Iniciamos esta reflexão reafirmando a solidariedade que sempre reiteramos, para com a justiça, desde que ela seja justa, isenta de qualquer manipulação para fins inconfessáveis. Somos solidários para com uma justiça justa, que não é aplicada em função de A, B ou C, muito menos da cor de qualquer natureza, se partidária, religiosa, política, raça, etc. etc.

Logo, em momento algum fará parte dos nossos princípios, neste espaço, sair em defesa de alguém, quando julgado e condenado por crimes irrefutáveis. Sempre expressamos esta clareza quando reflectimos sobre as chamadas dívidas ocultas, e não seria excepção no caso que corre, envolvendo a figura do Deputado da Assembleia da República e antigo Ministro das Finanças, Manuel Chang. Se meteu foice em seara alheia que seja feita a justiça, na mesma dimensão e proporção em que os crimes terão sido cometidos.

A nossa neutralidade não nos proíbe, todavia, de arrolar factos que de uma ou de outra forma acabam sendo chamados, quando determinados processos públicos são accionados.

É bem antigo e suficientemente conhecido o apetite de alguns círculos externos, de ver removidos do poder os partidos libertadores em África, com destaque para a Frelimo, em Moçambique, MPLA, em Angola e ANC, na África do Sul.

A justificação por este apetite insaciável e nunca confessada indiscretamente funde-se no facto do compromisso dos partidos libertadores com os valores nobres de uma nação, fechando todos os caminhos que possam abrir os respectivos países a uma tão apetecível neocolonização, que para esses círculos tarda tanto a chegar.

Está claro que com aqueles partidos no poder a penetração ocidental nos moldes em que se pretende se torna bastante complexa se não impossível. É daquelas barreiras em que os factos não olham aos fins, nem que seja necessário sacrificar uma vida.

A agravar os apetites indisfarçáveis, o posicionamento geográfico de Moçambique, Angola e África do Sul, aliado às suas riquezas em incubação. O General jacinto Veloso escreve no seu livro, que os principais países do Ocidente estão convencidos de que Moçambique continental e offshore é potencialmente e extremamente rico em hidrocarbonetos, uma reserva energética que se pretende manter, em benefício dos interesses das potências euro-americanos.

Todas as forças de centro-direita e os seus Serviços Secretos combatem a Frelimo por aquilo que pensam que o partido libertador representa, nomeadamente potenciais ameaças aos interesses euro-americanos em Moçambique e na região. Tudo terá de ser feito para neutralizar a Frelimo enquanto for potencialmente hostil aos actuais e futuros interesses ocidentais. O Ocidente faz de tudo para preservar a geoestratégica da logística do invejável Canal de Moçambique e da Rota do Cabo, à luz dos interesses euro-americanos do mercado das matérias-primas.

Todos os dias passam em frente do litoral de Moçambique uma média de dezasseis grandes petroleiros, que transportam pelo Canal de Moçambique 30 por cento do petróleo bruto mundial, o que demonstra claramente a importância estratégica do mar moçambicano, do Canal de Moçambique e da Rota do Cabo. É tudo isto e algo mais que expõem Moçambique permanentemente a apetites ocidentais, de difícil satisfação pelo menos na dimensão e nos moldes em que o Ocidente pretende, enquanto estiver no poder o partido libertador.

Foi nesta época do partido libertador, que Moçambique disse, de forma categórica, NÃO, à pretensão das multinacionais, de trazer a sua própria segurança, num encaixe financeiro que não está abaixo de um milhão de dólares/dia. Moçambique, do partido libertador, disse que a capacidade de garantir a segurança existia em nós. Aliás, esse encaixe financeiro até ajudaria a emprestar outra robustez às nossas Forças de Defesa e Segurança. E hoje o país paga pela tamanha ousadia!

Ora, a confirmarem-se os factos que envolvem a figura do antigo governante moçambicano e outras tantas celebridades, mais do que nunca os apetites pela remoção do partido libertador conseguiram alcançar uma etapa importantíssimo, num claro novo salto qualitativo na sua prolongada luta pela remoção da Frelimo.

Vai daí que mesmo a recandidatura de Filipe Nyusi nas eleições de 15 de Outubro, apesar de reafirmada pela Frelimo, nos tempos que correm não pode ser assumida como líquida, porque enorme investimento está sendo realizado para que Nyusi não seja opção da Frelimo nas próximas eleições, o que a confirmar-se seria inédito, desconfortável e embaraçoso para a história do partido libertador, em que um seu Presidente não é preterido para um segundo mandato constitucional. Nyusi é visto como próximo dos ideais do inconveniente partido libertador.

Para o objectivo de a Frelimo preterir Nyusi trabalha-se no duro e investe-se tudo. Mesmo que internamente se negue, por conveniência, o próprio partido tem a plena consciência das fissuras internas no âmbito desse projecto.

A dúvida é se caso Nyusi seja preterido, os círculos externos se vão rever no candidato diferente. Para eles só será candidato ideal (fantoche) aquele que rompa completa e absolutamente com os ideais do partido libertador. Não é menos verdade que o MPLA, em Angola e o ANC, na África do Sul, igualmente já se ressentem do ódio ocidental. Para o Ocidente, líder ideal em qualquer dos três países é aquele que abre plenamente as portas para esse mesmo Ocidente se impor e ditar as regras de jogo.

Quis esta etapa que o “big brother” (?), África do Sul, se metesse numa “saia tão justa” para um desconforto diplomático total para sempre. A independência dos poderes jamais livrará a África do Sul de um sarilho diabólico em que se envolveu, ao executar o mandado norte-americano. Arrisca-se a ser vista como vestida da mesma indumentária de antes da libertação de Nelson Mandela, quer a nível de Moçambique quer a nível da região no seu todo, e porquê não de todo o continente. Aliás, são abundantes e muito antigas as lamúrias do lado de cá, no sentido de que é intolerável a arrogância com que os sul-africanos lidam connosco.

O caso Chang não se pode resumir a Manuel Chang apenas. A prazo se virá que está acima de tudo todo um Estado em causa, sendo que para tal até se legitima o ilegítimo, para se chegar a um certo objectivo final, em qua a aniquilação do Estado está em primeiro lugar.

A África do Sul teve tudo para se livrar deste desconforto e deixar o cumprimento do mandado para os outros. Mas, como o poder judicial sul-africano mantém-se praticamente o mesmo do tempo antes do Madiba, as coisas continuam como se apresentam.

Não queremos, de forma alguma, aqui e agora, discutir o mérito ou demérito dos procedimentos judiciais no caso em alusão, mas sim as implicações colaterais já a nível de Estado, num mundo em que aprendemos que nem todas as leis são perfeitas e até as liberdades devem ser imitadas.

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