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Tempos livres de Delito

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Não há para a humanidade, ocupação que retire o imperativo de refrescamento, sob pena de colapsar, nem que esse refrescamento se confunda com mudança de actividade.

Hélder Muteia passa grande parte do seu tempo com livros. Diz que lê muito, não só livros de literatura, poesias, contos e romances, mas sobretudo livros técnicos, para poder responder à enorme pressão das Nações Unidas, de onde é funcionário sénior (representante da FAO), para compreender as coisas, estudar para conhecer diferentes línguas de trabalho, português, francês, espanhol e português.

Menu que basta para determinar um exercício de leituras extremamente dedicadas, diariamente. Delito diz que também gosta muito de dar um passeio para recarregar as baterias para novo dia, novos desafios, pelo campo e pela cidade, sendo que os fins-de-semana são mais dedicados a saídas com a família (esposa), para uma volta por algum cinema ou supermercado para ajudar na compras. Não dispensa passagem por um restaurante para um café, com amigos ou igualmente com a família, e embora não beba álcool, não se inibe de acompanhar aos apreciadores, conversando às vezes para um pequeno brinde. Chocolate quente ou outra coisa como sumo natural, aprecia bastante. Mas de tudo isto, a leitura está em primeiríssimo plano.

Nesta carreira de servir à humanidade, desde 2005, Hélder Muteia já passou sucessivamente por Nigéria, Brasil, Portugal e agora Gabão. A adaptação a cada realidade não tem sido problema. “A adaptação é espontânea. A parte mais difícil foi o primeiro país, porque foi a primeira vez que nos confrontamos com essa realidade, porque temos de repente uma realidade diferente, um país diferente, regimes diferentes e uma língua diferente. Mas depois de passar o primeiro teste, é tudo muito natural e até a gente dá mais vontade de querer mais um desafio, em 3-4 anos”.

Hélder Muteia diz ter ficado muito feliz quando foi colocado a trabalhar numa zona francófona, porque sabia que sairia do francês do ensino secundário e mercê do desafio, hoje é fluente nesta língua e aprendeu que rapidamente se impõe o acerto do passo com as populações locais e em línguas locais.

Nesta “sazonalidade profissional” os filhos igualmente sofrem, mas ganham alguma coisa. “Por exemplo, a minha primeira filha conseguiu integrar-se rapidamente no mercado de trabalho, porque ela fala o inglês como a sua primeira língua, tanto fala português como fala inglês, porque ela foi educada em inglês. Então, os meus filhos têm esse privilégio, falam o inglês como se fosse a sua língua materna e quando chegam ao mercado de trabalho a sua integração é automática, porque falam, escrevem e pensam em inglês e as empresas precisam muito disso”, congratula-se, Delito, que conclui que aquilo que é um problema acaba sendo uma vantagem.

Hélder Muteia lamenta, no entanto, que os filhos não sejam fluentes nas línguas maternos dos pais. Ele é chuabo, de Quelimane, Zambézia e a esposa changana, de Gaza. A comunicação familiar é feita em português, a única língua que os filhos aprenderam. “Mas quando eles fossem a Quelimane a comunicação com os avós era natural, porque os meus pais falavam fluentemente o português, com um nível muito elevado, porque foram educados em português e todos tinham formação de nível secundário. Com os meus pais eles não tinham problemas, tinham problemas com alguns outros familiares, mas muito poucos, porque na Zambézia as pessoas se esforçam muito em aprender a língua portuguesa. Tive dificuldades na parte dos avós maternos, porque ai a comunicação às vezes requer tradução. Eu lamento muito que nenhum dos meus filhos tenha capacidade de falar uma língua africana”.

Delito atribui culpas por esta limitação à saída da família para trabalhar no estrangeiro. Aliás, segundo diz, os filhos “arranham” ou percebem um pouco algumas das línguas nigerianas, onde a família viveu e trabalhou alguns anos, do que de Moçambique. É daqueles processos que muitas vezes se impõem, para assegurar integração em desafios de trabalho.

Prato predilecto

Delito, ou Hélder Muteia, tem extremas dificuldades de falar de pratos predilectos, porque justifica, não é um indivíduo que gosta de comer. Para ele, comer é uma obrigação. “Mas procuro sempre nas minhas refeições ter uma refeição equilibrada. O que não dispenso mesmo no pequeno-almoço é um batido de frutas. Em casa já sabem, que não se preocupem em preparar nem bifes, nem ovo estrelado, nem pão nem nada, se me falta um batido de frutas é um problema, todos já sabem lá em casa”.

Para a primeira refeição Delito não dispensa a boa matapa, qualquer prato com camarão, por força dos hábitos e costumes da Zambézia. O prato de carne é servido apenas uma vez por semana, para assegurar o consumo das carnes vermelhas e onde por força de vivências a esposa acabou aprendendo muito de nutrição, só pode imperar uma disciplina nutricional bem apertada. Muita verdura, frango, peixe diferenciado (entre carapau, corvina ou outro tipo, mas tudo bem calendarizado, é o menu seguido. De vez em quando, para matar saudades, a rigorosa e zelosa dona de casa autoriza boa dobrada e mão de vaca, mas tudo não exagerado.

