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Imprensa: meio de liberdade de expressão ou veículo do poder

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A imprensa e os meios de comunicação social, embora tenham surgido e se desenvolvido com boas intenções, ao longo do tempo foram sendo capturados ou libertados, adulterados ou melhorados, descontextualizados ou adaptados.  Por isso não podem escapar a serem analisados à luz de mudanças de paradigmas.

A liberdade de imprensa ė percursor ou parte da liberdade de expressão, conceito que ganha força como reacção às tentativas do poder político acorrentar opiniões públicas e de indivíduos.  Parece que o filósofo Grego Sócrates foi julgado e executado por defender a liberdade de expressão no ano 399 antes de Cristo.

A história da imprensa parece ter começado em Veneza no século XVI, com a publicação periódica de folhas manuscritas, dando notícias da actualidade de factos sobre as guerras e política na Europa. Os primeiros jornais impressos surgem na Alemanha em 1609 e eram severamente censurados.  Decorreram cerca de 100 anos desde o aparecimento dos primeiros jornais impressos censurados, para se iniciar o caminho da libertação da imprensa.  E a Inglaterra tomou dianteira no processo de relaxamento em relação à censura.  O prelúdio do fim da censura, por si só levou quase ao aumento de impressão e circulação de jornais.  Os jornais deixaram de ser um privilégio das elites, para passar a ser acessíveis a classes sociais e econômicas mais baixas. Neste período surgiu o que se denominou de “Novo Jornalismo”, caracterizado pelo surgimento da investigação jornalística, inclusão de artigos de desporto, de fofoca, entrevistas e mistura de opinião jornalística com opinião dos eleitores.  Uma das facetas do Novo Jornalismo foi o aparecimento de “Cartas ao Editores” escritas por eleitores. Alguns jornais adoptaram a existência de paginas inteiras dedicadas a “Cartas dos Leitores”, onde estes expressavam livremente a sua opinião.  Isto ampliou bastante o exercício democrático de liberdade de expressão, e consequentemente a liberdade de imprensa. Mas nem tudo o que trouxe o “Novo Jornalismo” eram flores. O subjectivismo ganhou mais espaço e diminuiu a importância dos factos. O jornalista (antes quase invisível) passou a ser mais importante do que o seu artigo. A ideia inicial de reportar os factos e tecer uma opinião sobre eles deixou de ser o ponto principal. O facto noticiado deixou de ser o cerne da questão, passando ate poder estar ausente, ou amputado e manipulado. O brilho e a fama do jornalista passaram a ditar o que é verdade ou mentira. A mentira passou a ser propalada por omissão ou por meias verdades. Esta nova dimensão do jornalismo, criou espaço para que alguns gurus do jornalismo (entre eles o William Thomas Stead [1]) aparecessem com a ideia de “governação através do jornalismo” via usando a media para influenciar a opinião publica e dos políticos, bem como a governação. Embora a ideia de influenciar o público e as políticas governamentais através do jornalismo tenha o seu mérito na ampliação dos fundamentos democráticos, esta ideia foi progressivamente sendo “capturada” pelo poder do capital para ampliar o domínio destes nos meios e conteúdos da comunicação social sobre as massas. No inicio do século XX assistiu-se a espectáculos em que as grandes empresas e os bancos usaram a imprensa para promover interesses seus, incluindo o encobrimento de actos ilícitos. Um número considerável de editores de jornais e jornalistas começaram até a fazer chantagem a altas individualidades, ameaçando-as de publicar certos ilícitos se essas individualidades e entidades não desembolsassem certos fundos. Diz-se que a Rússia e a Turquia nessa altura pagavam somas avultadas de dinheiro a jornais Franceses para garantir o sucesso das suas obrigações de tesouro vendidas em Paris. Diz-se ainda que a Rússia pagou milhões de francos para encobrir os aspectos negativos da revolução de 1905. Durante a I e II Guerra Mundial, muitos jornais viraram mais a órgãos de propaganda do que trazedores dos factos. Joseph Goebels, Ministro de Propaganda durante o regime Nazi na Alemanha dizia para os seus quadros para pensar na imprensa “como teclado onde o Governo pode brincar” e dizia: “não seria impossível provar com repetição suficiente, que um quadrado é de facto um circulo”. Assiste-se neste período a um processo de manipulação, usando palavras simples moldadas ao ponto de encobrir verdades ou impor ideias. Ainda hoje, se vê como se monta uma narrativa embalada sobre um facto falso, que pela via de repetição e reprodução acaba se tornando verdade. Quando o repórter, o jornalista ou o locutor inicia uma frase que diz “o respeitado Doutor ou Deputado Fulano de Tal” está a persuadir o leitor ou o ouvinte a não duvidar da ideia ou opinião expressa por esse “respeitado”.

Neste cenário, a imprensa vai cada vez mais preenchendo espaços no exercício de poder. Mas não é de facto o poder dela. É o poder dos interesses de quem está por trás dela. E assim, o pensamento de Benjamim Franklin (dono de um jornal) de que “a imprensa é um serviço público com deveres para com o público” vai se esfumando em muitos quadrantes do mundo”.

