos solos? O país continua a praticar culturas que contribuem para a degradação dos solos. Há culturas que consomem mais água, ao mesmo tempo que há culturas resistentes à seca. Segue-se a atitude do homem em relação aos escassos recursos.

Abate-se florestas em extensas áreas perigando a qualidade dos solos. Pelo país fora encontram-se sinais evidentes de má utilização da mecanização e uso excessivo de pesticidas e fertilizantes, utilização inadequada de água e de técnicas de regadio. Tudo isto e algo mais contribui para a alteração física e bioquímica de solos, conduzindo à sua degradação. (continua)

 

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