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Delito, padre que a agricultura e política roubaram

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Chama-se Hélder Muteia, nasceu em 1960, em Quelimane, capital provincial da Zambézia, onde fez a sua educação primária e secundária. O destino seguinte foi o Instituto Agrário de Chimoio, na Província de Manica, onde começava a paixão pela agronomia, com a pecuária a ser a opção primária. A etapa seguinte foi em Maputo, onde se forma em veterinária, com mestrado em agroeconomia, na Universidade de Londres, Grã-Bretanha.

Quis o destino que o então chamado celeiro da Nação, Distrito de Chokwé, na Província de Gaza, fosse a porta de entrada de Hélder Muteia para o mundo laboral. Cedo começa por ser dirigente, tendo sido colocado como director do Projecto Avícola de Chokwé, passando depois para a empresa Avícola de Maputo, ainda nos anos 80, quando as empresas estatais estavam no auge, típico da era de economia centralmente planificada.

.A passagem a técnico no Ministério da Agricultura foi a etapa que se seguiu na longa carreira de Hélder Muteia, hoje coordenador sub-regional do Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, FAO, para a região da África Central, depois de representante da FAO na Nigéria, Brasil e Portugal (igualmente junto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, CPLP), desde 2005, ano em que deixa de ser Ministro da Agricultura, na mudança de governo de Joaquim Chissano para Arando Guebuza.

Hélder Muteia chega a Ministro da Agricultura sem queimar etapas, ao progredir sucessivamente de técnico para chefe de sector, departamento, director nacional, vice-ministro e Ministro. “É por isso que tenho brincado com os colegas da agricultura no tempo em que era Ministro, a dizer que eu passei por todos os degraus no Ministério de Agricultura, e conhecia todos os segredos”, regozija-se.

Hélder Muteia não distingue a sua infância da dos restantes moçambicanos. Nasceu nos subúrbios de Quelimane, na fronteira (mínima) entre Cualane e Canapadjú. Frequentou a missão de Cualane, como simples crente e passa toda a infância nesta zona suburbana.

A ida a Chimoio respondia aos ventos da revolução, no contexto da proclamação da independência nacional, depois de em 1979 ter concluído a então nona classe, ou décima classe hoje. É um período em que o Ministério de Educação e Cultura cuidava de todos os alunos, incluindo da afectação pós ciclo para diferentes cursos, sendo que o destino dado a Hélder Muteia foi precisamente o Instituto Agrário de Chimoio.

Hélder Muteia qualifica esta afectação de azar, uma vez que o sonho de qualquer jovem de então era ir a Maputo. “Eu fiquei integrado no grupo que iria a Chimoio fazer agricultura, e foi assim que o meu destino foi traçado, porque inicialmente não era meu objectivo, mas acabei por abraçar a agricultura, que é uma profissão para qualquer moçambicano”, disse Hélder Muteia.

Membro de uma família de nove irmãos do mesmo pai e mãe, mais outros tantos irmãos do mesmo pai e mãe diferente, estimando no total em 16-17, Hélder Muteia frequentou seminário durante quatro anos, para ser padre.

“No seminário aprendi muitas coisas, foi no seminário onde comecei a desenvolver a capacidade de escrita e comunicação, comecei a fazer parte de grupos de literatura e teatro. Naturalmente para fazer isso era preciso ter talento e os padres descobriram esse talento em mim e foi ai onde comecei a ganhar gosto pela leitura. Notei a diferença entre os amigos de infância, que eu tinha uma prática de leitura diferenciada dos outros, eu ia sempre às bibliotecas e trazia livros de grandes lombadas e havia amigos que achavam aquilo ridículo. Ganhei gosto pela leitura e através disso fui-me tornando de certa forma conhecido no liceu, porque havia concurso de poesia, no Instituto Agrário (de Chimoio) continuou. Ganhei um concurso de poesia a nível provincial, em Manica, e depois, conjuntamente com outras figuras, que também se tornaram públicas, criamos o núcleo literário do instituto Agrário de Chimoio. Mais tarde essa experiência viria a ter um grande impacto na criação da “Charrua” (revista literária), através da Associação dos Escritores, mais tarde a revista “Eco”, da Universidade Eduardo Mondlane, que também criou o “Eco Estudantil”, da Rádio Moçambique”.

A literatura projectou Hélder Muteia para o mundo da política, e uma vez membro da Frelimo foi convidado a ser deputado à Assembleia da República. “Eleito deputado da Assembleia da República, foi caminho curto para ser vice ministro e depois ministro.

Do total de 16-17 irmãos, sendo 9 do mesmo pai e mesma mãe, Hélder Muteia, ou simplesmente Delito, como continua a ser carinhosamente tratado, é único que se tornou figura pública. Alguns também o são, mas por caminho diferente. A via da música lançou à praça pública o já falecido Felisberto Félix, que por sinal seguia a Hélder. Aliás, Hélder Muteia também chegou a seguir a carreira musical, lado a lado com Felisberto Félix e continua a tocar guitarra, como hobby, embora não seja o seu forte. Depois vem o Bidjum. Os restantes irmãos são bons profissionais, nas suas áreas, sem serem necessariamente figuras públicas. Não têm projecção pública em áreas nem da cultura nem da política, ficam-se pelo discreto.

A infância de Hélder Muteia é marcada por brincadeiras tipicamente zambezianas: o narigote, uma espécie de um jogo que consiste em encher garrafa de areia (no sul), sendo que as crianças zambezianas amontoam três latas de areia com a bola de futebol a ser colocada em acção para completar o jogo. Jogou igualmente à neca (jogo de quadradinho), que consiste em saltar de um quadradinho para outro. “Brincávamos igualmente caçando passarinhos, com recurso à fisga, mas hoje sou grande defensor de erradicação dessa prática, porque destrói a natureza. Gostávamos também de ir à pesca”. Hélder Muteia jogou igualmente futebol e chegou a federado em basquetebol a nível escolar e pela equipa do Instituto Agrário de Chimoio.

Hélder Muteia conta que a ida ao seminário foi mais pela influência da mãe (muito religiosa), que acreditava que era importante a família ter um padre. E como eu era bom estudante, os padres disseram: olha, dona Inácia, o seu filho é muito inteligente, porque é que ele não vai para padre? Os padres convenceram a minha mãe, o meu pai não estava a favor. A minha carreira de seminarista e potencial padre foi interrompida com a independência. Creio que também deve ter faltado a vocação, porque mais tarde, descobri que um terço dos meus colegas de carteira se tinham tornado padres. Eu nem sabia que eles continuaram e foram convidados a ir a Lourenço Marques para continuarem as suas carreiras como padres e muitos foram consagrados padres. Hoje tenho imenso prazer de algumas vezes ir à missa e encontrar um ex-colega meu a pregar e a surpreender-me com a sua capacidade de comunicação”. (continua)

Baltazar Montemor

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