A urbanização acelerada que inicia no XX, ampliou o acesso a imprensa, o que trouxe o conceito e a cultura de massas. Com a urbanização foi possível atingir muita população sem sofisticar bastante a logística e a própria tecnologia de comunicação. Este fenómeno ajudou bastante a eficiência jornalística e a imprensa se orientou para uma padronização de consumo e transmissão de valores. A comunicação passou a ser mais terra a terra, mais mundana e mais simplificada. A informação passou a ser um produto de consumo e os órgãos de comunicação, para consolidar a sua posição no mercado, sacrificaram ainda mais a noticia e os factos para ampliar histórias sensacionalistas, fotografias chocantes ou cativantes, páginas desportistas, de culinária, etc. A publicidade e as revistas temáticas ganharam muito espaço. Ajudadas pelo aparecimento de “haltfone”[2] a fotografia passou a ser um novo chamariz dos consumidores de informação. Isto tudo aguçou o apetite do negócio e do lucro, e a imprensa que apregoava a sua independência e liberdade, passou a estar também sob o domínio de empresas financeiramente poderosas. E como todo o negócio é ansioso de tomar o poder económico e politico, o século XX assistiu a um processo de concentração de propriedade dos meios de comunicação e dos seus conteúdos. Hoje, cada vez menos indivíduos e organizações controlam os meios de comunicação a escala mundial. Os países com músculo financeiro e politico albergam hoje os grandes conglomerados dos meios de comunicação. Entre esses gigantes se distinguem o National Amusements, 21st Century Fox Inc (que se acaba de se juntar a Disney), Sony Corporation, Comcast, The Walt Disney Company, AT & T Inc, Hearest Communications, MGM Holdings Inc, Grupo Globo e Lagardère Group.  Estes gigantes controlam a indústria cinematográfica, jornais, revistas, canais de televisão e a edição e publicação literária. Com menor dimensão, o fenómeno de concentração do poder de controle dos meios de comunicação e do seus conteúdos vai acontecendo em todos os continentes. No continente Africano temos os grupos Naspers, IPP, Nation Media Group, Silverbird Productions, Avusa, entre outros. Se se tomar em consideração a entrada da internet como plataformas de comunicação de massas, sobretudo na publicidade, o cenário de concentração de poder nos media parece mais tenebroso. A Google e Facebbok sozinhos tomam cerca de 20% da publicidade global no mundo, de acordo com a Edição “Zenith’s Topo Thirty Global Media Owners”. As 10 maiores empresas de media no mundo, controlam mais de 60% dos conteúdos jornalísticos e cinematográficos e tem um valor combinado superior a 100 biliões de dólares.

O fenómeno de monopólio da imprensa continua com os famosos “mergers” e formação de oligopólios. As grandes empresas compram as mais pequenas, ou estas se limitam a ser amplificadores dos conteúdos dos grandes.

A concentração da média em poucas mãos, põe em causa a habilidade dela servir o interesse publico.  A orientação para o lucro, das empresas detentoras de meios de comunicação põem em causa a moral e a integridade dos conteúdos. E o uso da media como um instrumento de poder, deita fora a noção de independência e liberdade de imprensa. Hoje se criou o conceito de que a imprensa privada é independente, e a dos Estados e Governos não é independente. Mas de facto nem a imprensa pública, nem a privada são independentes. Todas tem que obedecer a política editorial e interesses do seu dono. Felizmente ainda há muitos jornalistas que se presam pela sua integridade e ética. Mas esses só podem existir como “free lancers”, expostos a vários perigos, incluindo o seu assassinato e intimidação.

O uso da media como instrumento do poder se alastra para áreas mais obscuras. O trabalho dos jornalistas impõe que eles investiguem pessoas, instituições, organizações, etc. Ao fazer o seu trabalho, os jornalistas se tornam potenciais activos ou inimigos dos serviços de inteligência de estados e de organizações privadas de espionagem. E por isso, muitas vezes se estabelecem alianças ou inimizades entre a média e esses serviços. Muitas empresas privadas de inteligência, relações publicas, gestão de imagem e mitigação de riscos contractam jornalistas activos e reformados para o seu quadro de pessoal especializado.

A verdade é que parece que o conceito de liberdade está rodeada de paradoxos, de tal modo que quanto mais se fala dela e dos direitos associados, mais parece que ela foge. E tudo isto é de certa forma esperado nos sistemas políticos e de economia onde o poder central é ditado pelo capital e pelo lucro. O que já não deveria ser esperado é que os cidadãos se deixem enrolar sem questionar o que se lê nos periódicos ou se ouve nas rádios e nas televisões.  O cidadão deve se libertar da ideia de que a media aumenta a sua liberdade, e que a internet, tal e qual como é hoje, é o instrumento da sua salvação.  Há uma frase celebre de Voltaire que diz “Eu reprovo o que estas a dizer, mas vou defender até a morte o teu direito para o dizeres”. Quando a politica editorial dos órgãos de comunicação for fundada neste pensamento e o jornalista assumir que o patronato defende o seu direito de dizer o que ele quer dizer, estar-se-á no caminho em que os meios de comunicação se livram do facto de serem meramente veículos do poder.  E o cidadão terá uma mente mais aberta e mais activa para não se deixar ficar como puro consumidor do que se escreve.

[1] William Thomas Stead foi o pioneiro do jornalismo investigativo, editor do jornal do jornal “The Pall Mall Gazete”. É conhecido por ser o protagonista que influenciou a alteração legal da idade de consentimento de 13 para 16 anos.

[2] Tecnologia que surge em 1880, e que permite  estimular em tons contínuos a reprodução de imagens.

 

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