Ao que tudo indica no fechar desta quinta-feira, 17 de Janeiro, a RENAMO, maior partido da oposição no pais, contará com um novo presidente, sucedendo a Afonso Dhlakama, falecido em 3 de Maio vitima de doença, após ter dirigido os destinos desta formação por 39 anos, tempo suficiente para enraizar e cimentar a sua influência junto dos seus seguidores e simpatizantes e ganhar popularidade nacional e internacional.

O finado líder, ao longo da sua vida assumiu-se como <dono> deste movimento de guerrilha, transformado em partido apôs o Acordo Geral da Paz (AGP), ofuscando mesmo a memória do fundador desta formação armada, André Matsangaíssa, que após fundá-la nos finais de 1975 perdeu a vida em combate contra as forças governamentais lideradas pela FRELIMO em 1979, somente quatro anos depois. Este intróito, serve para ilustrar o quão e árdua é tarefa de sucessão, para se ter alguém à altura de satisfazer as ansiedades das massas que arrastou e convenceu, ressalvando-se o mérito de ter confrontado três presidentes, militar e politicamente, nomeadamente Samora Machel, Joaquim Chissano, Armando Guebuza e Filipe Nyusi, tendo sobrevivido, sobretudo, devido às suas intervenções e chantagens belicistas de “arderˮ o país.

Após sua morte, também sentida porque estava decididamente empenhado na busca de uma paz efectiva, junto com o Presidente Nyusi, com acordos sérios nesse sentido, incluindo o processo de desmilitarização de seus homens armados, impõe-se o desafio da sua sucessão e levar a bom porto o processo de paz.

Assim, o sexto congresso que abriu as portas na terça-feira, 15 de Janeiro, na Serra da Gorongosa, província de Sofala, que a RENAMO considera como sua base histórica, terá um papel determinante sobre a Renamo que se espera.

Os cerca de 700 delegados anunciados por esta formação politica, ainda armada, terão que fazer a escolha “certaˮ entre os candidatos, sendo que três já manifestaram a sua predisposição em substituir Afonso Dhlakama na liderança do partido, que neste momento é coordenado por um dos Generais da RENAMO, Osssufo Momade.

Caso não haja desistência, será uma disputa renhida, pontificando na contenda eleitoral, o próprio Ossufo Mamade, militar de gema e que parece ter-se apropriado do discurso bélico do finado líder.
Aliás, várias correntes de opinião, particularmente no seio da própria RENAMO aponto-o como favorito, inclui-se o porta-voz do partido José Manteigas e o incontornável António Muchanga, entre outros que já declararam o seu voto publicamente.

Ossufo, alegadamente conseguiu manter a coesão do partido, conhece profundamente a estratégia militar e vive no seio dos guerrilheiros na Serra da Gorongosa onde vivia Dhlakama, e sendo dirigente, mesmo que interinamente, o empresta alguma legitimidade, além de considerarem que controla os políticos que circulam nas capitais provinciais e os que representam a fasquia populacional da RENAMO no parlamento como deputados.
O actual secretário-geral da RENAMO, Manuel Bissopo, que filiou-se a RENAMO na calada do AGP, é um dos nomes que já era apontado para liderar o partido logo após a morte de Afonso Dhlakama, assumindo-se como seu delfim, considerado como quem pode muito bem representar a RENAMO política e gerir os interesses da RENAMO militar, visto ter convivido de perto com os militares renamistas quando Dhlakama vivo. E, os seus cerca de 25 anos de militância e a sua ascensão a secretário-geral podem o revestir de alguma confiança perante os membros e simpatizantes da RENAMO. Porém, a sua derrota na Beira nas últimas eleições autárquicas o fragilizam.

Outro candidato assumido é o irmão do finado, Elias Dhlakama que é brigadeiro na reserva das Forças Armadas de Moçambique (FADM). Foi integrado há mais de 20 anos no contexto da inserção dos homens armados da RENAMO, passando, nos momentos de confronto militar, a estar do lado oposto a RENAMO. Possui dois graus académicos, uma licenciatura e um mestrado, e, não menos importante, o nome. Pode um grupo achar determinante capitalizar-se o apelido Dhlakama para a vitalidade do partido e manutenção do entusiasmo popular dos seguidores da RENAMO.

A integração no exército governamental pode ser significativo para reformar a doutrina militar ainda inculcada nas mentes de alguns oficiais da RENAMO, que vêem ainda a componente bélica como a sua única bóia de salvação política no país.

Todavia, não e bem visto no seio da RENAMO, sobretudo pela elite militar, que o tem como uma pessoa corrompida pela FRELIMO, que esteve nas Forças Armadas a usufruir de todos os benefícios e benesses que o Estado oferecia e nunca lutando pela causa da RENAMO.
Além de que à luz dos sete requisitos avançados pelo Conselho Nacional para se ser elegível a presidente da RENAMO, Elias Dhlakama poderá ser descarto logo a priori caso não haja reconsiderações. Pois, exige-se, no mínimo, 15 anos de militância, ser membro idóneo e de reconhecido mérito e ter ocupado uma posição de relevo no partido, como secretário-geral, membro do Conselho Nacional, da Comissão Política Nacional ou, por exemplo, do Conselho Jurisdicional, além de ter exercido no mínimo cinco anos de política activa. E, Elias Dhlakama não tem historial político. No entanto, a RENAMO pondera deliberar sobre algumas situações excepcionais neste congresso, a ver vamos.

Enfim, sobre quem assumirá as rédeas dos destinos da RENAMO cabe aos seus membros, particularmente os delegados que vão votar na quinta-feira, que provavelmente conhecem melhor o perfil dos candidatos e do que esperar deles, quanto a nós cabe exprimir a expectativa de muitos, deste lado da sociedade moçambicana no país, incluindo fora de portas.

Espera-se que deste congresso, onde além da eleição do sucessor de Afonso Dhlakama, terá lugar a eleição de novo secretário-geral e membros da Comissão Política e do Conselho Nacional, saia uma RENAMO decidida em apartar-se da vida militar e abraçar a política como seu único instrumento de luta pelo poder.

Uma RENAMO reforçada na sua estratégia de actuação política e que se oriente para melhor domínio do quadro legal intrínseco aos processos eleitorais e de sua contestação em tempo útil, servindo-se dos instrumentos legais existentes e aprovados também pelos seus representantes no Parlamento.

Espera-se, tanto a nível interno assim como internacional, que os machados de guerra sejam enterrados definitivamente, cimentando-se uma paz definitiva, que garanta um foco colectivo no desenvolvimento e progresso do pais, sem discursos belicistas, reintegrando as suas forças residuais na vida social e económica, proporcionando aos ex-guerrilheiros e suas famílias uma vida normal, sem o aprisionamento nas matas, feitos órfãos de serviços sociais e oportunidades de melhorar suas vidas que a convivência livre e efectiva em sociedade oferece.

Que o sexto congresso da RENAMO nos traga um partido decidido em encerrar o dossier da paz e olhar para as próximas eleições gerais, presidenciais e legislativas, e para as Assembleias províncias com clarividência!

Osvaldo Tembe

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *