Início Opinião De... Butsu Makanda A tribo e o poder (2)

A tribo e o poder (2)

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A história mostra que o conceito antropológico de tribo, clã ou linhagem familiar não é estático e por isso tem evoluído. No processo de evolução, o surgimento das nações, de poderes políticos e económicos têm usado a tribo ou para construir sociedades mais sãs, ou para exercer a sua influência para satisfazer os seus interesses de poder ou de nação. O colonialismo e os sistemas opressores usaram e ainda usam a existência de grupos étnicos para consolidar o seu próprio poder. Outros sistemas de poder político de cariz patriótica procuram substituir a tribo baseada nos clãs para criar uma nova “tribo” de âmbito mais nacional. O poder empresarial procura criar novas tribos para ampliar o seu mercado e consolidar a lealdade aos seus produtos.

Durante a regência de Samora Machele em Moçambique, o Partido FRELIMO, no Governo, fez um esforço para se criar uma identidade mais nacional do que tribal. As questões da tribo e de clãs não tinham espaço no poder político e administrativo. Era como se houvesse um esforço para substituir uma forma de tribo por outra, com conectores diferentes das linhagens, dos grupos étnicos e dos clãs. Nas cidades, a vizinhança se transformou em quarteirão com ligações comuns, que poderiam ir desde a limpeza do quarteirão à vigilância contra os malfeitores, sabotadores, especuladores, etc. Vários quarteirões faziam o Bairro que tinha igualmente os seus laços e a sua hierarquia das chefias. No campo, a aldeia comunal emergia como forma de criar novos laços entre os seus membros. A cooperativa e a associação montavam novas formas de ligação entre os membros da aldeia. A escola e o grupo dinamizador ligavam os aldeões, os vizinhos e os bairros. Os festivais nacionais de canto e dança procuravam ligar culturas de tribos diferentes. Funcionários do Aparelho de Estado eram transferidos do Sul para o Centro ou Norte e vice-versa. E assim nascia uma nova “tribo” de escala nacional. Julius Nyerere, primeiro Presidente da Tanzania seguiu um caminho similar. Nyerere na sua famosa “Declaração de Arusha” buscava a união dos vários grupos étnicos do País para construir a nação através da estratégia “Ujamaa” (o que em Swahili significa “família alargada” ou “irmandade”). Kenneth Kaunda da Zâmbia seguiu caminho similar com o slogan “Uma Zâmbia, Uma Nação”.

O contrario também existiu e existe. Em Moçambique, a emergência do sistema de economia de mercado negou radicalmente os actos do socialismo, incluindo as praticas associadas a construção da unidade nacional. Embora o discurso politico de hoje continue a apregoar esta a unidade, poucas são as prácticas que indicam deliberadamente essa direcção. Com o sistema de economia de mercado, os conectores rumo a Moçambicanidade são substituídos por laços baseados em objectivos puramente económicos, associados ao dinheiro. Por isso, o poder económico tem espaço amplo para ignorar a tribo, ou usá-la a seu favor com valores associados ao dinheiro.

Os sucessos do poder económico no uso da tribo a seu favor, depende muito da estabilidade económica e social. Quanto maior for instabilidade, maior espaço existe para o sucesso de poder politico e económico. O poder politico Nazi, aproveitando-se da crise económica da Alemanha surgida na I Guerra Mundial, arranjou artifícios pseudocientíficos para dividir a raça branca em tribos diferentes e construiu a rivalidade entre eles. Com o Nazismo apareceram as tribos brancas dos Arianos do Norte, do Sul, do Mediterrâneo, os Persas e os Não Arianos. Os Arianos (onde estariam os alemães) eram considerados uma tribo superior, mas com hierarquias e sub-hierarquias entre eles. Aparentemente, com base nessa divisão tribal iniciou-se uma guerra de invasão às tribos arianas mais inferiores e de exterminação das tribos não arianas. No fundo, esta divisão tribal procurava consolidar as ambições de poder de Hitler e da hegemonia da Alemã. No Ruanda, embora os Tutsis e os Hutus não fossem e nem sejam tribos tão distintas uma da outra, o poder colonial criou uma fissura entre eles, que foi perpetuada após a independência e acabou levando a um genocídio horrendo. E o genocídio foi possível na altura em que o mercado de café (principal produto de exportação de Ruanda) colapsou grandemente no mundo. Papua Nova Guiné, que tem recursos abundantes de petróleo e pedras preciosas, tem sido palco de genocídios que facilitam a exploração daqueles recursos para sustentar o poder económico de alguns. No mundo Árabe, Os sunitas e xiitas são apresentados como tribos rivais que se matam uns aos outros para facilitar o negocio de petróleo. Kristen Kao[1] numa das suas dissertações denominada diz que “O impacto das tribos depende grandemente da força e estrutura das instituições aonde operam. Em Estados falhados ou fracturados, como o Iraque e Líbia, o tribalismo pode ameaçar seriamente a reconstrução das nações, contribuindo para o declínio rápido do nacionalismo, quando os Estados colapsam. Estudando os Estados não falhados, como o Jordão, também ajuda a realçar as formas mais subtis nas quais o neotribalismo sustenta ambos o poder de tribo e a estabilidade do regime”.

Aqui em Moçambique, que não se tem memória de guerras entre religiões, surgem matanças entre Moçambicanos de religiões diferentes, nas regiões do Norte do País, onde se descobriram grandes reservas de gás, de interesse dito estratégico para os centros do poder económico.

Mas o poder económico faz mais do que dividir tribos para reinar. Muitas vezes, esse poder penetra em sociedades ou camadas sociais que tem as suas raízes tribais enfraquecidas para criar “novas tribos” de consumidores. Isto acontece porque essas empresas quando estimulam o consumo de um certo produto, procuram transformar o consumidor num promotor ou agente de “marketing” desse produto.  É assim que surgem grupos que se consideram “tribos” da Apple, da BMW, da Harley Davidson, da Audi, etc.

Os argumentos plantados aqui, ainda que insuficientes, testemunham que o poder das linhagens de família, de grupos étnicos, da tribo antropológica ou moderna, é muito grande. O uso conveniente destes grupos pelos poderes políticos e económico pode levar a construção de sociedades estáveis e sãs, ou pode levar ao colapso de Países ainda em formação. Como diz um ditado Índio “quem tem um pé na canoa, e outro pé no barco, vai cair no rio”. É necessário reconhecer que a tribo existe e vai existir, e a sua existência pode ser usada para construir uma identidade nacional, condição importante para conquistar o lugar de Moçambique na sombra do desenvolvimento global.

 

[1] Investigadora no Departamento de Ciências Politicas, Universidade de Gotemburgo

 

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