Baltazar Montemor

Intrusão salina e salinização dos solos, dois fenómenos que resultam mais da acção do homem do que da natureza. É uma realidade que afecta a totalidade dos rios que atravessam Moçambique, principalmente os que desaguam no Oceano Índico e extensas áreas irrigáveis.

“Temos uma grande parte, a partir da zona de Macaneta até aqui (vila de Marracuene, Província de Maputo), onde já não se está a produzir absolutamente nada. Não é possível produzir, porque houve muita salinidade e os terrenos estão gravemente afectados”, disse João Palate, da União das Cooperativas Agro Pecuárias de Marracuene.

Palate aponta como causa principal, a destruição de barreiras na zona da foz do Rio Incomáti, para dar lugar à construção de infra-estruturas (acção humana). O Incomáti revela-se imponente e vai cedendo importante espaço ao mar.

O biólogo Carlos Bento define intrusão salina como sendo o processo da entrada da água do mar pelo rio adentro. Uma das causas da intrusão salina é a diminuição do caudal dos rios, que tem como origem a acção do homem, que faz diferentes usos a montante.

Os sistemas de irrigação, por exemplo, extraem grandes volumes de água, sobretudo se for um rio com grandes extensões de terras cultiváveis. O fenómeno pode, por outro lado, ser provocado por exploração hidroeléctrica dos rios, ou uma simples represa.

A represa consiste na retenção artificial de água, que é liberta gradualmente em períodos de escassez. Em consequência, o caudal, a jusante, reduz-se inevitavelmente. A força de água do rio torna-se menor que a força de água do mar, que acaba penetrando pelo rio adentro.

A exploração de água subterrânea concorre igualmente para a ocorrência de intrusão salina. O efeito grave acentua-se quando se explora de forma massiva a água subterrânea ao longo da costa. Esta exploração determina uma redução significativa do nível freático. A pressão que a água doce faz sobre a água salgada diminui. Em consequência, a água salgada ganha terreno e penetra no lençol freático. Na maioria das vezes a penetração vai até ao ponto de captação, conduzindo à salinização dos solos.

A salinização dos solos começa com a irrigação dos campos com água salgada. Com a evaporação, o sal fica à superfície dos solos. Mais tarde, quando essa quantidade de sal aumenta os solos começam a ficar impraticáveis para a agricultura.

À primeira vista o processo de penetração das águas do mar no interior de rios pode ser considerado normal. Os rios normais, sem regularização da água, em épocas chuvosas recebem muita água que drenam para a lavagem dos ecossistemas a jusante. Na época seca os rios diminuem significativamente o seu caudal, cedendo espaço ao mar.

Todavia, esse processo não tem muitos efeitos, é um fenómeno natural que permite uma lavagem quase constante do rio. Em rios com regularização essa lavagem deixa de ser regular, o que dá lugar à intrusão salina.

A intrusão salina e salinização dos solos traduzem-se em consequências graves para o ambiente. A consequência directa vai para a agricultura, uma vez que os solos perdem aptidão, ou simplesmente ficam inférteis.

A Província de Gaza, potencialmente agrícola, é uma das regiões do país afectada pelos dois fenómenos. “A agricultura está a deixar de ter expressão na Província de Gaza, por causa da intrusão salina e salinização dos solos, que destroem a matéria orgânica, incluindo a emissão de gases”, lamenta Anastácio Mathavele, Presidente do Fórum das Organizações não-governamentais em Gaza. Sintetiza que a situação compromete a produção e produtividade agrícola e, acima de tudo, grandes projectos e o consumo de água para o homem e para os animais. “Em cadeia, esta situação compromete, de facto, a existência do homem e de toda a matéria orgânica (culturas e tudo mais) ”, frisa.

Todos os rios moçambicanos que desaguam no mar estão afectados pela intrusão salina e salinização dos solos. O Rio Limpopo, que nasce na vizinha África do Sul e desagua no mar, através da Província de Gaza, não podia ser excepção.

