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Desconhece-se magnitude da intrusão salina (2)

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Baltazar Montemor

Sabe-se que a intrusão salina é uma realidade, mas não se conhece a dimensão do fenómeno. As abordagens baseiam-se em estimativas, muitas vezes por defeito, com alguma carga significativa de empirismo.

Na zona de Xai-Xai, quando a maré é viva (maré alta), nota-se nitidamente uma elevação acentuada das águas, devido à penetração do mar. Isto não tem solução, pois é um fenómeno natural. O que podemos fazer é encontrar formas de mitigar os impactos, através de medidas tanto estruturais como não estruturais. A edificação de barragem na região de Mapai, por exemplo, pode contribuir cada vez mais para empurrar a cunha salina, mas também pode haver medidas que passam pela construção de diques de defesa.

Embora não se conheça a magnitude da intrusão salina que afecta rios moçambicanos, o fenómeno é significativo e representa um problema a ter em conta. Fazem-se tarde acções que tenham conta a perspectiva de mitigação dos efeitos da intrusão salina. Essas acções deviam incluir a maneira como é feita a gestão das albufeiras, relativamente à quantidade de água liberta para a satisfação da demanda, tomando em conta este delicado fenómeno ambiental, que ameaça engolir-nos.

Reconhece-se o esforço do país, a nível internacional, de tentar encontrar formas, com os países com quem partilha rios, para garantia de um caudal ecológico, com o objectivo final de conter a intrusão salina. Estudos realizados em parceria com a África do Sul, eSwatini, antiga Swazilândia e o Zimbabué já indicam a necessidade de se fazer uma reserva de água, primeiro para caudais ecológicos, segundo para a contenção da intrusão salina.

Exemplifica-se com um acordo entre Moçambique, África do Sul e eSwatini (Acordo do Incomáti e Maputo), que estabelece uma reserva específica de água da Bacia para questões ambientais.

Tal como não se conhece a magnitude da intrusão salina também não se conhece a velocidade do fenómeno. Estima-se apenas que a intrusão salina leva uma velocidade considerável, para o desespero de milhares de afectados. Há uma certa progressão da cunha salina, isso não se pode negar, podendo citar-se situações concretas, a título de exemplo, do Rio Maputo, onde a intrusão salina já atingiu a região de Salamanga, com aumento progressivo dos níveis de sais, resultante da progressão da cunha salina para o interior.

O Distrito de Mabalane, em Gaza, é uma das extensas regiões do país atravessadas pelo Rio Limpopo. Em tempos as comunidades exploravam as baixas do rio, onde colhiam quantidades consideráveis de diferentes produtos agrícolas para consumo familiar e algum excedente para venda, gerando renda para a cobertura do resto das necessidades, como a aquisição de bens manufacturados, saúde, educação.

O efeito da intrusão salina e da salinização transformou este potencial em terreno árido. As comunidades viram-se forçadas a trocar as zonas baixas do Limpopo com as zonas altas de sequeiro. Aqui a dependência em relação à natureza (chuva) é bastante forte, com os níveis de produção e da produtividade bastante baixos.

“Agora temos muita fome aqui no Distrito de Mabalane, porque este ano choveu apenas uma vez. As sementes que haviam sido lançadas à terra germinaram, mas “arderam” todas, disse Rosa Jorge Maphosse. Esta aldeã de Mabalane lamenta o facto de as comunidades terem passado de grandes produtores de comida no vale do Limpopo, para dependentes de compras, porque já não conseguem produzir. “Compramos farinha e outros produtos em Chókwè..

Por força da baixa produção e da produtividade agrícola, em consequência da intrusão salina e salinização dos solos do vale do Limpopo, muitos produtores viram-se obrigados a trocar a agricultura com a produção de carvão, outra fonte de danos ambientais, por via da desmatação. Rosa Jorge Maphosse conta que também passou a produzir carvão que vende na cidade de Maputo.

Quase todo o norte da Província de Gaza regista elevados índices de destruição da floresta, em consequência da produção massiva de carvão vegetal, para fins comerciais, sendo o meio urbano o maior mercado de consumo. “Este negócio de carvão dá mesmo para fazer qualquer coisa”, consola-se Rosa Jorge Maphosse.

À semelhança das baixas do Limpopo, que perderam a capacidade produtiva devido à intrusão salina e salinização, a bacia do Incomáti está igualmente afectada pelo fenómeno. João Palate, da União das Cooperativas Agro-pecuárias de Marracuene, diz ser extensa a área que os produtores deixaram de explorar. Mais de cinco mil produtores estão afectados. “Temos uma grande parte, desde a zona de Macaneta, até aqui, onde já não se está a produzir nada! Não é possível produzir, porque houve muita salinidade e os terrenos estão afectados”, lamenta Palate.

Antes de Marracuene, o Rio Incomáti atravessa a região da Moamba. Aqui há igualmente áreas afectadas pela salinização. Joshua Sithoi, Presidente da Associação de Camponeses do Regadio da Moamba, contou que a agremiação foi forçada a deixar de explorar uma parcela considerável por estar afectada. “Temos cerca de 85 hectares que estão submersos nas bolsas de salinização”. A solução do problema está identificada, mas não há capacidade localmente. “Precisamos de reavivar ou reabilitar os canais de drenagem, porque estão totalmente obstruídos. São canais que requerem a intervenção de maquinaria pesada que não temos. Já tentamos manualmente, mas não chegamos a lado algum. A situação agravou-se com as cheias de 2000. Como é do vosso conhecimento, um regadio para funcionar em pleno deve, de cinco em cinco anos, sofrer alguma intervenção de manutenção ou pequena reabilitação. Todavia, passam-se mais de 30 anos que o nosso regadio não beneficia de qualquer intervenção requerida”, lamenta Joshua Sithoi. (continua)

 

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