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Sonho antigo de Seretse Khama

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Baltazar Montemor

A frequência invulgar para um chefe de Estado, com que o novo Presidente do Botswana, Mokgweetsi Masisi, tem vindo a Maputo, mesmo antes de ser empossado, pode estar ligado ao desejo do antigo Presidente tswana, Seretse Khama, de se “libertar” economicamente da gigante África do Sul, para o seu comércio internacional.

Mokgweetsi Masisi está novamente em Maputo, desta feita supostamente em gozo de férias. Mesmo em gozo de licença disciplinar tornou-se inevitável um encontro com o seu homólogo moçambicano, Filipe Nyusi.

A nova estada do estadista tswana em Maputo segue-se a uma recente visita, a segunda oficial a Moçambique, em tão curto espaço de tempo, pouco comum nas relações entre Estados. O Botswana faz parte do grupo de contacto, no âmbito dos esforços visando a paz efectiva e definitiva para Moçambique.

Por outro lado, as questões económicas assumem uma relevância extraordinária. Apesar de Moçambique e o Botswana não partilharem fronteira comum, estando separados por uma extensão de cerca de 500 quilómetros, passando pela fronteira de Ressano Garcia, atravessando a África do Sul, há projectos há muito ventilados.

Na sua região norte, o Botswana assume-se produtor de carvão de eleição e busca alternativas mais competitivas para o escoamento do mineral, sendo que há muito se identificou um porto de águas profundas na região de Titchobanine, na Província de Maputo. A rota a seguir seria a linha do Limpopo, a partir do Zimbabué. Por outro lado, o Botswana está interessado na extensão o pipeline que sai da Beira para o Zimbabué, através da região zimbabueana do Bulawayo, para o norte do país de Mokgweetsi Masisi, de modo a ser uma fonte privilegiada de abastecimento de combustíveis líquidos para Gaberone, cuja maior parte, neste momento, entra através da África do Sul.

É indisfarçável o semblante carregado de muitas reticências com que o Botswana encara as suas relações com a África do Sul. Não são más, mas podiam ser melhores. A África do Sul, sempre que deparar com uma necessidade extrema, pode reter o combustível em trânsito para o Botswana, vendo Gaberone na contingência de encontrar fontes alternativas de busca deste recurso.

O Botswana busca por assim dizer, o alargamento do seu espaço de conforto para respirar à vontade do ponto de vista económico. Politicamente é bastante forte, no Botswana, o discurso da necessidade ou imperativo de aliviar o sufoco que o país sofre da África do Sul. Não se esconde no país o sentimento de que a economia tswana é absolutamente dominada pela África do Sul, para o desconforto total na sociedade de Seretse Khama.

De parceria com o escoamento de carvão e transporte de combustível, o Botswana precisa igualmente de diversificar as suas alternativas, sob pena dessa dependência exclusiva ser usada como moeda de pressão política. Por agora Moçambique apresenta-se como alternativa privilegiada para a diversificação dos interesses económicos do Botswana, a começar pela vantagem de natureza geográfica, que inclusivamente garante acesso ao oceano índico, através do qual Gaberone encontra muitos países com os quais realiza negócios internacionais. É inquestionável a vantagem geográfica e geopolítica bastante forte a ser capitalizada favorável ao Botswana.

A irritação que causa a dependência crónica do Botswana em relação à África do Sul não é de hoje. A génese da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral, SADC, por exemplo, está no facto de o Botswana ter tido a necessidade de apoiar a luta pela libertação da África do Sul, Namíbia, Moçambique. Neste contexto, o antigo Presidente do Botswana, Seretse Khama, pai do anterior presidente, Ian Khama, desenvolveu o conceito de independência em relação à África do Sul.

Na época, essa independência tinha um cunho mais político, porque visava evitar depender de um regime indesejável na região, o “apartheid”. Hoje, essa independência mostra-se ainda mais relevante, desta feita do ponto de vista económico. É tão natural e normal que um país deseje ter este tipo de independência, porque por mais excelentes que sejam as relações as relações entre Pretória e Gaberone, o Botswana não pode demitir-se da necessidade de diversificar os seus laços de cooperação, para una paz espiritual.

O que deve ficar claro é que não estamos perante uma situação de conflito entre a África do Sul e o Botswana, mas sim a necessidade legítima de Gaberone diversificar o seu risco, suas fontes e suas relações económicas, sendo que Moçambique apresenta-se como melhor alterativa.

Não é menos verdade que Moçambique também pode tirar benefícios das relações com o Botswana, em áreas como de gestão económica, em que este país é um dos melhores em África. O Botswana é quase o único país conhecido em África, com um saldo positivo nas suas reservas líquidas externas. A isto acresce-se o turismo cinegético, em que se encontra uma política de conservação da natureza invejável

A confirmar-se o rumor de que Moçambique tem reservas de diamantes, o nosso país teria grande interesse na longa experiência do Botswana, um dos maiores produtores mundiais deste recurso, num mercado mundial dum negócio extremamente complicado que os diamantes encerram. Por outro lado, o Botswana desenvolveu uma indústria de processamento de diamantes que Moçambique não pode dispensar. Sublinhe-se que a indústria diamantífera do Botswana é detida maioritariamente por cidadãos tswanas.

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