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Não me zanguei com país

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Hélder Muteia, ou simplesmente Delito, como carinhosamente é tratado na sua terra natal, Quelimane, capital provincial da Zambézia, entra para o mundo da política em 1994, quando é eleito deputado à Assembleia da República. Não chegou a concluir o mandato, pois em 1998 foi nomeado vice-ministro da Agricultura, cargo incompatível com a função parlamentar e teve de suspende-la. Dois anos depois, em 2000, foi nomeado Ministro da Agricultura, corria o segundo mandato do Presidente Joaquim Chissano.

Em 2005, primeiro ano do primeiro mandato do Presidente Armando Guebuza, Hélder Muteia é preterido. “Em 2005, o camarada Guebuza achou que eu não era pessoa indicada para dirigir os destinos da agricultura”, lembra Hélder Muteia. Segue-se uma chuva de solicitações irrecusáveis.

“Na mesma semana em que eu não fui integrado no novo governo recebi chamadas de diversas organizações, uma delas da FAO (Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), que diziam: é verdade que tu estás livre? Nós precisámos de ti. E foi assim que eu fui deixado disponível para a humanidade. Muitas vezes o destino é escrito assim, fiquei disponível para puder começar a servir à humanidade e o meu destino foi traçado assim. Não estou zangado com o meu país, simplesmente o meu destino é servir também à humanidade. Já servi um pouco ao meu país, um dia hei-de voltar para continuar a servi-lo, mas o meu percurso foi traçado para um dia servir à humanidade e é o que estou a fazer”, diz Delito.

Hélder Muteia recorda que aquilo que parecia um azar acabou sendo uma bênção. “Eu lembro-me que o termo que alguns amigos usaram foi: é pá, caíste, mas é verdade que caíste do governo? Muitas vezes quando a gente cai de uma porta é verdade que há uma outra que se abre para a gente se levantar e mostrar aquilo que temos como contributo que pode continuar a prestar”.

Delito diz que na FAO mantém o mesmo conforto que sentia quando dirigia em Moçambique. Enfatiza que quando era Ministro de Agricultura era homem de campo, nunca foi de se acomodar no conforto de ar-condicionado do gabinete. Nas Nações Unidas (FAO) continua no terreno/campo a partilhar os problemas dos agricultores, produtores e da gente que precisa do seu apoio.

A diferença está apenas no país e na língua. Na Nigéria comunicava mais em inglês e no Gabão, África Central, onde se encontra agora, a língua dominante é o francês. De resto, os rostos são os mesmos, as realidades, os problemas, os desafios, os desempenhos e o empenho da sua parte convergem na ajuda aos que mais sofrem.

Há, no entanto, algumas diferenças relativamente a realidades, havendo umas mais duras que as outras, com maiores sacrifícios em África, com uma fome muito presente, grupos vulneráveis igualmente muito sofredores.

“É verdade que a pobreza que encontramos na Nigéria não é a mesma que encontrámos em Moçambique. A Nigéria é um país muito mais evoluído que Moçambique, com menos pobreza que Moçambique, mesmo na África Central os índices da pobreza não são tantos como aqueles que enfrentamos em Moçambique. Em Moçambique os índices de pobreza estão a melhorar, mas quando formos ao campo, no interior, a pobreza ainda está muito presente em Moçambique. Os níveis de pobreza que nós encontramos no interior de Moçambique já não se encontram nem no Gabão, nem no Congo (Democrático), nem nos Camarões, nem no Chade. Em Moçambique são níveis elevadíssimos de pobreza, muito embora a nível urbano, em Maputo, por exemplo, a realidade seja outra. Maputo vive uma realidade que se equipara a algumas capitais europeias ou da América Latina. Mas há diferenças, o Brasil, por exemplo, é um país onde se aprende muito, em termos de organização agrícola”.

Hélder Muteia, que igualmente representou a FAO em Portugal e em simultâneo junto da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) confessa ter aprendido bastante do Brasil e não só. “Portugal, sendo um país europeu, também tem realidades que nos desafiam e nos ensinam”.

Enfatiza que em Moçambique o país rural e o país urbano são extremamente díspares, com enorme distância, o que não se nota na África Central, onde se nota algum equilíbrio, com os níveis de pobreza a não se revelarem tão expressivos como se vive em Moçambique. Por outro lado, os níveis de conforto que se vivem em Maputo são bastante elevados comparativamente à realidade vivida nos países que citou.

“É para esse contraste que temos que olhar, reflectir e equilibrar. Olhar um pouco mais para o campo, pois se temos capacidade de criar níveis de conforto nos centros urbanos temos que ter também capacidade de criar conforto no meio rural”.

Pronto para regressar

“Ao chamamento da pátria a gente nunca diz não. Eu tenho alguns colegas nas Nações Unidas, em diversas funções, que já responderam ao chamamento dos seus países e cessaram as funções. Nós, nas Nações Unidas, temos bons salários, temos o conforto, mas abandonaram tudo para irem servir aos seus povos. Para que a gente dê uma resposta é preciso estar confrontada com uma realidade específica, que é o apelo para corresponder, e tal como os colegas, que já responderam, eu creio que para mim não será uma grande dificuldade em corresponder e voltar para servir ao meu país”, disponibiliza-se Hélder Muteia.

Para Delito, Moçambique é um país que nos oferece o possível, com um longo percurso que começa com a experiência colonial, uma das etapas marcadas por grande sofrimento. O regime colonial tentou e fez de tudo para permanecer no poder, mas acabou cedendo às pressões de alta determinação de um povo.

Moçambique alcançou a independência nacional, sobretudo política, desencadeou uma grande luta, sendo que a geração de Hélder Muteia representa todos os actores dessa luta. Hélder Muteia saiu da escola directamente para o trabalho, trabalhou como político, ao nível de governo contribuiu na liderança, e em tempo de retrospectiva diz que face à possibilidade que lhe foi dado, de ter feito alguma coisa, evita sempre dizer mal de Moçambique.

Conforta-lhe dizer que é o país possível, é o país em que os moçambicanos tentaram realizar obra e é nele onde hoje buscam felicidade, garantindo que todas as pessoas sejam integradas. “Mas eu creio que podemos avançar mais céleres, acredito que há sempre espaço para melhorar, Moçambique pode ser um país melhor do que é, hoje, mas é um país possível e é a partir desta base que devemos avançar”. (continua)

 

 

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