Armando Ussivane, Presidente do Conselho de Administração do Sistema de Regadio do Baixo Limpopo, aponta duas causas: a primeira está ligada aos solos daquela região, que provêm de depósitos marinhos, sendo responsáveis directos pela salinização primária, proveniente da rocha mãe. Segue-se a salinização secundária, que provem de uma má drenagem ou más práticas de gestão dos solos. Isto acontece quando os solos não estão em condições de fazer uma lavagem natural dos sais.

“Normalmente ocorre um processo de fluxo em que quando o processo de lavagem é insuficiente, através do sistema de irrigação ou de chuva, os sais tendem a ascender para a zona superficial dos solos. Mas quando temos esta prática de irrigação, com um maneio adequado, acompanhado de chuvas suficientes, a tendência do sal é de precipitar-se. Para isso é necessário que haja condições criadas para que se processa essa lavagem, nomeadamente um sistema de drenagem a funcionar em pleno”, explica Armando Ussivane.

É extensa a área do Rio Limpopo afectada pela intrusão salina e salinização. Há zonas onde a salinidade ainda não se apresenta acentuada, sobretudo a montante e a zona intermédia da Bacia, nomeadamente Chókwè, onde já começa a ocorrer sinais de salinização e muito mais na zona a jusante, Baixo Limpopo, onde se encontram extensas áreas com graves problemas de salinidade. Na zona mais a jusante da Bacia do Limpopo ocorre a intrusão salina, devido à subida do nível das águas do mar e penetração progressiva da cunha salina no rio.

“Este é um dos problemas que vem afectando a produtividade dos solos, porque com uma baixa qualidade de água não há condições de se efectuar a rega. Diria que naquela zona de Xai-Xai da ponte mais para a jusante, existem vastas áreas que não podem ser utilizadas nem irrigadas com recurso a água do rio, porque não é de boa qualidade (sofreu intrusão salina). A situação actual é que nós assistimos a uma progressão da cunha salina, numa extensão de 61 quilómetros do rio até à foz” precisa, Armando Ussivane.

Nas zonas irrigáveis do país são várias as manifestações dos efeitos directos da intrusão salina e da salinização: a perda da produtividade dos solos. Os agricultores não conseguem rendimentos de acordo com o potencial, pois o sal é uma limitante bastante considerada na produtividade dos solos. A salinização, ou seja, a qualidade da água tem igualmente uma influência negativa na produtividade. A mudança da situação passa por recursos adicionais e onerosos de irrigação.

A perda da produtividade dos solos, em consequência da intrusão salina e salinização, verifica-se em muitas regiões do país. Malingapansi, um Posto Administrativo do Distrito de Marromeu, em Sofala, é um exemplo típico desta realidade. De grande produtor de arroz, ficou apenas a história. É uma aldeia a cerca de 60 quilómetros da vila de Marromeu, muito próximo de um dos braços do Rio Zambeze.

No passado, as comunidades de Malingapansi tiravam água de um desses braços do Zambeze para irrigar as áreas de produção de arroz. São tempos em que o fluxo do Zambeze era muito forte e não ocorria intrusão salina. Com o tempo a água sofreu salinização. Sem se aperceber, as comunidades continuaram a usar as mesmas águas para irrigar os campos agrícolas e não se evitou a salinização dos solos. Hoje, a produtividade de arroz em Malingapansi é quase zero.

Existem casos em que mesmo os mangais, resistentes à salinidade, acabam morrendo, devido à ocorrência excessiva do fenómeno. “Em alguns locais, ao longo da costa, vemos uma mortalidade massiva dos mangais, até parece que passou lá uma bomba atómica em que vemos muitas árvores mortas, concentradas no mesmo sítio. Isso não é nada mais nem nada menos que os efeitos da intrusão salina”, denuncia Carlos Bento. O biólogo alerta que locais afectados, por qualquer obra de engenharia, como a construção de diques, bloqueiam a passagem de água doce para fazer a lavagem dos solos e com o andar do tempo o índice de salinidade vai aumentando.

Os mangais toleram a salinidade, mas quando se ultrapassa o limiar desse índice de tolerância, como parece ser o caso, começam a não aguentar e não há como evitar a mortalidade massiva, ao longo da costa. (Continua)

 

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