Presidenciável

“Tudo começou de forma abrupta e foi uma indicação do próprio partido (Frelimo), que seleccionou alguns candidatos, que tinha potencialidades. Eu estava, um dia, em casa com a minha família, recebi uma chamada do Presidente Chissano, a dizer que o meu nome fazia parte da lista dos candidatos que seriam apresentados primeiro, em sessão do Comité Central, para a eleição do nosso candidato, que antes iria até trabalhar como Secretário-geral do nosso partido, e que eu era o candidato mais jovem, era uma aposta da juventude. Às minhas tentativas de resistir disseram não, se a juventude não diz presente, as pessoas vão começar a criticar essa mesma juventude, então fui até às últimas consequências, fui às eleições e hoje tenho nos meus registos que nas eleições fiquei em segundo lugar e guardo isso numa memória bem registada, está em livros, está em revistas e não posso fugir a essa realidade. Aconteceu e faz parte da minha história”.

E quem sabe, talvez ainda vai a tempo… “Essas coisas, eu já trabalhei no governo, eu sei que é um sacrifício, trabalhar no governo, as pessoas não sabem que trabalhar no governo, quer seja como ministro quer seja como Presidente da República, é um trabalho de sacrifício, sacrifício para si próprio e para a família. E a gente sente encorajada a fazer isso quando sentimos que há uma vontade para a gente cumprir essa missão. Quando houve uma vontade para que eu fosse ministro, eu aceitei porque havia essa vontade, para que eu fizesse esse papel, quando houve essa vontade de eu me candidatar eu aceitei porque senti que havia uma vontade do partido para que me candidatasse. Então, a gente nunca força o nosso destino. Não sou do tipo de pessoa de ambicionar coisas para as quais as pessoas nem sequer imaginaram que eu podia fazer um bom papel. Qualquer papel, que as pessoas acham que posso cumprir, não preciso de ser Presidente da República, qualquer papel, que o país diga que eu tenho capacidade de fazer bem, se é para ajudar ao meu povo, eu estarei disponível”.

Hélder Muteia diz que gosta mais de recordar boas memórias, as más, todas vão para sarjeta. Elege a independência nacional como memorável. Segue-se a infância, que deixou nele muitas coisas positivas, muito embora tenha sido passada num regime colonial e com muitos sacrifícios. A infância segue-se, porque conforme descreve, é daqueles momentos em que vivemos experiências ímpares. A ideia ao Chimoio foi outro marco da vida pela positiva. Permitiu mudança nos hábitos de paisagens zambezianas, fortemente marcadas por palmares e plantações de chá de Gurué, Lugela, para uma outra paisagem lindíssima. Delito diz que isto está bem registado na sua literatura. A beleza paisagística de Moçambique. Mais tarde conheceu outras paisagens do imenso e vasto Moçambique, como as plantações de arroz em Chokwé (Gaza), chocas mar, as praias do norte, Ilha de Moçambique, as praias de Wimbe (Pemba, Cabo Delgado) e muitas outras e ilhas como Inhaca, que promete nunca esquecer Chimoio.

Ainda nas boas memórias, Hélder Muteia elege igualmente a entrada no mundo da literatura, que o conferiu a capacidade de comunicar, a entrada no governo para servir ao país que o viu a nascer, passando por sacrifícios, e a memória de servir à humanidade.

“Na minha vida é como se eu ainda estivesse a viver a minha infância, cada dia sou surpreendido com novas iniciativas. As experiências que mais me chocaram foram as guerras, estou a falar da guerra dos 16 anos, fui vítima disso quando estava no Chimoio, também fui vítima de bombardeamentos de Ian Smith quando estava no Chimoio, depois a guerra com o “apartheid”, os bombardeamentos na Matola e tudo mais deixaram-me marcas muito profundas. As cheias de 2000 marcaram-me muito, porque foi o primeiro ano de ministro e tive que liderar um processo de salvamento das vítimas e de recuperação depois”.

Mesmo com agenda bastante apertada Hélder Muteia diz que continua a escrever, se bem que a nível de publicação não o tem feito com o mesmo rigor, mas doravante deixa uma promessa de pelo menos um livro por ano, até onde a vida o permitir, porque conta com muitas obras “publicadas na gaveta” e vai tirando-as para publicar em livro para partilhar as suas emoções.

Aos moçambicanos deixa uma mensagem de esperança. “É verdade que há muitos desafios que o país enfrenta, desafios não só no campo de desastres naturais, como também do ponto de vista de falta de investimentos, crise de fala de empregos, há muitos jovens que não encontram oportunidade de trabalho, porque a crise está ai, mas o país continua a crescer. Cada vez que eu volto de férias vejo que o país avançou em algumas áreas, como de infra-estruturas, vejo nas proximidades de Maputo a circular, a ponte da Ka Tembe, estradas melhoradas, a cidade de Maputo continua a pulsar. É verdade que algumas províncias estão com grandes desafios, por exemplo a Zambézia empobreceu, isso está nas estatísticas, particularmente no campo, é preciso melhorar um pouco as oportunidades de negócio nesta região, para que o combate à pobreza seja efectivo, mas a minha mensagem para o povo moçambicano é de esperança, de trabalho e de união. Juntos, nós chegaremos muito mais longe.

 

 

 

 

 

 

 

 

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