Início Entrevista Hélder Muteia e revolução agrícola (2)

Hélder Muteia e revolução agrícola (2)

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Hélder Muteia é dos poucos moçambicanos que tendo ingressado no ensino ainda no período colonial, não sentiu na pele a discriminação, beneficiando do facto de a guerra de libertação estar no seu clímax, o que obrigou o colono a refrear certos males infringidos aos legítimos donos de Moçambique.

Contudo, nem com isso Hélder Muteia se esquece de que nesse regime a discriminação era uma prática recorrente. Delito ingressou na escola numa fase em que o regime colonial português fazia todo o exercício para alguma abertura. “Por exemplo, no tempo do meu pai, um negro em Quelimane (capital provincial da Zambézia) só podia estudar até à quarta classe. Ao meu irmão mais novo do meu pai ainda permitiram que fosse fazer o quinto ano do Liceu e quando foi fazer o serviço militar (colonial) já era Furriel, com outras condições melhoradas. Havia esse esforço do regime colonial de abrir espaços”.

Nascido no bairro suburbano de Coalane, Hélder Muteia muito cedo, quando concluiu a segunda classe, foi transferido para escola de elite da Zambézia, a actual Escola Primária de Quelimane, na altura Vasco da Gama. “Nós sentíamos a descriminação, mas ao mesmo tempo havia esse esforço do regime colonial de abrir-se um pouco maus”, disse Hélder Muteia.

Tal como muitos moçambicanos da sua época o académico, escritor e político nasceu numa palhota, mas aos seis anos já estava numa casa melhorada, coberta de chapa de zinco. Aos 14 anos, antes da independência, Delito já vivia numa casa maior, com água, luz e electrodomésticos. “Havia esse conforto relativo que o regime português ia criando, que fazia com que as crianças não sentissem que estavam num regime muito opressivo, mas os nossos pais, esses passaram chicotadas que nós não passamos. Os nossos pais passaram por prisões arbitrárias, o regime colonial era muito cauteloso ”.

O pai de Hélder Muteia chegou a estar preso, por muito pouco tempo, pelo regime colonial, por suspeita de ligações à Frente de Libertação de Moçambique. Como fosse funcionário público, mal foi restituído à liberdade foi “compensado” com promoção na categoria profissional. “Foi uma situação em que nós sentíamos, sim, a descriminação, mas havia esse esforço, também, paralelamente, que atenuava o impacto”.

Como era natural, a seguir à independência, por força da fuga de quadros que serviram ao aparelho estatal colonial, Delito teve um ingresso natural na Função Pública. Bastava concluir-se um certo grau escolar ou académico e o respectivo diploma para afectação automática. O Ministério do Trabalho enviava ao Ministério de Educação e Cultura a lista de necessidades em termos de mão-de-obra e este correspondia enviando as listas de estudantes com perfil para as vagas existentes.

“Eu fui nomeado director de um projecto no Chokwé (Província de Gaza) sem me conhecerem. Eu estava ainda em Quelimane a passar férias depois dos meus estudos em Chimoio, que me fui informado de que o senhor vai para Chokwé. Não me tinham dito que era para ser director, mas quando eu cheguei ao aeroporto (Maputo) levaram-me para o hotel e disseram: o senhor vai para Chokwé. Eu disse não, eu vim para Maputo. Chegado a Chokwé disseram: o senhor vai ser director aqui. Eu esperava ter um chefe lá, foi muito complicado, porque eu nunca tinha tido uma empresa, o máximo que tinha chefiado era turma (escola), para de repente ter uma empresa para gerir. Mas como tinha trabalhadores mais experientes, grande parte com ensino secundário e analfabetos, mas com muita experiência do regime colonial, eles é que me foram dando as dicas de como as coisas funcionavam e rapidamente conseguíamos adaptar tudo ao contexto actual”.

Hélder Muteia qualifica este quadro de uma entrada abrupta no mercado de emprego, num período em que nem havia dilema de falta de emprego. O aluno ou estudante formou-se, logo a seguir tinha emprego, e bom emprego, porque havia uma falta gritante de quadros.

Delito chegou a Ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural num período de grande viragem, que conduziu à revitalização do sector, no quadro da reconstrução do país pós-guerra. Foi na era de Hélder Muteia que se desenhou e implementou-se o Programa Nacional de Desenvolvimento Agrário, PROAGRI I.

Hélder Muteia ainda era vice-ministro da Agricultura, quando o país promoveu uma reflexão sobre medidas a adoptar para a revitalização da agricultura. Desta reflexão resultou que o país precisava de um programa de reestruturação do sector agrícola, que viria a culminar com o PROAGRI I, com o objectivo final de tirar o país do paradigma de emergência, em que imperava um exército de ONGs, numa anarquia total.

Nascia um programa liderado pelo Estado, actores nacionais, enquadrados dentro de uma política clara. Hélder Muteia lembra-se que o PROAGRI I contou com um orçamento de cerca de USD 200 milhões para um período de cinco anos. “Foi durante o PRAGRI que nós conseguimos sair daquela emergência básica e ultrapassamos a fasquia de um milhão de toneladas de milho, fizemos o programa de repovoamento pecuário, revitalizamos o sector de produção de hortícolas, introduzimos algumas culturas como ananás, soja, produzimos a nível do Instituto de Investigação Agrária uma variedade de milho matuba, moçambicana, reconhecida internacionalmente e criamos áreas de conservação que começaram a ser respeitadas. Foi uma fase em que reestruturamos o sector agrário e foi fundamental para a fase em que estamos hoje no sistema agro-alimentar, em Moçambique”, disse Hélder Muteia.

Ainda no mandato de Hélder Muteia como Ministro de Agricultura e Desenvolvimento Rural chegou a ser desenhado o PROAGRI II, cuja implementação não chegou a ser completada. Arrancou, mas tremenda descoordenação entre os doadores e o próprio governo não evitou que o PRAGRI II não avançasse. Chegou a ser implementado, mas não na dimensão que se esperava.

Sobre o que podia ter sido feito da melhorar maneira, Hélder Muteia ironiza que não é especialista em lamentações. “Eu acho que nós fizemos o que era possível fazer, e no contexto. Aquilo que não fizemos é porque não era possível fazer daquela maneira. Por exemplo, nós tínhamos a ambição de criar um Banco Agrícola, era nossa intenção e batalhamos para isso, mas não foi possível, não houve consensos e foi nos convencidos de que isso não teria sustentabilidade. Nós tínhamos pensado, na altura, em criar, por exemplo, unidades de produção multi desenvolvidas em cada província, que respondessem a diferentes regimes agro climáticos, mas criamos alguns só, sub-regionais. Naturalmente estão a cumprir o seu papel, mas teríamos avançado muito mais se tivéssemos conseguido criar em cada província pelo menos dez centros de investigação agrícola. (continua)

 

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