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Caminhamos para desertificação (conclusão)

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Baltazar Montemor

Uma abordagem histórica remete-nos à conclusão de que Moçambique é um país vulnerável a eventos extremos como seca, cheias e ciclones. Por via desta configuração o país regista uma distribuição irregular da precipitação.

Chove durante 3-4 meses ao longo do ano, entre Outubro e Março. Segue-se depois um longo período de meses sem chuva regular a partir de Abril, em termos médios. A maior precipitação regista-se nas zonas costeiras e montanhosas, principalmente no norte do rio Zambeze.

No outro extremo encontramos uma vasta região com défice hídrico em quase todo o norte de Gaza e em algumas zonas de Inhambane, Manica e Tete. A histórica recorda-nos que no período 1940-1950 Moçambique conheceu uma seca marcante no sul. A calamidade veio a repetir-se no período seguinte, 1950-1960, em Inhambane e Gaza.

Severa foi igualmente a seca registada em 1969-1970 no sul e centro do país. A mais recente seca marcante em Moçambique no período 1982-19883 foi igualmente no sul.

A seca é um fenómeno natural que pode ter como agravante a acção do homem. A ocorrência cíclica das secas e eventualmente a degradação dos solos, resultante desta ocorrência cíclica da seca, aliada às acções humanas (acções antropogénicas), cria condições para que o país esteja susceptível à desertificação.

As áreas mais vulneráveis ao fenómeno da desertificação compreendem a parte ocidente da Província de Maputo, interior das províncias de Gaza e Inhambane, sul e norte da Província de Manica, parte ocidental de Sofala e sudeste de Tete. Estas são as regiões onde o fenómeno da seca ocorre com frequência, sendo que em consequência, a degradação contínua dos solos pode desencadear um processo de desertificação.

Isto alia-se muitas vezes às práticas não muito apropriadas de uso e maneio de terras, a exemplo do abate indiscriminado de árvores para vários fins, práticas agrícolas insustentáveis e em alguns casos, o uso de determinados fertilizantes. No interior de Gaza e em Tete o estado de degradação dos solos pode ser qualificado como início do processo de desertificação no país.

O fenómeno El Nino é um concorrente primordial a ter em conta para a ocorrência de seca, ao alterar os padrões da circulação atmosférica, provocando deslocamento dos centros de convergência. Isto leva à ascensão das massas de ar que criam as nuvens e a precipitação para leste. Os centros de convergência no lugar de estarem sobre o continente para onde a precipitação haveria de cair, acabam movimentando-se para o interior do Oceano Índico para onde a chuva se perde, em detrimento do continente.

Por outro lado, alguns factores de seca nos últimos tempos têm a ver, em primeiro lugar, com o uso da vegetação. Para que haja uma nuvem formada, que dará lugar à queda da precipitação, o mecanismo da transpiração é determinante. São as plantas que transpiram na forma de vapor que condensa, dando lugar à chuva.

Em redor das cidades praticamente já não se encontra vegetação alguma. A título de exemplo, os carvoeiros da cidade de Maputo, há cerca de 40 anos não precisavam de se deslocar a Changalane para cortar lenha e produzir carvão vegetal, pois encontrava-se na periferia vegetação que permitia cortar lenha, talvez antes de chegar a Boane. Hoje nem em Changalane se encontra algo parecido, pois a vegetação está a ser devastada à velocidade da luz para diferentes fins, desde a produção de carvão, busca de lenha, habitação, entre outros, incluindo produção agrícola.

Este quadro provoca redução drástica da quantidade de matéria vegetal resultante da transpiração e em consequência o mecanismo de formação das chuvas e eventualmente da precipitação também reduz. Por outro lado, a emissão das partículas resultantes das queimadas provoca deficiência na formação de vapor de água que daria lugar à precipitação.

Por Moçambique ser assumido como país vulnerável à seca e eventualmente desertificação, impõem-se acções concretas em diferentes níveis, particularmente a nível local, para evitar o contínuo exacerbar do grau e da severidade dos comportamentos caóticos relativamente aos sistemas geofísicos. É crucial a adopção de políticas que diminuam práticas humanas inapropriadas que dão azo à devastação da floresta nacional.

Haverá que pensar-se num quadro que pouco a pouco permita que se ensine e se sensibilize às comunidades, detentoras de grande conhecimento sobre o uso e maneio dos recursos naturais, sobre as formas mais práticas de uso desses recursos.

O fenómeno da seca reflecte-se de forma directa na agricultura. Os camponeses vivendo em zonas afectadas pela seca vêm muitas vezes o seu esforço reduzido quase a nada. Depois de longas e penosas jornadas esses camponeses acabam assistindo, impotentes, as culturas lançadas à terra “arderem”, uma queimada que pode ocorrer a qualquer altura, dependendo do comportamento dos fenómenos naturais, que fogem completamente do controlo do homem – ausência de chuva.

A falta de chuva chega a provocar migrações no campo, a exemplo do norte de Gaza, onde a precipitação não chega a atingir 400 milímetros/ano. A precipitação mínima necessária para as culturas é de 500 milímetros. A baixo desta quantidade todo o esforço é inútil. Consequência directa da seca que também pode ter como origem a acção do homem.

Esta é a causa fundamental da insegurança alimentar por que muitos camponeses passam, para além de outras consequências não menos severas, como a falta de água para o homem e a fauna.

Acreditando em especialistas vamos assumir que a mudança de hábitos seculares das populações rurais é uma importante etapa até incontornável para a redução das causas da seca e desertificação. São, na sua maioria, hábitos impostos pela necessidade de luta pela sobrevivência.

As populações rurais promovem queimadas descontroladas como meio de caça de animais para a sua alimentação, entre outros fins. Igualmente recorrem a queimadas descontroladas para exploração da terra para mil e uma coisas. Por sua vez, a desmatação desregrada é feita em busca de carvão vegetal e lenha, com os quais adquirem dinheiro para a compra de bens manufacturados, incluindo comida, porque a terra já não dá nada.

Quer isto dizer, que os hábitos que concorrem para o fenómeno da seca e desertificação estão também intimamente ligados à pobreza que afecta mais da metade da população moçambicana, principalmente no meio rural.

A questão que se impõe é como convencer essas populações a abandonarem os hábitos através dos quais conseguem sobreviver.

Talvez pensar-se igualmente em fórmulas baratas de produção de energia eléctrica para os centros urbanos. É que a componente promotora de desmatamento em grandes dimensões não é necessariamente rural, nomeadamente para uso de carvão vegetal e lenha. É, sim, a parte comercial. As duas fontes energéticas destinam-se essencialmente ao abastecimento aos centros urbanos. A busca de alternativas deve incluir mecanismos de aumento de renda das comunidades rurais.

 

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